Três relatórios do Sínodo destacam o quanto os bispos ainda precisam de educação sobre LGBTs

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18 Outubro 2018

Na terça-feira, o sínodo divulgou os relatórios dos círculos menores (divididos por idioma). Como só em inglês consigo ler suficientemente bem para entender esses relatórios, fiquei limitado aos relatórios dos quatro grupos de língua inglesa, onde participam padres sinodais de países diversos: EUA, Austrália, Índia, Irlanda, Canadá, Paquistão, Reino Unido, algumas nações africanas e muitos outros.

A reportagem é de Francis de Bernardo, publicada por New Ways Ministry, 17-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

No entanto, o Crux forneceu resumos dos relatórios dos outros grupos linguísticos. No Grupo A, de língua espanhola, cujo presidente é o cardeal guatemalteco Óscar Rodríguez Maradiaga e cujo relator é o cardeal José Luis Lacunza Maestrojuán, do Panamá, o Crux informou que a menção de questões relacionadas a pessoas do mesmo sexo, estava num mesmo parágrafo que questões relacionadas com a vida nas gangues: “[O relatório] abordou a realidade de jovens que são membros de gangues, dizendo que sua realidade não pode ser ignorada. ‘Seu único amor é o do grupo, e não é fácil entrar nesses círculos que são tão fechados e também não é fácil para os jovens deixarem esses grupos’”, disseram eles.

Papa Francisco com o cardeal Maradiaga
(Reprodução New Ways Ministry)

“No mesmo parágrafo, o grupo falou sobre ‘o que fazer e como agir com os homossexuais, que não podem ser deixados de fora da nossa pastoral, e com outras realidades como o casamento entre homossexuais, gravidez por substituição (barriga de aluguel), adoção por casais do mesmo sexo: todas as questões atuais que são propagadas e financiadas por instituições governamentais internacionais’”.

O relatório não explicava qual era a conexão entre as gangues e as questões LGBT, mas havia mais do que alguns poucos jornalistas tentando entender. Igualmente estranha é a referência a programas LGBT sendo promovidos e apoiados por governos estrangeiros. Esta referência parece remeter ao mito de que a ajuda externa depende de o país aceitar a igualdade LGBT.

Robert Shine, da Bondings 2.0, vasculhou os relatórios e encontrou outra menção aos homossexuais no Grupo de Língua Portuguesa, cujo presidente é o cardeal do Vaticano João Braz de Aviz e cujo relator é o bispo Joaquin da Silva Mendes, S.D.B., de Portugal.

“Também foi comentado que o Sínodo precisaria refletir sobre a vocação daqueles que permanecem solteiros sem referência a uma consagração particular e ao matrimônio. Este também é o caso das pessoas homossexuais. Não é missão da Igreja responder a todas as realidades particulares, mas é seu dever cuidar, acompanhar, ajudar o jovem a dar direção e sentido à própria vida, ajudá-los a fazer o bem”.

Cardeal João Braz de Aviz
(Reprodução New Ways Ministry)

É um comentário curioso. Parece dizer que a Igreja não pode desenvolver ministérios para todos os tipos de pessoas. Uma declaração estranha dos líderes de uma Igreja que se chama de “católica”, que significa “universal”. A Igreja não quer reconhecer as necessidades e os dons de todos os fiéis?

O grupo português acrescentou outra declaração curiosa ao seu relatório:

Afetividade e sexualidade: falou-se sobre as diferenças entre o ensinamento da Igreja e o que é a prática entre os jovens. Muitos ignoram, outros questionam, outros são influenciados pela ideologia ou informação científica em áreas onde nem sempre há um consenso”.

Espero que estas não sejam referências a questões LGBT, porque isso significaria que esses bispos veem a sexualidade e a identidade de gênero como influenciadas politicamente. Além disso, isso significaria que eles não reconhecem que há um forte consenso científico no entendimento da orientação homossexual e da identidade transgênero como um fenômeno que ocorre naturalmente e como parte das variações normais dos espectros de sexualidade e gênero.

No Grupo D de Língua Inglesa, cujo presidente é o cardeal Daniel DiNardo dos EUA e cujo relator é o bispo Robert Barron, também dos EUA, havia uma referência indireta às questões LGBT:

“Um motivo que chamou especialmente a atenção do nosso grupo é o nítido contraste entre uma antropologia da autocriação e uma antropologia da vocação. Em grande parte da cultura pós-moderna, os indivíduos são encorajados a se inventarem e a definirem seus próprios valores através de um exercício de liberdade. Mas isso é incompatível com uma compreensão bíblica do ser humano que é chamado pela voz de Deus, encorajado a ir além de seus próprios projetos e planos e se render àquele ‘que pode fazer infinitamente mais do que podemos pedir ou imaginar’”.

Cardeal Daniel DiNardo
(Reprodução New Ways Ministry)

Por que eu acho que essa é uma referência indireta a questões LGBT? Principalmente porque termos como “autocriação”, “se inventar”, “definir seus próprios valores” e “exercício da liberdade” são alguns dos termos que muitos líderes religiosos anti-LGBT usam para descrever a experiência LGBT. Eles veem o reconhecimento, afirmação e declaração da orientação sexual ou identidade de gênero de uma pessoa LGBT como uma escolha feita pela pessoa ou como um ato de vontade.

Qualquer um que tenha contato com uma pessoa LGBT sabe que esta é uma descrição totalmente imprecisa de como uma pessoa entende, aceita e compartilha sua orientação sexual e identidade de gênero. Para a maioria esmagadora das pessoas LGBT, esse processo de “sair do armário” é descrito como uma jornada de descoberta ou mesmo discernimento. Para muitos, envolve um processo que é muito semelhante aos tipos de discernimento que o próprio sínodo propõe. As pessoas ponderam seu autoconhecimento e experiências com a sabedoria da Igreja, da ciência, de seus amigos, de conselheiros confiáveis, de guias espirituais e, de todo esse autoexame, chegam a um ponto em que encontram seu verdadeiro eu.

Qualquer um que tenha contato com uma pessoa LGBT católica ouvirá frequentemente que sua história vai até além disso. Além de ver o seu processo de se assumir como um discernimento, muitos relatam que eles veem essa experiência como um chamado de Deus, uma vocação, para viver a vida verdadeira, plena e livremente. Eles acabam reconhecendo que sua existência enclausurada era muitas vezes um falso modo de vida que lhes causava dor, angústia e alienação de Deus e da vida de fé. Aceitar uma identidade LGBT não é o oposto de uma vocação, como parece sugerir esse relatório sinodal, mas, de fato, a própria essência da vocação: um chamado de Deus para viver a vida da maneira como Deus os criou e como os destinou que vivessem. O ato de se assumir é uma resposta ao Deus que é Amor, de aceitar os modos que Deus quer que eles se relacionem com outras pessoas no mundo.

Relatórios como os três mencionados acima destacam quão importante seria para a juventude LGBT ser representada no sínodo. E, mais importante, quanto os bispos, em geral, precisam dialogar com as pessoas LGBT para aprender sobre a realidade de suas vidas e de sua fé.

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