A missão vicentina em tempos de Bolsonaro. Alguns elementos para provocar a reflexão sobre a missão vicentina em tempos de avanço da direita

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08 Novembro 2018

"Com Deus acima de todos, servir prioritariamente os mais pobres, lutar pelos seus direitos e buscar a transformação social não é 'coitadismo', nem é ser 'comunista', mas exigência da fé", escreve Pe. Eli Chaves dos Santos, CM, ex-superior provincial dos padres vicentinos, ex-assistente Geral da Congregação da Missão e atualmente é formador na etapa da teologia.

Segundo ele, "não podemos ficar paralisados pelo medo, ressentidos e desesperançados. Papa Francisco nos convoca a seguir em frente: “Os desafios estão aí para ser superados. Sejamos realistas, sem perder a alegria, audácia e a entrega esperançada” (EG, 109)".

Eis o artigo

Estamos saindo de uma das eleições mais agitadas e atípicas de nossa história. O ambiente foi de muito extremismo e polarização ideológica. Inaugurou-se um novo modo fazer política pelas redes sociais, com uma impressionante invasão das fake news. Com o sentimento da confiança traída por parte de quem governou o país nesses últimos anos, cansado de tanta corrupção e desmandos e desacreditado com a política, o povo quis mudança, mas acabou se dividindo fortemente e criando uma situação de povo contra povo – “coxinhas x petralhas” ou “nós x eles”; um forte clima emocional dificultou a análise e o discernimento. Foi assustador o alto índice de violência e ódio – “o ódio saiu do armário”, afirmou um analista político. Foi eleito um Presidente que se declara abertamente de direita, e por muitos classificado como de extrema-direita e até mesmo com traços fascistas.

Seguramente, será necessário muito tempo, muito esforço crítico e muito discernimento para entender o que aconteceu, o que está acontecendo e o que acontecerá neste momento de nossa história. É inegável que o resultado das eleições confirma no Brasil a vitória e a presença da onda conservadora que avança em várias partes do mundo. De modo muito particular, esta nova conjuntura trará inevitáveis consequências e novas exigências para o trabalho de evangelização da Igreja e, especificamente, para o serviço da Família Vicentina junto aos pobres.

1. O momento presente é cheio de inquietantes interrogações. Por exemplo: o que significará o mandato de um presidente cercado e apoiado por inúmeros evangélicos de linha proselitista e conservadora, por ruralistas pouco sensíveis aos direitos dos trabalhadores e à proteção do meio ambiente, pela ‘bancada da bala’ que deseja a revogação do Estatuto do Desarmamento, por militares insatisfeitos com os avanços democráticos no país, por empresários liberais e ávidos de lucros e por políticos sem engajamento popular? A superficialidade e a truculência da linguagem da campanha eleitoral, a ‘demonização do PT’ que gerou a onda antipetismo, a ousadia e a agressividade autoritária de muitas das afirmações do candidato vencedor, sua história política polêmica e contrária às causas populares, etc., serão suficientes e capazes de se transformar em respostas concretas e eficazes aos graves problemas nacionais, sobretudo dos pobres?

Que dizer de um futuro presidente que se autoproclama “cristão convicto”, que se diz escolhido por Deus, que promete liberdade para todos, liberdade religiosa, que se propõe a governar a partir da verdade que liberta (Jo 8,32), mas que se fecha em ‘sua verdade’ e se recusa a dialogar e debater abertamente suas propostas; que, como nostálgico da ditadura, viu seus opositores como inimigos a serem eliminados; que ridicularizou os direitos humanos, confessou ter como seu “herói” o coronel reformado Carlos B. Ustra, reconhecido pela justiça como torturador no período da ditadura militar, escancarou seu ódio ao criticar D. Paulo Evaristo Arns, o profeta dos direitos humanos, de “desocupado”, “vagabundo” e “megapicareta”; que negou as minorias e classificou de “coitadismo” a atenção prioritária dada aos mais desfavorecidos e empobrecidos; que rotulou de “terroristas e comunistas” os que lutam pela transformação social; que classificou o CIMI e a CNBB como “parte podre da Igreja Católica”?

No interior da Família Vicentina, como compreender nossa missão de ‘servidores dos pobres, que buscam a mudança de estruturas’ dentro deste novo contexto sociopolítico? Que dizer da atitude de líderes vicentinos que vestiram a camisa de Bolsonaro e declararam abertamente voto neste candidato? Não parece estranho que muitas pessoas de nossa Família Vicentina não se sintam incomodadas com esta onda conservadora, festejando a eleição do “Capitão” com um verdadeiro salvador da pátria e abraçando suas ideias e propostas, tranquilamente e sem nenhum questionamento?

2. Inquietar-se diante da vitória da direita conservadora não significa, ingênua e automaticamente, abraçar e isentar a esquerda de seus erros – afinal, Lula e o PT não corresponderam às expectativas do povo, deixando-se levar pela corrupção, fisiologismo político e assistencialismo, e Bolsonaro, segundo não poucos analistas, é o fruto amargo dos erros do PT! O motivo da inquietação são as ideias, atitudes, políticas e propostas extremistas, preconceituosas, autoritárias e excludentes que podem provocar um retrocesso em relação aos direitos fundamentais, os direitos humanos, os direitos sociais conquistados e que podem impedir o país de avançar como um estado de todos, como um país plural, includente, livre, justo, solidário e democrático” – isso é a direita conservadora que preocupa, a esta linha de ação se deve opor!

Ninguém sabe como o país será guiado agora por um presidente de direita, legitimamente eleito pela maioria dos eleitores. Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Bolsonaro não disparou um revólver, um gesto típico seu. Levantou o texto da Constituição, jurou “ser escravo dela”, leu um texto bíblico, se propôs a governar com base na verdade e na liberdade, rezou e afirmou seu lema “Deus acima de todos”. É um bom sinal! No entanto, o desafio agora é unir o país, dialogar, aceitar a oposição, ir além da superficialidade da linguagem da campanha eleitoral com propostas consistentes e em benefício de todos, pois governar o Brasil é liderar um país continental de mil rostos que devem ser respeitados. Diante de suas ações, discursos e propostas de ontem e de hoje, será o presidente eleito capaz de reeducar a si mesmo, a seus colaboradores e eleitores ou permanecerá fechado em ‘sua verdade’?!

O ambiente de extremismos, ódio e desconfianças parece revelar uma falta de respeito cívico mútuo, a radicalização de uma ética violenta e sectária e a manifestação dos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa e não priorizando a busca e a defesa do bem comum. Para não nos perdermos no emaranhado desta realidade e na complexidade do jogo político de interesses conflitivos, é hora de revisitar e reafirmar os princípios do Evangelho e da vocação vicentina – queremos estar a serviço da promoção do bem comum, da superação de situações de exclusão e de discriminação, da construção de uma sociedade solidária, de paz, com mais igualdade, que leve em conta sobretudo a dignidade e os direitos dos mais pobres e necessitados!

“Existe uma nascente cristalina que deve ser revisitada: o Evangelho de Jesus Cristo. É na fonte inesgotável dos valores que promovem a vida que as pessoas devem se banhar”, escreveu D. Walmor, Arcebispo de Belo Horizonte, por ocasião do momento eleitoral. E nós acrescentamos o valor e a atualidade de São Vicente de Paulo, que bebeu nesta fonte de água pura, e pode muito nos ajudar e nos orientar neste momento.

3. Nestes tempos de crise política, econômica e ética, revisitar o Evangelho e a experiência de São Vicente é fundamental para discernir os apelos de Deus na realidade e encontrar critérios capazes de promover a justiça, a fraternidade e a solidariedade.

a) O presidente eleito tem como lema “Deus acima de todos”. Também nós temos em Deus nossa razão suprema de viver e trabalhar. Mas que Deus estar acima de todos? O Deus do mercado financeiro, o Deus da prosperidade, o Deus de Edir Macedo e dos conservadores, o Deus individualista de orações emocionais que fazem revirar os olhos num suposto êxtase, sem se ocupar com a justiça e a fraternidade, o Deus de Bolsonaro que o torna um messias? “Nós já temos um Pai, não precisamos nem dos paternalistas nem dos salvadores da pátria”, dizia D. Frigeni, bispo de Parintins. O momento atual é propício à manipulação religiosa, precisamos aprofundar nosso encontro com o Deus de Jesus Cristo, o Deus de São Vicente. O Deus bíblico é um Deus ético, um Deus da Justiça, da paz, do amor e da comunhão; é um Deus que se revelou em Jesus, o anunciador da boa nova de libertação, o anunciador de vida em abundância para todos. O Deus cristão não se entende sem a promoção e a defesa da vida, especialmente para o pobre, o indefeso, o necessitado. Ele veio ao homem pelo caminho da pobreza: “Vós conheceis o amor gratuito de Nosso Senhor Jesus Cristo, que de rico se fez pobre por vós a fim de vos enriquecer com sua pobreza” (2Cor 8,9). A encarnação se deu no modo de um homem pobre e podemos afirmar que o pobre é revelação do Pai misericordioso e que foi um pobre quem salvou o mundo. Esta identificação de Deus, em Cristo no pobre, está ligada à essência mesmo do Deus revelado. Jesus, em sua prática e ensinamento, não fez outra coisa senão revelar esta Boa Nova aos pobres. Ungido pelo Espírito, e tendo os pobres como destinatários privilegiados, seu anúncio é de libertação e proclamação da vida nova de Deus. Colocar Deus acima de tudo não é retórica política, mas abraçar o projeto de Jesus, promovendo a vida, na justiça, na comunhão e no amor, tendo os pobres como sacramento de Deus.

b) Com Deus acima de todos, nos passos de Jesus, nosso lugar é junto com o pobre, na periferia. Jesus nasceu em Belém, vilarejo periférico de Judá, teve que fugir para o Egito para escapar à ira dos poderosos; pregou na periferia, na Galileia dos pagãos; morreu fora dos muros de Jerusalém, como excomungado e vil criminoso; manifestou-se ressuscitado na Galileia, fora de Jerusalém, centro do poder político e religioso. São Vicente de Paulo procurou e encontrou a presença de Deus entre os pobres carentes e abandonados. Leu a realidade dos pobres sem comida e sem a palavra, com olhos da fé e desenvolveu um encontro profundo com Jesus misericordioso que transformou a sua vida. Jesus é o enviado do Pai para servir e evangelizar os pobres, está presente nos pobres sofridos e abandonados, e nos chama à missão e à caridade. Como dizia São Vicente, os pobres constituem “nosso lote próprio”, nossa herança, e a “caridade é nossa grande dama, é preciso fazer o que ela ordena”. Em meio às interrogações e expectativas deste momento político, ganham mais atualidade e força as palavras do Papa Francisco à Família Vicentina por ocasião dos 400 anos do carisma vicentino: “Vocês são chamados a irem até as periferias das condições humanas, a serem sementes que crescem em um solo árido, trazer consolo e amor aos corações que foram endurecidos pela negligência e o abuso (...) Encontrar os pobres, preferir os pobres, dar voz aos pobres a fim de que sua presença não seja reduzida ao silêncio pela cultura do transitório.” Como “Igreja em saída”, é na periferia com os pobres, que vamos discernir os apelos de Deus, organizar e, se necessário, reorganizar nossa ação, que vamos avaliar os projetos do governo, dar nossa humilde colaboração; será a partir das periferias e nas periferias com os pobres, excluídos e marginalizados que veremos para quem o novo presidente estará trabalhando.

c) Com Deus acima de todos, servir prioritariamente os mais pobres, lutar pelos seus direitos e buscar a transformação social não é “coitadismo”, nem é ser “comunista”, mas exigência da fé. No seguimento de Cristo, nosso compromisso é com o Reino e sua justiça, abraçando uma atitude samaritana, misericordiosa, testemunhando uma fé encarnada, compromissada e profética. Com São Vicente, nossa atitude é de serviço “material e espiritual”, um serviço integral. O frescor evangélico de nosso carisma está em Jesus, enviado a evangelizar e servir os pobres (Lc 4,14-21). Isso significa centrar-se em Jesus e em sua missão libertadora. Significa comprometer-se sempre com a dimensão histórica e social do Reino de Deus, abraçando o projeto humanizador e compassivo do Pai, um projeto de vida fraterna, de justiça e dignidade para todos, a partir dos pobres e excluídos. Sem medo de possíveis rótulos, críticas, perseguições e boicotes, agora é a hora de assumir com toda a força a metodologia de Mudança de Estruturas em nossa ação missionária e caritativa; esta metodologia, baseada no evangelho e na experiência de São Vicente, é uma significativa mediação para denunciar e transformar a realidade desumana da pobreza, possibilita a compreensão integral e transformadora da evangelização e um modo de agir dentro de uma dinâmica crítica, profética e libertadora e com estratégias adequadas e coerentes. Esta metodologia nos desafia a desenvolver uma ação toda transformadora.

d) Com Deus acima de todos, somos pelo batismo associados à Jesus e sua missão e formamos a Igreja, povo de Deus em marcha, com a missão de anunciar e testemunhar o Evangelho, sob a luz do Espírito Santo e a orientação de seus pastores. Os discípulos continuam a missão de Cristo, são o Corpo de Cristo, buscando ser sal da terra e luz do mundo. São Vicente destacava que “a missão é o específico da Igreja” e os pobres são “os membros mais preciosos do corpo de Cristo”. Nisto, ele testemunhou uma profunda consciência eclesial missionária; amou profundamente a Igreja, agiu em profunda sintonia com suas orientações e total obediência ao papa e aos bispos e trabalhou intensamente para torná-la sempre mais fiel na missão e na caridade. Esta consciência eclesial e o comprometimento eclesial com os pobres, decorrentes da fé e tão presentes em São Vicente, são fundamentais para enfrentar os desafios do momento presente. Bolsonaro demonstrou, no curso da sua carreira política, sua hostilidade aberta contra a Igreja Católica. A demasiadamente prudente CNBB não escapou de suas pesadas críticas. Sem proselitismo mas com firme consciência eclesial, é hora de comunhão e fidelidade à Igreja. É hora de conhecer bem a Doutrina social da Igreja, ouvir as sábias palavras do Papa Francisco e pô-las em prática e não ter medo de sermos chamados de “parte podre” por aqueles que não suportam nosso compromisso social, ou que se sentem incomodados com nossa missão de participar na construção de uma sociedade justa e solidária; é hora de vigilância crítica para não cair nas armadilhas conservadoras, não se deixar encantar por linguagens fáceis e ardilosas, como a de Olavo de Carvalho, ideólogo de Bolsonaro e guru de boa parte do conservadorismo brasileiro, que, com seu estilo irônico, autossuficiente e bonachão, convida a dar as costas ao Papa Francisco e não escutar suas palavras e recusar suas propostas.

Não podemos ficar paralisados pelo medo, ressentidos e desesperançados. Papa Francisco nos convoca a seguir em frente: “Os desafios estão aí para ser superados. Sejamos realistas, sem perder a alegria, audácia e a entrega esperançada” (EG, 109).

Precisamos, na abertura ao Espírito, deixar Deus ser Deus em nossas vidas, discernir os apelos e caminhos de Deus e não ficar passivos e paralisados pelo medo, pela autodefesa ou pelo desperdício de energias naquilo que não é essencial. A responsabilidade neste momento não é pequena. Cidadania se faz no dia a dia e não podemos “nunca “deixar os pobres sozinhos” (EG, 48). Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16).

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