Amazônia, prontos para o Sínodo. Entrevista com Giuliano Frigeni, bispo de Parintins, AM

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08 Março 2018

Depois do sínodo sobre os jovens, a Amazônia será o foco do próximo sínodo proclamado por Francisco em outubro de 2019. Os preparativos estão bem encaminhados. Fala o Bispo de Parintins, Giuliano Frigeni do PIME.

A entrevista é de Emanuela Citterio, publicada por Mondo e Missione, 01-03-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Uma região maravilhosa, onde a floresta preserva a água e a água preserva a floresta e onde os povos nativos cuidavam e cuidam da preservação deste santuário natural". Assim definiu a Amazônia, o cardeal brasileiro Claudio Hummes, presidente da Rede eclesial pan-amazônica (REPAM), criada em setembro de 2014 para coordenar os trabalhos dos bispos, sacerdotes, leigos, missionárias e missionários na construção de uma igreja com o rosto amazônico. No ano passado, o papa Francisco anunciou um Sínodo especial para o "pulmão verde do planeta", que será realizado em Roma em outubro de 2019. Mas a Amazônia é também um lugar onde a biodiversidade natural anda de mãos dadas com o ser humano, encarnada pelos 390 povos que vivem ali. A eles dirigiu-se diretamente Francisco durante sua visita ao Peru em 19 de janeiro. Na cidade amazônica de Puerto Maldonado, escolhida como a primeira etapa da viagem no país latino-americano, o Papa saudou todos os 22 povos indígenas presentes definindo-os o "rosto plural" da Amazônia, "um rosto de uma variedade infinita, de uma enorme riqueza biológica, cultural, espiritual". E ali mesmo, em Puerto Maldonado, depois de seu discurso, ele iniciou o caminho para o Sínodo dos Bispos para a região pan-amazônica, participando pessoalmente da primeira reunião do Conselho pré-sinodal.

A Amazônia abrange 5 milhões e 500 mil quilômetros quadrados em nove países da América Latina: Brasil, na maior parte, mas também Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Em todos esses países os bispos já estão em rede entre si e ativos na preparação do Sínodo dos 2019. No início do século XX, as dioceses na Amazônia brasileira eram três, Belém, Manaus e Santarém; hoje existem cerca de cinquenta. Dom Giuliano Frigeni, 71, missionário do PIME, é Bispo de Parintins, cidade localizada em uma das maiores ilhas fluviais do mundo, Tupinambarana, no rio Amazonas. Do tamanho da Itália setentrional, a diocese foi fundada em 1955 por missionários do PIME, e tem cerca de 250.000 habitantes.

Eis a entrevista. 

No Peru, o Papa Francisco afirmou que "os povos originais da Amazônia nunca foram tão ameaçados em seus territórios como agora". De Parintins, concorda com essa afirmação?

Claro. Eu acho que um dos pontos principais que este Sínodo vai abordar será a violência contra os povos indígenas, que nos últimos anos tem continuado a aumentar. O último relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do Brasil (órgão ligado à Conferência dos Bispos do Brasil, nde), relata que em 2016 entre os indígenas ocorreram 118 homicídios, 106 suicídios e 735 casos de mortalidade infantil, números sem precedentes. Os conflitos estão se tornando cada vez mais comuns em todas as áreas da Amazônia e as comunidades mais pobres são eliminadas por grandes projetos agrícolas, de mineração legal e ilegal e pela poluição das águas causada pela indústria da mineração. A floresta contém recursos inestimáveis: madeiras nobres, jazidas de ouro, petróleo e cobre no solo, para não mencionar os recursos hídricos com centenas de rios que a atravessam. Mas junto com sua biodiversidade impressionante, que é literalmente destruída pela exploração indiscriminada, corremos o risco de perder para sempre um conhecimento que deveria, ao contrário, ser posto ao serviço de toda a humanidade.

Existe uma atividade que ameaça a floresta e a afeta mais especificamente?

As plantações de soja são o negócio do momento. Do Sul do Brasil chegam essas máquinas gigantescas, tratores ligados entre si por correntes de ferro que passam e derrubam dezenas de árvores de uma só vez para abrir espaço para as plantações. Não há nenhum escrúpulo em destruir milhões de hectares de floresta para produzir soja que as multinacionais, em seguida, transportam para a China e para a América do Norte. Não é recuperada nem mesmo a madeira preciosa, só há pressa para abrir o espaço e seguir em frente, destruindo todos os recursos extraordinários, plantas e animais que para os povos indígenas representam os meios de vida, com os quais viveram em equilíbrio por milhares de anos. Isso não quer dizer que não deve haver atividades econômicas na floresta, mas que há exemplos de uma utilização diferente dos recursos em harmonia com a natureza, que deveriam ser desenvolvidos. Outro grande problema é a corrupção.

Como vocês estão se preparando para o Sínodo para a Amazônia?

Há três anos estamos trabalhando em conjunto com as outras dioceses dos nove países da região amazônica, especialmente através da Rede eclesial pan-amazônica, fundada em 2014, e intensamente encorajada pelo Papa Francisco. É uma coordenação entre bispos, leigos, padres e organizações católicas presidida pelo cardeal Hummes, que no Brasil tem como secretário o bispo Dom Erwin Kräutler, cujo tio era missionário entre os povos indígenas. A notícia do Sínodo chegou como um presente, e nos levou a acelerar os trabalhos para chegar a esse encontro bem preparados. O primeiro objetivo que nos propusemos é de oferecer uma visão, tanto quanto possível, objetiva da Amazônia e de seus recursos naturais e humanos. Em cada diocese uma equipe de pesquisa, que inclui também docentes universitários locais, está recolhendo dados, incluindo os fornecidos por drones e instrumentos que investigam os recursos subterrâneos. Em seguida, todas essas informações serão transmitidas para Brasília e, depois, para Roma. Como Igreja, estamos particularmente interessados na presença do homem, tanto de quem chegou há 500 anos como os portugueses- aos quais se somaram outros europeus, chineses, japoneses e indianos nos últimos tempos – como os que a habitam há milhares de anos, as populações nativas.

Queremos ajudar a Amazônia não a sobreviver, mas a viver, para se tornar uma realidade que também ajude o resto da humanidade a amar mais a natureza. O Sínodo para a Amazônia pode se tornar uma oportunidade preciosa para chamar a comunidade internacional a um compromisso sério, pedindo coerência em relação às conferências mundiais sobre o clima em que são gastas tantas palavras. A Amazônia é a área mais frágil, mas também a mais emblemática, é como se dissesse à humanidade: se continuarem assim, irão me perder e irão se perder.

Quais são os desafios a enfrentar?

A formação, especialmente para os jovens, continua a ser um desafio central, especialmente diante das grandes mudanças que experimentam as populações amazônicas. O programa do governo brasileiro "luz para todos" trouxe eletricidade para as aldeias mais remotas e hoje metade dos jovens nos subúrbios de nossas cidades tem um telefone celular. Alguns dias atrás, um seminarista indígena visitou uma área do interior, na nascente do rio e me relatou que a água agora chega através da torneira, graças a um poço artesiano cavado pelo governo. Acontecem grandes mudanças em poucos anos, e o Sínodo deve considerar isso. Não é possível olhar nostalgicamente para a Amazônia como era, apenas pela perspectiva da conservação. Talvez isso nos tranquilize psicologicamente, mas não corresponde à realidade dos fatos. Hoje devemos pensar na cidade dentro da floresta.

O Papa Francisco enfatizou o papel desempenhado pelos missionários e missionárias na promoção dos povos indígenas...

A Igreja tem um olhar focado na pessoa humana, que é radicalmente diferente daqueles que veem a Amazônia como uma reserva de recursos para explorar. Missionários e missionárias tiveram intuições valiosas no passado. Por exemplo, há 60 anos, o primeiro bispo de Parintins, Arcangelo Cerqua, do PIME, comprou terras para estabelecer cidades agrícolas, onde as comunidades locais vivem da pesca e do cultivo da terra, preservando essas áreas da exploração. Depois, houve um excelente trabalho no campo da educação. Entre os vários trabalhos realizados pelo PIME em Parintins, existem 13 creches, escolas, um hospital, um centro para pessoas com deficiência e um para surdos-mudos, escolas de alfabetização e cooperativas para pescadores e agricultores. Acredito que hoje até nós, missionários, devemos mudar. Na Amazônia se formaram "ilhas" salesianas, franciscanas, piminas, cada uma com suas próprias obras. Hoje precisamos de uma maior troca.

Como construir uma Igreja com o rosto amazônico?

Veremos as propostas que surgirão no Sínodo. Em primeiro lugar, é necessário conhecer as culturas dos povos que vivem na Amazônia, seus ritos e seus mitos. Um patrimônio que não pode desaparecer completamente. A evangelização deve valorizar essas culturas e sua diversidade. No plano pastoral existem várias hipóteses, entre as quais a de ordenar sacerdotes casados entre as populações indígenas. Pessoalmente, não acho que esta seja a solução. Há laicos indígenas envolvidos na evangelização, uma presença que pode ser sustentada e valorizada. Após a Páscoa haverá um encontro entre todos os bispos brasileiros sobre a Amazônia, onde também serão apresentadas as pesquisas antropológicas e sociológicas que realizamos nos últimos meses. Vamos discutir as propostas para levar ao Sínodo.

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