Sínodo: na questão juvenil está em jogo o futuro da Igreja. Entrevista com Armando Matteo

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05 Outubro 2018

“Vivemos em uma sociedade que fala muito dos jovens apenas para deixá-los de fora.” Desde a primeira publicação em 2009 do livro La prima generazione incredula [A primeira geração incrédula, em tradução livre], um pequeno grande livro sobre a “difícil relação entre os jovens e a fé”, o padre Armando Matteo, professor extraordinário de Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma, dedica à questão juvenil na Igreja uma reflexão viva e não desprovida de saudáveis provocações.

A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi, publicada em Vatican Insider, 10-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A atual pastoral juvenil “não consegue gerar novas pessoas que creem”; os adultos, buscando uma eterna juventude, parecem ter renunciado à “transmissão da fé”; assiste-se a um “eclipse do cristianismo doméstico”; e, para responder a essas mudanças, é preciso reconhecer que “o cristianismo que herdamos não é a única possibilidade de cristianismo”; é oportuno que a Igreja “faça dieta” e é necessário “repensar” a sua presença na sociedade. De modo que, no fim, seja possível responder à pergunta sobre “por que continuar sendo cristãos depois que se deixa de ser criança”.

Em suma, este Sínodo “é mais importante do que os anteriores”, afirma o teólogo ao Vatican Insider, porque, “sem restabelecer as relações com o mundo juvenil, a Igreja corre o risco da implosão”.

Eis a entrevista.

Começou nessa quarta-feira, 3, o Sínodo dos bispos. Na sua opinião, o que os jovens têm a dizer à Igreja e o que a Igreja tem a dizer às novas gerações?

Os jovens mandam uma mensagem clara: lutamos para unir o nosso crescimento, o nosso caminho rumo à idade adulta e a experiência religiosa. Há um forte desinteresse pela experiência cristã. Ao mesmo tempo, emergem também um pedido de ajuda: a nossa sociedade tende a condenar os jovens a um destino de marginalização, e eles pedem para ser ajudados a entender melhor como a religião cristã pode servir para a vida adulta. A Igreja, por sua vez, sem restabelecer as relações com o mundo juvenil, corre o risco da implosão. Caem as vocações, muitas pessoas decidem não recorrer mais ao casamento religioso, as nossas comunidades não têm o espírito, o entusiasmo das forças juvenis. Nesse sentido, penso que, nas intenções do Papa Francisco, está a vontade de se pôr em diálogo e à escuta. É a primeira vez que a Igreja faz isso desse modo. Eu acrescentaria que não são muitos os que entenderam na Igreja que esse Sínodo é fundamental, mais importante do que os celebrados no passado. Está em jogo o interesse de gerações inteiras, além do destino da Igreja. O tema dos jovens diz respeito a todos.

Pode-se dizer que, para o Papa Francisco, abordar a questão juvenil é também um modo para propor, através do olhar dos jovens, a necessidade de uma reforma da Igreja?

A dificuldade atual que os jovens têm para crer nos diz que tudo o que fazemos, a pastoral juvenil, não consegue gerar novas pessoas que creem, põe em crise o caráter materno da Igreja. E isso está no coração do Papa Francisco. Por isso, para gerar novas pessoas que creem, o papa exorta a uma reforma missionária da Igreja. Se a Igreja deve ser o lugar onde as pessoas se encontram com Jesus e vivem uma vida plena, isso não está mais acontecendo, e o universo juvenil devolve isso de um modo muito forte. As pesquisas a esse respeito são claras.

O último estudo, publicado pelo Instituto Toniolo em meados deste ano, registrava que, na Itália, existe uma faixa realmente ampla da população juvenil que viveria tranquilamente sem religião. O documento preparatório do Sínodo também sublinha que a maioria aprende a viver sem Deus e sem Igreja, não porque não têm a chance de encontrá-la, mas porque atualmente o modo de apresentar Jesus e a experiência da fé não recebe aquele gatilho interesse real nas novas gerações. Isso certamente requer mudanças.

Na realidade, embora proponham um catolicismo bastante distante do Concílio Vaticano II, os setores que poderiam ser definidos como fundamentalistas, realidades eclesiais que apresentam uma fé fortemente identitária, têm uma notável atração também entre os jovens...

Foi Zygmunt Bauman quem identificou esse estranho paradoxo, essa heterogênese dos fins: uma mentalidade líquida produz “conselheiros capazes”, pontos de referência extremamente sólidos, graníticos. Um certo fundamentalismo é uma espécie de derivado da cultura contemporânea. A ampliação das opções, o fato de que cada sujeito deve responder por si mesmo, porque não há mais morais compartilhadas, leva uma parte da população a dar confiança novamente a tradições culturais, políticas, mas também religiosas que se apresentem mais fortes, mais claras.

Certamente, essa abordagem, as ideias superclaras e superdistintas, tem uma certa atratividade, mas eu não acho que é a melhor resposta, até porque a atitude do enrijecimento é sempre uma estratégia de fôlego curto, e a espécie humana não age assim. As reviravoltas epocais são dolorosas, mas sempre há a capacidade de se adaptar. O cristianismo, na sua melhor tradição, vive de acordo com a lógica da encarnação e, portanto, não teme pôr em discussão esse modelo de fazer Igreja, de apresentar o Evangelho, de celebrar os sacramentos, na escuta constante da palavra do Evangelho, mas também da história dos seres humanos.

Parece-me que esse é o apelo do Papa Francisco quando diz para estar à escuta dos pobres, que, além disso, podem ser, por exemplo, os casais de divorciados em segunda união, mas também, como disse recentemente o cardeal Gualtiero Bassetti, o mundo juvenil. Um ponto delicado é o esforço da comunidade eclesial para entrar em acordo com o convite do Papa Francisco a uma saída missionária. Uma dificuldade talvez aumentada também pela grande longevidade que existe no Ocidente, razão pela qual as comunidades nunca estão totalmente vazias e, por assim dizer, custamos a sentir a falta dos jovens que faltam. Estamos nos acostumando um pouco a aguentar.

Abrindo o pré-Sínodo, o papa usou palavras muito bonitas quando disse aos jovens: nós estamos aqui não porque queremos a todo o custo ter jovens, mas porque sabemos que uma comunidade sem jovens é incompleta, falta-nos uma parte de acesso ao mistério divino. Toda mudança, toda reforma requer algum sofrimento, e não podemos pensar em levar a termo uma Igreja verdadeiramente missionária sem passar também por um processo de morte e ressurreição.

Para citar Benedetto Croce, deixar morrer aquilo que está morto e promover aquilo que está vivo. O cristianismo que herdamos, enfim, não é a única possibilidade de cristianismo: é uma possibilidade, formada ao escutar as exigências de outra época, mas hoje não funciona mais. Na exortação Evangelii gaudium, o Papa Francisco diz isso claramente, a pastoral juvenil não responde mais porque as mudanças em curso são inúmeras. Esse não é o problema, o problema é quando falta a disponibilidade de mudar.

No seu livro “A primeira geração incrédula”, você defende que a reforma se realiza quando a Igreja “faz dieta” e repensa também a “geografia da salvação”: pode nos explicar isso?

Nós viemos de uma cultura em que o elemento religioso não estava apenas presente, mas era até promovido nas famílias e nas dinâmicas sociais, e isso favoreceu o fato de que a Igreja pudesse se ocupar muitas outras coisas. A Igreja se ocupou de escolas, hospitais, formação política, teatro: quase não há âmbito humano com o qual a Igreja não se ocupou. E sempre pôde delegar a geração da fé às famílias, às mães e às avós, às escolas, ao próprio contexto cultural.

Hoje, encontramo-nos com um corpo eclesial mastodôntico, cada paróquia se ocupa de inúmeras coisas, mas é cada vez mais difícil fazer o que deve fazer, isto é, gerar novas pessoas que creem em Cristo. Hoje, assistimos àquilo que eu chamo de eclipse do cristianismo doméstico: em casa, reza-se muito pouco, não se lê o Evangelho, o coração dos adultos deslocou-se para muitas outras coisas, e isso pede um maior compromisso para concentrar as próprias energias na geração para a fé, para repensar os processos de iniciação à fé de um modo diferente, para fazer isso mais a sério.

O mesmo vale para a geografia: na Itália, na Europa, quando o ser humano era naturaliter cristão, todos os bairros, todas as pequenas localidades nas montanhas ou no campo tinham a sua paróquia. Hoje, isso não é mais permitido, vivemos novos fenômenos de urbanização, é preciso tomar consciência de que o número de sacerdotes diminuiu ou envelheceu. Hoje, há uma dispersão de energias eclesiais enormes, ligadas a um mundo que não é mais aquele em que nasceram. Se o objetivo prioritário é o de ajudar os adultos a recuperar o interesse pela religião, é preciso também reescrever a nova geografia da presença cristã. Isso também é muito difícil.

O Papa Francisco pediu aos bispos italianos que repensem o número de dioceses e, portanto, de escritórios diocesanos, de paróquias... Mas sabemos que esse pedido encontrou resistências. Inevitavelmente, toda mudança envolve sofrimentos. Mas é necessário repensar a presença da Igreja não mais “em chuva”, como é atualmente, mas em função desse propósito primordial, a geração da fé.

Mas o que os bispos do Sínodo podem fazer em três semanas para resolver problemas tão grandes, epocais? Agora, foi publicado um de seus livros, Tutti giovani, nessun giovane [Todos jovens, nenhum jovem, em tradução livre] (Ed. Piemme), no qual você denuncia a “dificuldade de ser jovem”. Em que sentido?

O Sínodo poderia ser uma boa oportunidade para demarcar algumas coisas, tentar fazer um diagnóstico um pouco compartilhado. Acima de tudo, a parte jovem do mundo, tanto no Ocidente quanto em outros lugares, custa a viver a própria idade da vida. Deveria herdar o mundo na idade de máxima potência, de máxima energia, para melhorá-lo, e, em vez disso, se defronta com gerações adultas que seguram tudo nas mãos ou, melhor, que continuam dizendo aos jovens: “Nós não precisamos de vocês, nós é que queremos ficar jovens”. Isso produz uma paralisia da confiança.

Os adultos, que deveriam ser aqueles que arrastam os jovens para a vida, na realidade atuam como contenção, apagamento das paixões. Há um grande desconforto, um grito de justiça dos jovens, porque, quando os adultos não são adultos, os jovens não podem ser jovens. O Sínodo, portanto, acima de tudo, pode servir para se concentrar no fato de que nós, adultos, somos o problema, e os jovens são o recurso.

Em segundo lugar, é preciso trabalhar mais a sério com os adultos. É preciso ativar uma pastoral da segunda idade, porque, com os adultos que vivem uma “religião da juventude”, interrompeu-se a transmissão da fé. Não podemos falar de jovens sem levar em conta que os jovens têm o seu olhar nos adultos, se não nos interrogarmos sobre como os adultos vivem e transmitem a sua fé.

E, em terceiro lugar, seguindo a Gaudete et exsultate do Papa Francisco, é preciso recuperar a dimensão alegre da fé: crer para viver com mais alegria a nossa vida humana; vai-se à missa para viver uma experiência de festa e de alegria. Por último, no meu último livro, digo provocativamente que o Sínodo também poderia ser o lugar de onde a Igreja sai com uma proposta um pouco estranha, talvez: deixar de falar de “jovens” referindo-se a pessoas com mais de 30 anos. Uma operação de limpeza linguística que pode corresponder a uma limpeza mental que possa pôr as gerações nos eixos. As gerações são os jovens e os adultos, e os adultos ajudam os jovens a tomar o seu lugar, a herdar o mundo.

O Sínodo sobre os jovens ocorre em um momento em que a Igreja é abalada pelo novo surgimento dos abusos sexuais: um motivo de afastamento dos jovens da Igreja?

A questão da relação dos jovens com a Igreja é a única questão real que temos. Por isso, esse Sínodo, embora se desenvolva não sob as condições mais favoráveis por causa do surgimento desses escândalos e de fortes divisões na Igreja, ainda é uma grande bênção. Provavelmente é mais a ativação de um processo do que a palavra definitiva. De todos os modos, seria uma oportunidade perdida não o fazer. Ainda é preciso dizer que, bem antes dessa situação de escândalo, poucos haviam se entusiasmado com esse Sínodo, os meios de comunicação também não pareciam muito atentos... porque vivemos em uma sociedade que fala muito dos jovens apenas para deixá-los de fora. É claro que os escândalos não ajudam.

A principal virtude do mundo juvenil hoje é a autenticidade, e é claro que onde quer que surjam manchas há decepção. Os jovens sentem imediatamente, com alergia, com repugnância, esses fatos. Também é preciso dizer, porém, que as investigações feitas, pelo menos na Europa, registram que o ponto mais problemático, pelo qual não desperta um real interesse dos jovens pelas coisas da Igreja e da fé, não é o escândalo. Eu acho que o ponto-chave continua sendo o fato de que há uma faixa muito grande da população adulta que pôs no coração um monte de coisas e tirou Deus, a Igreja, a oração, Jesus Cristo, e, por isso, não testemunhou nas relações educacionais o porquê de permanecer cristãos depois que se deixa de ser criança. Essa me parece ser a verdadeira questão.

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