‘Eu assinei o acordo com a China para superar tanto sofrimento’. Entrevista do Papa Francisco

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27 Setembro 2018

Ele diz que é "responsável pelo acordo com a China". Que haverá "um diálogo sobre os candidatos", mas quem "nomeará é Roma". E afirma que está orando por aqueles que "não entendem este acordo".

No voo papal que de Tallinn, capital da Estônia, terceira etapa de sua viagem aos países bálticos, o traz de volta a Roma, o papa Francisco abre a coletiva de imprensa com os jornalistas explicando as razões do recente acordo assinado pela Santa Sé com Pequim.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 25-09-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Fala também dos migrantes: "Acolhê-los na medida em que se integram, com a prudência dos governos, e que não seja uma ameaça à sua própria identidade". Enquanto sobre o caso Viganò diz que "os episcopados do mundo lhe escreveram" para manifestar proximidade, e "juntos dois bispos da Igreja patriótica e tradicional". Este fato, segundo ele, foi "um sinal de Deus". E, mais uma vez, enfrenta o tema do "escândalo da indústria de armas" e da legitimidade "de defender as próprias fronteiras", de ter "um exército de defesa razoável e não agressivo". E, depois, o tema das prisões: "A superlotação é uma tortura", enquanto ainda hoje existem as "crueldades" dos tempos da KGB. E comenta sobre os abusos sexuais: "Um padre que abusa de uma menina ou de um menino é algo monstruoso porque aquele homem foi escolhido por Deus para conduzir as crianças ao céu. A Igreja deve levar as crianças a Deus e não destruí-las".

Eis a entrevista.

Há três dias foi assinado um acordo entre a Santa Sé e o governo da República da China. Alguns católicos e o cardeal Joseph Zen, emérito de Hong Kong, acusam Vossa Santidade de ter vendido a Igreja ao governo comunista em Pequim depois de anos de sofrimento. O que responde?

É um processo que se arrasta há anos, um diálogo entre a comissão vaticana e a comissão chinesa para acertar a nomeação dos bispos. A equipe do Vaticano trabalhou muito. Gostaria de mencionar alguns nomes: monsenhor Claudio Maria Celli, que pacientemente esteve lá, falou e retornou novamente por anos. Depois padre Gianfranco Rota Graziosi, humilde curial de 72 anos que gostaria de voltar a uma paróquia, mas que permaneceu na cúria para ajudar nesse processo. E então o secretário de Estado Pietro Parolin, que é um homem muito dedicado, mas tem uma devoção especial para o detalhe.

Todos os documentos são estudados, pontos, vírgulas, minúcias, e isso me dá uma segurança muito grande. E essa equipe com suas qualidades levou os trabalhos adiante. Quando um acordo de paz ou negociação é feito, ambas as partes perdem algo. Essa é a lei. E se segue em frente. Nós avançamos dois passos e retrocedemos um passo. Depois os meses se passaram sem que nós conversássemos um com o outro. É o tempo de Deus, que se assemelha ao tempo chinês: lentamente, isso é sabedoria, a sabedoria dos chineses.]

Os bispos que estavam em dificuldade foram estudados caso a caso. E dossiês sobre cada um deles chegaram à minha mesa. Eu fui responsável pelo  acordo sobre os bispos. Os rascunhos do acordo retornaram à minha mesa, eu apresentava as minhas ideias, e discutíamos. Tenho presente a resistência, os católicos que sofreram. É verdade. E eles vão sofrer. Sempre em um acordo há sofrimento, mas eles têm uma grande fé e eles escrevem, eles nos enviam mensagens de que aquilo que a Santa Sé, que Pedro, diz é o que Jesus diz. A fé de 'mártir' dessas pessoas continua. Eles são grandes.

Quem assinou o acordo foi eu. Eu sou responsável, os outros trabalharam por mais de dez anos. Não é improvisação, é um verdadeiro caminho.

Um simples episódio e um dado histórico: quando houve o famoso comunicado de um ex-núncio apostólico - Carlo Maria Viganò -  os episcopados do mundo me escreveram dizendo que se sentiam próximos e que rezavam por mim. Alguns fiéis chineses escreveram, e a assinatura no texto era do bispo da Igreja, vamos dizer assim, tradicional católica e do bispo da Igreja Patriótica, os dois juntos, e para mim isso foi um sinal de Deus.

Outro episódio: esquecemos que na América Latina durante 350 anos foram os reis de Portugal e da Espanha que nomearam os bispos e o Papa dava a bênção. Vamos relembrar o caso do império austro-húngaro: Maria Teresa cansou-se de assinar a nomeação dos bispos e a repassou ao Vaticano. Existe um diálogo com a China sobre possíveis candidatos, isso é feito com diálogo, mas quem nomeia é Roma, o Papa. Isso é claro. E nós rezamos pelo sofrimento daqueles que não entendem ou que têm muitos anos de vida clandestina por trás deles.

Hoje mencionou o reforço dos armamentos da Rússia nas fronteiras. Há muitos soldados nas fronteiras para garantir a segurança. O que você acha do perigo daqueles que vivem nas fronteiras?

A ameaça das armas e os custos mundiais com as armas são escandalosos. Fiquei sabendo que com o que se gasta em armas em um mês poderia alimentar todas as pessoas famintas do mundo por um ano. Eu não sei se é verdade. É terrível. A indústria e o comércio de armas, inclusive o contrabando, são uma das maiores corrupções. E na frente disso está a lógica da defesa. David conseguiu vencer com um estilingue e cinco pedras, mas hoje não existem mais David. Acredito que, para garantir um país, é preciso ter um exército razoável e não agressivo de defesa. Razoável e não agressivo. Então a defesa é lícita e também é uma honra defender a pátria assim. O problema surge quando a defesa se torna agressiva, não razoável e se fazem as guerras de fronteira. Temos muitos exemplos de guerras de fronteiras, não só na Europa, no Oriente, mas também em outros continentes. Luta-se pelo poder, para colonizar um país. Hoje a indústria de armas é escandalosa diante de um mundo faminto. É lícito, razoável ter um exército para defender as fronteiras, porque isso é uma honra, pois é lícito ter as chaves da porta da casa.

No encontro ecumênico em Tallinn, Vossa Santidade disse que os jovens diante dos escândalos sexuais não percebem uma clara condenação da Igreja Católica. O que pensa?

Os jovens se escandalizam com a hipocrisia dos grandes. Escandalizam-se com as guerras. Eles se escandalizam com a incoerência, com a corrupção. Os abusos sexuais estão dentro da corrupção. É verdade que há uma acusação à Igreja. Nós todos conhecemos as estatísticas. Mas mesmo que tenha sido apenas um padre a abusar de uma menina ou de um menino, é monstruoso porque aquele homem foi escolhido por Deus para conduzir a criança ao céu. Eu entendo que os jovens fiquem escandalizados por essa corrupção tão grave. Eles sabem que existe em toda parte, mas na Igreja é mais escandalosa porque ela deveria levar as crianças a Deus e não destruí-las. Os jovens tentam abrir seu caminho através da experiência. O encontro dos jovens hoje foi claro: eles pedem escuta, não querem fórmulas fixas. Eles não querem um acompanhamento que dê diretrizes.

A Igreja não está fazendo o que deveria para limpar essa corrupção?

Vamos ver o exemplo da Pensilvânia. Vemos que anteriormente havia muitos sacerdotes que haviam caído nessa corrupção. Depois diminuiu, porque a Igreja percebeu que precisava lutar de outra maneira. Nos tempos antigos essas coisas eram encobertas, também eram encobertas em casa quando o tio estuprava a sobrinha, quando o pai violentava o filho. Eram acobertados porque era uma grande vergonha. Era a maneira de pensar dos séculos passados. Há um princípio que me ajuda bastante a interpretar a história: um fato histórico deve ser interpretado com a hermenêutica da época em que aconteceu. Não com a hermenêutica proferida pela atualidade. O exemplo do indigenismo, tantas injustiças, tanta brutalidade, não podem ser interpretadas com a hermenêutica de hoje que temos outra consciência. Um último exemplo: a pena de morte. O Vaticano, quando era um Estado pontifício, tinha pena de morte. O último foi decapitado por volta de 1870, um criminoso, um jovem. Mas depois a consciência moral cresceu. É verdade que há sempre atalhos e existem penas de morte ocultas: no caso de um idoso, alguém lhe diz ‘se continuar incomodando eu não vou te dar os remédios’ ... é a sentença de morte social de hoje. Recentemente recebi muitas condenações feitas pela doutrina da fé e disse: vamos em frente, em frente. Eu nunca assinei um pedido de graça depois de uma condenação. Sobre isso não se negocia.

Em todos os países bálticos, o senhor falou de abertura para os migrantes, para os outros. Nós recebemos sua mensagem?

O discurso sobre migrantes está bastante avançado nos países bálticos. Não há fortes focos populistas. Tanto a Estônia como a Letônia são povos abertos, dispostos a integrar migrantes, mas não maciçamente, porque isso não e possível. Acolhê-los na medida em que se integrem, com a prudência do governo e que não seja uma ameaça à sua própria identidade. Nós conversamos sobre isso com dois chefes de estado. Nos discursos dos presidentes, você verá que a palavra acolhimento, abertura, é frequente. Isso indica um desejo de universalidade na medida em que possa ser dado espaço, trabalho, na medida em que se integrem e na medida é que não seja uma ameaça à própria identidade. São três coisas que eu entendi sobre a migração dos povos: abertura, prudente e bem pensada.

Quando falou a Vilnius sobre a alma lituana, disse que devemos ser uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, mas não é fácil ser uma ponte. Significa ser sempre atravessada pelos outros. Mas o que significa para o senhor ser uma ponte?

A Lituânia hoje faz parte politicamente do Ocidente, da UE, e vocês fizeram muito para entrar na UE. Após a independência, fizeram todo o dever de casa e não foi fácil. Conseguiram ser parte do Ocidente e também entrar em relações com a OTAN. Vocês também pertencem à OTAN. Se olharem para o Oriente, está lá a sua história, dura. Parte da história trágica veio do Ocidente, dos alemães, dos poloneses, mas especialmente do nazismo. Do Oriente, por sua vez, veio do império russo. Fazer pontes supõe, exige, fortaleza não só de pertencimento, que é o que dá fortaleza, mas também de identidade. Estou ciente que a situação nos três países bálticos está sempre em perigo. O medo da invasão existe porque é a própria história que nos lembra disso. Não é fácil, mas é um jogo que é jogado dia a dia, com cultura, com diálogo. A obrigação de todos nós é ajudá-los nisso, estar perto de vocês.

O que sentiu ao visitar o Museu dos prisioneiros da KGB?

Visitei o Museu em Vilnius. Museu é uma palavra que faz você pensar no Louvre - enquanto este Museu é uma prisão, a prisão onde os detentos eram trazidos por razões políticas ou religiosas. Eu vi celas do tamanho deste assento, onde só era possível ficar em pé, celas de tortura. Eu vi locais de tortura onde no frio eram levados os prisioneiros nus e jogavam neles água e lá ficavam por horas, para quebrar sua resistência.

E depois eu entrei na sala, no grande salão das execuções. Ali levavam os prisioneiros à força e simplesmente os matavam com um golpe na nuca, e depois os retiravam em um escorrega mecânico para um caminhão e os jogavam nas florestas. Eram mortos cerca de quarenta por dia. No final, foram cerca de 15 mil assassinados. Isso faz parte da história da Lituânia e também dos outros países.

Depois fui ao grande Gueto, onde milhares de judeus foram assassinados. Depois, na mesma tarde, fui ao memorial dos condenados motos, torturados, deportados. Naquele dia, vou lhe dizer a verdade, eu fiquei destruído. Eu pensei muito sobre crueldade. Com a informação que temos hoje, a crueldade ainda não acabou. A mesma hoje pode ser encontrada em muitos locais de detenção. A superlotação também está presente em muitas prisões hoje. É uma forma de tortura, de não viver com dignidade. Uma prisão hoje que é construída sem dar ao preso a possibilidade de esperança já é uma tortura.

Depois vimos na televisão a crueldade dos terroristas do Isis, aquele piloto jordaniano queimado vivo, dos coptas degolados e muitos outros.

Hoje a crueldade não acabou, em todo o mundo. Esta mensagem eu gostaria de dar a vocês como jornalistas. Isso é um escândalo, um grave escândalo da nossa cultura, da nossa sociedade.

Outra coisa que tenho visto é o ódio à religião. Eu vi um bispo jesuíta que foi deportado para a Sibéria por dez anos, depois para outro campo de concentração, e agora é um idoso. Tantos homens e mulheres para defender a própria fé que era a sua identidade foram torturados e deportados para a Sibéria, e não retornaram. A fé desses três países é grande, é uma fé que nasce justamente do martírio.

Depois vi uma vida ecumênica como não existe em outros países, generalizada. Existe um verdadeiro ecumenismo entre luteranos, batistas, anglicanos e ortodoxos. Irmãos, vizinhos, uma só Igreja. O ecumenismo tem suas raízes aqui.

Depois, há outro fenômeno que é importante estudar: o fenômeno da transmissão da cultura, da identidade, da fé. Como de costume, a transmissão foi feita pelos avós, porque os pais trabalhavam, tinham que trabalhar e ser sindicalizados no partido, naquele soviético, ou sob a linha do nazismo. Eles também educaram ateus, mas os avós souberam transmitir a fé e a cultura em tempos em que a língua lituana era proibida na Lituânia. Uma geração aprendeu a língua materna pelos avós.

Seria bom algum serviço sobre a transmissão na cultura da língua, da arte, da fé em momentos de ditaduras e perseguições. Não era possível pensar em outra coisa porque todos os meios de comunicação estavam nas mãos do estado. Quando um governo quer se tornar uma ditadura, a primeira coisa que faz é assumir os meios de comunicação.

Veja o vídeo em inglês, com legenda em português, realização da revista America, sobre a Igreja na China

 

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