Bari, novo caminho ecumênico pela paz no Oriente Médio

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10 Julho 2018

O que aconteceu em Bari no sábado, 7 de julho, a oração pela paz e o encontro a portas fechadas entre os líderes de todos as Igrejas cristãs no Oriente Médio, convidadas pelo Papa a discutir os dramas daquela região atormentada, marca um importante ponto de virada na história das relações ecumênicas. De fato tratou-se de um encontro que pela primeira vez manifesta concretamente a abordagem do Papa Francisco para os assuntos ecumênicos: não mais apenas encontros entre comissões teológicas para o longo, complicado e difícil caminho de reconciliação e de interpretação e esclarecimentos sobre as diferenças que foram se acumulando ao longo dos séculos. Não mais apenas encontros bilaterais de cúpula - embora muito importante, como aquele histórico de Havana, em 2016, o primeiro entre um bispo de Roma e um patriarca de Moscou.

O comentário é de Andrea Tornielli, publicado por Vatican Insider, 08-07-2018. A tradução é de Luisa Rabolini

O que aconteceu em Bari, a cidade ponte entre o Ocidente e o Oriente, sob a proteção de São Nicolau, venerado nas Igrejas do Oriente, foi algo mais e, finalmente, diferente, que interpreta perfeitamente a ideia de um ecumenismo feito de amizade, compartilhamento, discussão sobre temas e - acima de tudo - testemunho comum através da caridade. Andrea Riccardi definiu o encontro de Bari "quase um ‘sínodo’ entre o Papa e os chefes das Igrejas do Oriente Médio diante de uma emergência terrível, a da guerra com todos seus aspectos, e o colapso da presença dos cristãos na região. Essa experiência inaugura um novo caminho que os cristãos podem percorrer no Oriente Médio e outras regiões do mundo: um ecumenismo solidário e sinodal”.

Fachada da Basílica de São Nicolau (Foto: www.around.bari.it)

 

Interior da Basílica de São Nicolau (Foto: www.around.bari.it)

As guerras, os fundamentalismos, as tensões, os dramas que são vividos nessas regiões atormentadas que foram o berço do cristianismo e nas quais os cristãos hoje sofrem juntamente com a maioria da população muçulmana as consequências dos grandes interesses econômicos e estratégicos, junto com o problema da emigração, correm o risco de despedaçar o Oriente Médio. É por isso que o "sinal eloquente da unidade dos cristãos", representado pelo encontro de Bari (como foi definido por Francisco no Angelus de domingo, 8 de julho) representa uma esperança.

A maior novidade foi estarem sentados em torno de uma mesa para refletir e discutir. Os trabalhos foram iniciados com um relatório de Pierbattista Pizzaballa, administrador do Patriarcado, que ofereceu principalmente um panorama analítico da situação e das mudanças políticas e religiosas que ocorrem no Oriente Médio: os novos equilíbrios e as novas instabilidades, os conflitos internos ao próprio mundo islâmico. Essa não era a parte substancial e propositiva da contribuição de Pizzaballa, mas foi o motivo pelo qual a Santa Sé preferiu não divulgar o documento. Depois, o administrador do patriarcado de Jerusalém tentou responder à grande questão básica: como ser uma Igreja, fiel à sua missão e vocação, em tal contexto? O caminho sugerido é o de uma maior comunhão entre todos os cristãos, abandonando particularismos e rivalidades. E até mesmo abandonando a atitude de confiar demais nas alianças políticas ou nas estratégias humanas e mundanas.

Permanecer Igreja significa, nas palavras de Pizzaballa, dar espaço a Deus na oração e escutar Deus em uma oração que se torna caridade. Significa também ter "parrésia" porque não é possível permanecer calados diante das injustiças. A proposta foi bem recebida pelos patriarcas presentes, a discussão não foi animada nem houve desentendimentos ou protestos significativos.

Indicações preciosas foram apresentadas pelos discursos públicos de Francisco. "Também o nosso ser Igreja - disse o Papa - é tentado pelas lógicas do mundo, lógicas de poder e de lucro, lógicas apressadas e de conveniência. E existe o nosso pecado, a inconsistência entre a fé e a vida, que obscurece o testemunho. Nós sentimos que precisamos nos converter novamente ao Evangelho, garantia de liberdade autêntica, e fazer isso com urgência agora, na noite do Oriente Médio em agonia. Como na noite angustiante do Getsêmani, não serão a fuga ou a espada a antecipar a aurora radiante da Páscoa, mas o dom de si à imitação do Senhor."

Nem a fuga nem a espada significam também nunca abandonar a autêntica vocação evangélica e a imitação de Cristo, "Príncipe da paz". Significa não se apoiar em poderes mundanos, não invocar protetorados e nem exaltar de forma exagerada o drama da condição dos próprios cristãos, que são cidadãos a pleno poder e compartilham a tragédia da guerra e do fundamentalismo juntamente com os seus irmãos e irmãs muçulmanos.

O ecumenismo do sangue, do qual o papa Bergoglio frequentemente tem falado, no Oriente Médio é, infelizmente, realidade. Se as Igrejas, muitas vezes voltadas para si mesmas em defesa do status quo, saberão dar testemunho como sugerido por Francisco, aquela dos cristãos no meio do drama do Oriente Médio se tronará cada vez mais uma única voz. A voz dos seguidores de Jesus, que na espera de poder beber do único cálice, já podem rezar juntos, caminhar juntos, responder juntos às necessidades dos mais desfavorecidos e dos perseguidos, levantarem juntos suas vozes em defesa da vida e da dignidade do homem e tentar garantir que o Oriente Médio não mais seja a terra daqueles que deixam suas terras, mas possa ser um lugar onde crentes de diferentes religiões possam conviver juntos como irmãos. "Povos, irmãos, Igrejas irmãs", dizia o Patriarca de Constantinopla Atenágoras, como recordou Riccardi. É significativo que o encontro de Bari tenha acontecido justamente no dia em que lembramos a morte daquele Patriarca, pai do ecumenismo junto com Paulo VI.

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