Papa Francisco e Patriarca Kirill em Cuba: nos bastidores, há um terceiro protagonista

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11 Fevereiro 2016

O colóquio em Havana entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill não será unicamente um encontro a dois. Nos bastidores, há um terceiro protagonista: Vladimir Putin. Seria ingênuo pensar que a súbita disponibilidade do patriarca russo à cúpula com Bergoglio também não está conectada com a situação da Rússia neste momento geopolítico: particularmente com o papel de estabilização da situação síria e de contenção do terrorismo jihadista, que Moscou pretende jogar junto com os Estados Unidos.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 11-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Kirill chega à cúpula com o papa católico não só com a aprovação do Sínodo ortodoxo russo (que tinha se oposto a tal iniciativa durante décadas), mas também com o apoio real de Putin. Moscou – trate-se da União Soviética ou da Federação Russa – sempre prestou muita atenção na atitude do Vaticano na cena internacional.

Quando João XXIII lançou com determinação o diálogo entre Ocidente e Oriente, fazendo com que a Igreja Católica saísse da órbita estritamente atlântica, o então líder soviético Nikita Khrushchev autorizou a participação dos delegados da Igreja Ortodoxa Russa como observadores no Concílio Vaticano II.

Mikhail Gorbachev, no meio da perestroika, aproveitou o milenário do batismo da Rússia para acolher no Kremlin o secretário de Estado vaticano, o cardeal Agostino Casaroli, e lançar as bases do seu encontro em Roma com João Paulo II no dia 1º de dezembro de 1989.

Para Gorbachev, era vital para uma relação positiva com a Igreja Católica (além de com o Ocidente) para garantir um consenso internacional na fase difícil de democratização e de transformação econômica da URSS. Foi durante essa visita que Gorbachev convidou o papa polonês para ir a Moscou.

Vladimir Putin, desde o início dos primeiros passos de Francisco no cenário internacional, olhou com extrema atenção para a visão "multilateralista" do pontífice argentino.

Em setembro de 2013, quando se perfilava um ataque armado contra a Síria, liderado pelos Estados Unidos, o papa se dirigiu precisamente ao líder russo por ocasião de uma cúpula do G20 em Moscou. Ele enviou uma carta para exortar a uma gestão diplomática da crise, lembrando que muitos interesses escusos haviam prevalecido na guerra civil na Síria, "impedindo que se encontrasse uma solução que evitasse o inútil massacre a que estamos assistindo". Em última análise, a medida de Bergoglio bloqueou uma catastrófica invasão estadunidense e favoreceu o acordo na sede da ONU pelo desmantelamento do arsenal químico de Assad.

Mas é sobretudo a intuição de Francisco sobre a "terceira guerra mundial em pedaços" que encontrou ouvidos atentos em Moscou. Porque a definição do papa argentino – expressada ainda em agosto de 2014, durante o retorno da visita a Seul – reconduz logicamente a um marco unitários os vários focos de terrorismo jihadista e al-qaedista que explodiram no Oriente Médio, no Magrebe, no Chifre da África, na África Negra e na própria Europa.

Mais: Francisco, ao lembrar a legitimidade de uma intervenção para frear as agressões do "Califado", sublinhou imediatamente (na linha de João Paulo II) que devia ser excluída qualquer ação militar unilateral, mas que só as Nações Unidas podiam (e deviam) assumir tal tarefa. Conceito reiterado por ele nos seus colóquios políticos nos Estados Unidos e no seu discurso na ONU em setembro do ano passado.

Para Vladimir Putin, interessado em levar a Rússia novamente ao "concerto das potências" – depois que Moscou, durante a presidência de Boris Yeltsin, havia sido escanteada diante de um contínuo alargamento da Otan no Leste Europeu –, a construção de uma frente multilateral para gerir a crise médio-oriental é de grande interesse.

E, além disso, como os Estados Unidos começaram a reconhecer, o interesse também do Ocidente é de que se crie um tecido multilateral para derrotar a alarmante expansão do totalitarismo terrorista jihadista, que está provocando um número impressionante de vítimas.

Nessa linha, por outro lado, está trabalhando o enviado da ONU, Staffan De Mistura, tentando também manter à mesma mesa antigos adversários como a Turquia, o Irã e a Arábia Saudita, além de Assad e os rebeldes democráticas contrários a ele.

No ano de 2016, a cúpula em Havana entre Francisco e Kirill, portanto, vai muito além de um relançamento das relações ecumênicas e da intensificação do diálogo entre a Igreja Católica e o mundo ortodoxo, do qual o Patriarca de Todas as Rússias, com 150 milhões de fiéis, representa o componente mais numeroso.

A cúpula entre o pontífice argentino e o patriarca russo se coloca na encruzilhada da grande política mundial, e o fato de tê-la obtido constitui um novo sucesso da estratégia de Francisco e da diplomacia vaticana alimentada pela tradição de Paulo VI e de João Paulo II (da qual provém o cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin). O tema oficial do encontro será a "perseguição dos cristãos" no Oriente Médio e em certas regiões da África.

O assunto não estará separado das reflexões geopolíticas sobre como "frear o agressor" (para usar a terminologia de Francisco). Levando-se em conta que o papa sempre reiterou que é preciso lutar pela salvação de todas as minorias e comunidades de todos os credos, porque "todos são filhos de Deus".

Nas pastas do papa e do patriarca, também há um documento, assinado no ano passado em Genebra, por 53 Estados-membros do Conselho da ONU para os Direitos Humanos, sobre a exigência de combater a "séria ameaça" para as minorias religiosas, e, especialmente, para os cristãos no Oriente Médio. Os signatários proponentes eram o Líbano, a Santa Sé e a Federação Russa. Uma companhia inédita.

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