O encontro em Bari e o futuro dos cristãos no Oriente

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28 Abril 2018

O papa convoca um encontro ao qual são chamados todos os patriarcas e os chefes das Igrejas orientais que viveram a ruptura da comunhão com Roma. A esperança de caminhar rumo à unidade é alimentada pela solicitude pelas comunidades cristãs do Oriente Médio em sofrimento.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 27-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O “Dia de Reflexão e Oração” que, no próximo 7 de julho, reunirá em Bari, Itália, o Papa Francisco e os chefes das Igrejas e das comunidades cristãs disseminadas no Oriente Médio foi anunciado com tons suaves e sem alardes.

No entanto, o evento não tem precedentes na história do ecumenismo. Pela primeira vez, o bispo de Roma, ex-“Patriarca do Ocidente” – até 2006, quando esse antigo título atribuído ao papa foi suprimido por Bento XVI – convoca um encontro de oração ao qual são idealmente chamados também todos os patriarcas e os chefes das Igrejas do Oriente que, em momentos diferentes, desde o Concílio de Éfeso (431 d.C.), viveram a ruptura da plena comunhão com a Igreja de Roma.

Nas últimas décadas – desde o Dia de Oração pela Paz convocado em Assis, no dia 27 de outubro de 1986, por Wojtyla – foram numerosos os encontros inter-religiosos desejados pelos papas para invocar, junto com representantes cristãos e líderes de diversas religiões, o dom da paz.

O próprio João Paulo II convocou no dia 24 de janeiro de 2002, em Assis, um Dia de Oração pela Paz depois do atentado às Torres Gêmeas de Nova York, enquanto Bento XVI participou também do Dia de Reflexão, Diálogo e Oração pela Paz convocado também em Assis para celebrar o 25º aniversário do histórico “evento” wojtyliano de 1986.

Em relação a tudo isso, a jornada convocada em Bari pelo Papa Francisco tem uma fisionomia própria: o apelo é circunscrito especificamente aos chefes das Igrejas e das comunidades cristãs da região do Oriente Médio.

O precedente que mais se assemelha ao próximo encontro de Bari é a reunião que, em março de 1991, poucos dias após o fim da primeira Guerra do Golfo, reuniu em Roma, em torno de João Paulo II, os representantes dos episcopados dos países mais envolvidos naquele conflito. Mas, naquela ocasião, participaram do encontro apenas patriarcas e bispos das Igrejas católicas do Oriente, junto com bispos e cardeais católicos ocidentais e de altos prelados da Cúria Romana.

A falta de ênfase que marcou o anúncio do próximo encontro de Bari – cidade definida como “janela para o Oriente” no briefing realizado a esse respeito pelo diretor da Sala de Imprensa vaticana, Greg Burke – sugere, por contraste, o caminho realizado nos anos do pontificado do Papa Francisco, que tanto insiste em indicar o ecumenismo como um “caminhar juntos” dos cristãos nos acontecimentos da história, rumo à plena comunhão.

No seu desejo de reconhecer a unidade já real e operante com todos os cristãos em virtude do batismo, o atual sucessor de Pedro sempre manteve aberta uma espécie de faixa preferencial para os patriarcas e os chefes das Igrejas do Oriente, mostrando particular solicitude precisamente para aqueles que residem nos países do Oriente Médio abalados por conflitos e violências sectárias. Do Patriarca Ecumênico Bartolomeu ao patriarca siro-ortodoxo Ignatius Aphrem II, do papa copta Tawadros aos armênios Karekin e Aram, quase todos os chefes das Igrejas orientais não católicas tiveram mais de uma oportunidade para viver encontros de comunhão com o bispo de Roma.

Em dezembro de 2016, durante uma visita sua ao Vaticano, o patriarca assírio Mar Gewargis III tinha proposto justamente ao Papa Francisco que convocasse uma reunião dos patriarcas e dos chefes das Igrejas do Oriente para “discutir a situação do Oriente Médio, rezar juntos, buscar soluções para os problemas”. De acordo com o patriarca assírio – como o próprio Mar Gewargis confidenciou ao Vatican Insider – precisamente “o tempo que estamos vivendo nos chama a dar também esse sinal de unidade”.

Entre a Igreja de Roma e as Igrejas do Oriente, o caminho para se reconhecerem como irmãos se mantém sempre no horizonte de uma possível retomada da plena comunhão sacramental. Uma esperança que leva a enfrentar e a encurtar as distâncias teológicas e doutrinais, mas que também é alimentada pela solicitude comum pelas comunidades cristãs que sofrem no Oriente Médio e pelo futuro incerto do cristianismo justamente nas terras onde os apóstolos pregaram.

Os conflitos que abalam o Oriente Médio conferem fortemente ao próximo encontro em Bari conotações de interesse também “geopolíticas”. No refrão, às vezes caótico e contraditório dos discursos públicos dos chefes das Igrejas do Oriente, nos últimos tempos voltaram a prevalecer as vozes críticas em relação às políticas das potências ocidentais.

Em 14 de abril, os três patriarcas residentes em Damasco, que trazem o título de Antioquia – o greco-ortodoxo Yohanna X, o greco-melquita Youssef e o siro-ortodoxo Ignatius Aphrem II – assinaram juntos um documento para condenar a “brutal agressão” realizada pelos Estados Unidos, França e Reino Unido contra a Síria, “com a acusação de que o governo sírio teria usado armas químicas”.

Em dezembro passado, a anunciada intenção do governo dos Estados Unidos de querer reconhecer Jerusalém como capital de Israel também produziu, entre os efeitos colaterais, uma reagregação ecumênica geral de todas as comunidades cristãs presentes no Oriente Médio, com os representantes de todas as Igrejas eles competiam para expressar publicamente sua contrariedade à escolha de Trump.

Uma deploração inversamente proporcional ao crédito adquirido nos últimos anos entre os cristãos do Oriente Médio pela Rússia de Putin: não por acaso, diversos altos representantes das Igrejas do Oriente Médio – incluindo os patriarcas greco-ortodoxos Theophilos de Jerusalém e Yohanna X de Antioquia – foram recebidos por Vladimir Putin em 4 de dezembro passado, junto com todos os chefes de delegação das Igrejas ortodoxas que foram a Moscou para participar das celebrações programadas para o 100º aniversário da restauração do Patriarcado na Igreja Ortodoxa Russa.

Naquela ocasião, em seu discurso, o presidente Putin recordou que a contribuição dos militares russos havia permitido que o Exército sírio “libertasse dos terroristas” também as áreas da Síria mais caras aos cristãos. E acrescentou que a colaboração entre o Patriarcado de Moscou e a Igreja Católica poderá ter um “papel crucial” no sentido de favorecer o retorno dos refugiados cristãos para as suas casas, nas regiões libertadas do controle dos jihadistas.

A dimensão geopolítica do conflito no Oriente Médio, no entanto, não é a única coordenada a se levar em consideração para enfrentar os problemas e as dificuldades que afligem tantas comunidades cristãs no Oriente Médio. Justamente os conflitos e as convulsões históricas dos últimos anos ressaltaram os tesouros da fé espalhados entre os cristãos do Oriente Médio, mas também as fragilidades internas e as fraquezas de muitos aparatos eclesiais enraizados naquelas terras.

O próximo encontro de Bari também poderia oferecer a oportunidade para enfrentar com coragem apostólica todos os fatores que enfraquecem, “a partir de dentro”, a presença cristã no Oriente Médio. Deixando de lado a ilusão de que, para manter vivas comunidades de história milenar, são suficientes as coletas de fundos no Ocidente ou a ajuda externa fornecida por algum poderoso “protetor dos cristãos”.

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