O beijo e o tapa

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28 Junho 2018

“Por trás das embaixadas e dos abraços, há escolhas políticas e espirituais. São essas escolhas que deveriam ser examinadas, do ponto de vista cristão, para saber se elas têm ou não alguma coisa edificante. Até prova em contrário, nem o tapa do velho sacerdote nem o beijo do jovem Presidente dizem algo sobre o Evangelho”. A reflexão é do editorial da revista francesa La Vie, 26-06-2018.  O editorial é assinado por Jean-Pierre Denis, diretor da revista. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

O Estado se quer laico, mas a cultura continua impregnada de religião. A sociedade secularizada não é indiferente. Nós nos damos conta disso por momentos, por fugas, por acidente. Nós nos lembramos de Deus, de seus ministros e de suas demonstrações, aos trancos e barrancos e com repugnância, com características fugazes, exageradas e irritantes. Nós procuramos sinceramente as chaves para compreender o que está acontecendo, mas muitas vezes procuramos no bolso errado. Um exemplo? Milhões de pessoas viram e compartilharam o vídeo de um padre de 89 anos dando um tapa em um bebê que chorava durante o seu batizado.

Ninguém pense que eu tolero qualquer tipo de violência ou abuso. Mas o gesto descontrolado de um homem obviamente fora de si não tem literalmente nenhum sentido; não conseguimos tirar disso nenhuma lição, nenhum significado, fazer nenhuma generalização. Esse ato pode ser odioso, mas ele não diz nada. No entanto, o bispo local apressou-se a reagir e sua diocese de comunicar, de suspender o velho malvado com grandes toques de tambor e trompete. Para não ser acusado por não sei qual complacência, é necessário ir com seu tiro de pedra. E quanto aos 125 jovens ordenados este ano, a maioria nestes dias, quem se importa? No reino da imagem viral, o tapa prevalece por K.-O. [de Knock Out, nocauteado] sobre a imposição das mãos. Seja-me permitido afirmar aqui que é pura ilusão de ótica. Porque, sim, ao contrário, o compromisso desses jovens tem um significado profundo.

Por falta de sentido, cortamos o som e olhamos as imagens. Nós murmuramos sobre um gesto e paramos o relógio. Da visita realizada por Emmanuel Macron ao Vaticano, retemos o mensurável, o número de minutos passados frente a frente, os abraços fotogênicos que deveriam indicar a qual grau de calor humano eleva-se o famoso “coeficiente pessoal”. Como o jovem Presidente é tátil, e o velho Papa também, nós nos abraçamos com prazer e fingimos ignorar que durante a campanha eleitoral francesa Francisco tinha dito pouco diplomaticamente que não conhecia aquele candidato chamado Macron. E estamos servidos, porque o beijo é caloroso. Além disso, os gestos de Francisco costumam falar por si, mostrando uma distância ou expressando uma simpatia. Neste homem, o gesto é um discurso, do mesmo modo que o pensamento passa para o ato.

Disso a deduzir do eu não sei o que e do quase tudo sobre as relações entre Emmanuel, o Presidente de nome divino, e Francisco, o Papa em nome do rei da França, não é ir um pouco rápido e cair ingenuamente nas armadilhas da comunicação política? Sim, o beijo dá o que falar. Mas o que fará sentido situa-se fora do quadro, fora do campo e será medido no futuro. Quando o Presidente e o Papa trabalharem juntos, esperançosamente, pelo planeta, pela paz, pelo clima, pelo destino dos cristãos do Oriente. Quando vier ou, aparentemente, não vier, a hora de uma política social. Quando surgirem as decisões sociais preparadas pela maioria. Sagaz, suspeitando talvez desse pequeno jogo de instrumentalização que os políticos não podem deixar de jogar, a presidenta do Secours Catholique, Véronique Fayet, aproveitou a viagem para dar ao Papa um documento sobre a necessidade de mudar o sistema financeiro mundial. Sem nenhum engano, o Papa presenteou o Presidente com uma imagem do grande São Martinho de Tours, esse soldado que divide seu manto com um homem pobre.

Por trás das embaixadas e dos abraços, há escolhas políticas e espirituais. São essas escolhas que deveriam ser examinadas, do ponto de vista cristão, para saber se elas têm ou não alguma coisa edificante. Até prova em contrário, nem o tapa do velho sacerdote nem o beijo do jovem Presidente dizem algo sobre o Evangelho.

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