Veredito de McCarrick é o sinal mais recente de caminho para uma mudança

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • Opositores do papa: continuem assim

    LER MAIS
  • Papa Francisco condena perseguição antigay e está preocupado com “cura gay”

    LER MAIS
  • Católicos e anglicanos - Trabalhar juntos para bem da humanidade, diz secretário do Vaticano

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

22 Junho 2018

"Padres e bispos são pastores, e eles estão lá para proteger o rebanho. Seu primeiro pensamento deveria ter sido o dano causado à vítima, não o escândalo que cercaria o agressor. Proteger o criminoso e não a vítima violou toda a sua teologia de Ministério e autoridade apostólica. Violou a liderança sacramental da comunidade. Quase matou a Igreja neste país", escreve Michael Sean Winters, em comentário publicado por National Catholic Reporter, 21-06-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o texto.

O cardeal Theodore McCarrick se demitiu do ministério ontem após a Santa Sé determinar que as alegações de abuso sexual contra um menor de quase 50 anos atrás eram "credíveis e substanciais". A arquidiocese de Newark e a diocese de Metuchen também divulgaram informações de que alegações sobre má conduta sexual de McCarrick contra adultos foram feitas no passado, sendo duas das três alegações resolvidas num acordo.

McCarrick serviu como padre por sessenta anos. Ele atuou na Igreja como presidente da Universidade Católica de Porto Rico, como bispo de Metuchen, em Nova Jersey, e como arcebispo de Newark, também em Nova Jersey e depois em Washington. Ele se tornou cardeal e participou do conclave de 2005, que elegeu o Papa Bento XVI. McCarrick foi um "homem de conferências" servindo em vários comitês ao longo dos anos.

Ele era um dos principais embaixadores da Igreja, viajando para países em que a maioria de nós sequer sabíamos da existência, construindo relações através de linhas étnicas, raciais e denominacionais. Mesmo na aposentadoria, sua agenda teria sido assustadora para uma pessoa com metade da sua idade, porém ele manteve as atividades. Tudo pelo bem da igreja.

Nada disso o protegeu da acusação de ter abusado de um menor. Nada disso deveria protegê-lo. Agora, está claro que depois de anos, décadas e provavelmente séculos de encobrimento os crimes do clero em relação ao abuso sexual de crianças, existe um regime de transparência e prestação de contas que ninguém, nem mesmo um cardeal, pode ser considerado acima da lei. Eles podem obter um passe por outros crimes e falhas, mas não por isso. Apesar de todos os problemas contínuos - a situação no Chile e a má-vontade da cúria que levou Marie Collins a renunciar da Pontifícia Comissão de Proteção Infantil - a cultura da Santa Sé começou a mudar nesta questão. Vinte anos atrás, tais alegações teriam sido varridas para debaixo do tapete. Hoje, não são mais.

O cardeal Bernard Law renunciou ao cargo de arcebispo de Boston em 2002 por encobrir abusos sexuais de maneira tão flagrante que ele não podia mais liderar a arquidiocese. Além deles, o falecido cardeal de Edimburgo, Keith O'Brien é o único a se demitir do ministério devido a alegações de abuso sexual, embora que nessas acusações estivessem envolvidos subordinados que, não obstante, eram adultos. O cardeal australiano, George Pell renunciou ao seu cargo no Vaticano, retornando ao seu país de origem para enfrentar acusações de abuso.

É notável que as gestões anteriores por má conduta sexual envolvendo adultos não resultaram na etapa drástica de renunciar ao Ministério, e nem deveriam. Os padres às vezes falham em manter seus votos de celibato, assim como os homens e mulheres casados ​​às vezes não cumprem seus votos de fidelidade. O abuso sexual de um menor - ou de um subordinado, que constitui um abuso de poder - é diferente e deve ser tratado como tal. Se os apontamentos estiverem com os subordinados, serão levantadas questões sobre por que essa punição de remoção do Ministério não foi aplicada anteriormente.

A renúncia de McCarrick vem no crepúsculo de sua vida. Na última vez que o vi, me pareceu claro que as faculdades intelectuais do cardeal outrora formidáveis ​​estavam começando a falhar.  Seria fácil e errado ao mesmo tempo pensar "Pobre cardeal McCarrick". Esse é o sentimento que nos colocou nessa confusão. Em primeiro lugar, o fato de que, quando confrontados com alegações de que um padre havia abusado de um menor, muitos bispos tiveram como reação inicial o pensamento "pobre padre". É compreensível, mas não perdoável.

Padres e bispos são pastores, e eles estão lá para proteger o rebanho. Seu primeiro pensamento deveria ter sido o dano causado à vítima, não o escândalo que cercaria o agressor. Proteger o criminoso e não a vítima violou toda a sua teologia de Ministério e autoridade apostólica. Violou a liderança sacramental da comunidade. Quase matou a Igreja neste país.

Mudar essa cultura não foi fácil. Em 1993, a convicção do então bispo, Donald Wuerl, em desafiar uma decisão do Vaticano, ordenando que ele restabelecesse o padre Anthony Cipolla, que havia sido acusado de abuso sexual de um menor, foi um dos primeiros passos no caminho para uma mudança. A promulgação da Carta de Dallas e a renúncia do cardeal Law, ambas em 2002, foram marcadores adicionais. A remoção do padre Marcial Maciel da posição de chefe dos Legionários de Cristo e o estabelecimento da Comissão para a Proteção de Menores no Vaticano foram mais importantes ao longo do caminho para uma mudança. A notícia de ontem foi a mais recente de uma longa série de incidentes que, juntos, constituem um acerto de contas.

De certo modo, esse processo de transformação nunca será completo. Nossos procedimentos podem responsabilizar as pessoas, mas há algo exclusivamente obscuro em um coração humano que busca tirar proveito da inocência de uma criança para a gratificação sexual. Nós nunca entenderemos completamente por que algumas pessoas boas e bem sucedidas, humanas e amorosas, fazem uma coisa tão horrível. Tudo o que podemos fazer é tentar os evitar da melhor forma possível e responsabilizar de qualquer maneira aqueles que o fazem.

O veredito da Santa Sé contra McCarrick é outro marco triste, mas necessário para a Igreja ao longo do caminho de transformação. Não importa que outras questões desafiem a Igreja, e que personalidades se envolvam em abuso sexual, nunca vamos perder de vista a necessidade de continuar perseguindo o caminho para uma mudança. Faça uma oração pelo cardeal. Mas antes, faça uma oração pela vítima.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Veredito de McCarrick é o sinal mais recente de caminho para uma mudança - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV