Crise dos refugiados. Uma tragédia que beneficia máfias e ultradireitas

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16 Junho 2018

Aquarius: um nome luminoso por trás do qual se movem as sombras de milhares de mortos, centenas de milhares de refugiados à deriva, o naufrágio da Europa como entidade com capacidade operativa e princípios humanitários, o oportunismo político das extremas direitas europeias e, no fundo, as disparatadas aventuras militares do Ocidente que, com vagos pretextos humanitários, desencadeiam dramas humanos coletivos. Aquarius é o nome do barco de Médicos sem Fronteiras e SOS Mediterrâneo, que salvou centenas de migrantes náufragos diante das costas da Líbia.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 15-06-2018. A tradução é do Cepat.

Itália e Malta recusaram o desembarque dos refugiados, França fechou os olhos e foi finalmente a Espanha quem acabou abrindo seus portos para os mais de 600 migrantes a bordo do Aquarius. O destino desses refugiados abriu uma crise no seio da União Europeia, reforçou os argumentos do eixo ultranacionalista composto hoje por Áustria, Alemanha, Hungria e Itália e desencadeou um confronto diplomático de tom muito alto entre Paris e Roma.

O presidente francês, Emmanuel Macron, pouco fez para socorrer os refugiados. No entanto, o mandatário denunciou o “cinismo e a irresponsabilidade” do Executivo italiano por ter impedido que o Aquarius atracasse em seus portos. A resposta de Roma chegou de imediato, primeiro através do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, que afirmou que a “Itália não pode aceitar lições hipócritas de países que no tema da migração sempre preferiram olhar para outro lado”. A segunda reposta foi protagonizada pelo líder da xenófoba Liga e atual Ministro do Interior, Mateo Salvini, exigindo que Macron se desculpasse por suas palavras.

O suposto cinismo, neste caso, é um opróbrio global, desde o início da tragédia dos refugiados que chegam às costas da Europa e que tornaram o Mediterrâneo “um dos maiores cemitérios a céu aberto do mundo”, segundo afirma Olivier Clochard, geógrafo e coordenador do grupo de pesquisas Migrinter. Hoje, migrar é uma sentença de morte assegurada.

Três estatísticas revelam o horror. United for Intercultural Action (rede de 500 ONGs) calculou que, entre 1993 e 2012, 17.000 pessoas morreram tentando chegar à Europa. A associação Fortress Europ fixou o número em 27.000 para os anos que vão de 1988 a 2002. A estatística mais atual realizada pelo consórcio de jornalistas The Migrants Files aumentou o número para 35.000 mortos, entre 2000 e 2016. A mesma fonte calculou os montantes psicodélicos que move o Velho Continente para “lutar” contra a migração e os contrapôs aos que ganham os traficantes de seres humanos que se beneficiam com essa migração. Segundo The Migrants Files, “durante os últimos quinze anos, traficar com migrantes e refugiados gerou um lucro de ao menos 15, 7 bilhões de euros para as máfias”. Por sua vez, o controle das fronteiras teve um custo de “1,6 bilhão de euros” e “as políticas de expulsões e repatriações de migrantes custaram ao menos 11,3 bilhões de euros aos países europeus, a partir do ano 2000”.

A persistência abismal da tragédia só beneficiou máfias e ultradireitas. A versão mais atual desta crise foi desatada quando o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy, apoiado pela Grã-Bretanha, Estados Unidos e OTAN, teve a ideia de derrubar o presidente líbio Muhammar Khadafi. Em março de 2011, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a resolução 1973 que autorizou “todas as medidas necessárias (...) para proteger os civis e as zonas povoadas por civis que estejam sob ameaça de ataque”. O que o Ocidente fez foi decapitar Kadhafi sem pensar no amanhã e, com isso, abriu as portas do inferno.

Os primeiros migrantes chegaram à ilha italiana de Lampedusa sem que, naquele momento, a União Europeia apoiasse a Itália, um país repentinamente submergido pela desesperança humana e abandonado por seus sócios europeus. A situação de indolência e ineficácia europeias conduziu o Papa Francisco a Lampedusa, em julho de 2013, naquele que foi o seu primeiro deslocamento como Sumo Pontífice. Ali, pronunciou a já famosa frase “a globalização da indiferença”.

Não é demais recordar que entre sírios (56% dos migrantes), afegãos (24%), iraquianos (10%) e subsaarianos, a maioria dos refugiados foge de conflitos que são responsabilidade direta das potências ocidentais e seus aliados regionais - Arábia Saudita e Qatar, principalmente -. Desde o primeiro momento, a resposta europeia foi policial. Patrulhas marítimas (Frontex), controle das fronteiras. Ao mesmo tempo, como crianças em um jardim de infância que brigam por um caramelo, os europeus negociaram através do Regulamento de Dublin, pelo qual são pactuadas as normas com as quais cada país da União receberá em seu solo determinado número de migrantes.

Segundo números da OIM (Organização Internacional das Migrações), entre 2010 e 2017, cerca de dois milhões de pessoas buscaram entrar no Velho continente por meio de várias rotas: o Mediterrâneo, os Balcãs, Turquia. Os europeus tiveram uma marcada tendência em fazer com que a problemática dos refugiados fosse responsabilidade do país que os recebe.

Contudo, conforme recordou, há alguns dias, durante um encontro com meios de comunicação (Financial Times, Guardian, Stampa, Süddeutsche Zeitung, Le Monde), o novo chefe da diplomacia espanhola, Josep Borrell, “o problema da migração não é um problema italiano, como tampouco foi ontem um problema grego ou espanhol”. Mas, os europeus, pressionados politicamente por suas próprias opiniões públicas cada vez mais anti-imigrante e a ascensão crescente da extrema-direita, poucas vezes ofereceram uma resposta digna, coletiva e ordenada.

O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados revelou que 2017 foi o ano mais mortífero para os refugiados, com 3.100 mortos no Mediterrâneo. Thierry Allafort-Duverger, presidente de Médicos Sem Fronteiras França (a ONG francesa esteve envolvida no resgate dos migrantes a bordo do Aquarius), destaca que “desde inícios de 2018, mais de 6.000 pessoas foram recuperadas no mar por guarda-costas líbios, em parte financiados pela União Europeia. Essas pessoas foram depois remetidas a centros não oficiais, onde voltam a se encontrar com o inferno”.

Estes índices não comovem os partidos de extrema-direita. Estes souberam tirar um proveito político imenso dessa tragédia humana. Suas porcentagens de adesão eleitoral na Áustria, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Hungria e França são consequência direta da exploração cínica da crise dos refugiados. Pela mão de Mateo Salvini, Roma, Berlim e Viena acabam de conformar na Alemanha uma nova frente ultraconservadora destinada a “proteger as fronteiras”.

Enquanto a Europa do humanismo olhava para outro lado, a Europa ultraconservadora contou com os melhores benefícios das vidas humanas que jazem no fundo do Mediterrâneo ou seguem no cadafalso das fronteiras esperando um improvável salvo-conduto que lhes abra as portas do falso paraíso.

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