Argentina e a chegada do FMI: “Haverá uma rebelião”, afirma Juan Grabois

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30 Maio 2018

A fome mexe com Juan Grabois. A fome a sério, que nunca sofreu, mas viu nas panelas populares de 2011. “Augustín Tosco dizia que luta contra a injustiça não apenas aquele que a padece, mas aquele que a compreende. Porque como a compreende, pode senti-la como própria”. Isto será a primeira coisa que Grabois dirá na conversa com Tercer Cordón. Esse sofrimento que conseguiu compreender em inícios desse século é o que não deseja que volte com o retorno do Fundo Monetário Internacional ao país. Sentado em uma das salas que a Confederação de Trabalhadores da Economia Popular possui em Constituición, durante a entrevista, o nome de referência da CTEP não hesitará em afirmar que a chegada do FMI provocará uma rebelião. Ressaltará que o povo argentino não suportará uma ditadura econômica estrangeira que o esfomeou como nos anos 1990. Qualificará de autogolpe o que está acontecendo no país. E proporá uma grande frente opositora para enfrentar o neoliberalismo.

A entrevista é de Guido Molteni, publicada por Tercer Cordón, 26-05-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como você analisa o possível acordo com o FMI?

Estou obcecado com esse assunto. Estou procurando estudá-lo em termos científicos, não somente ideológicos. Contudo, não querem revelar as condições do acordo e não quererem as dizer é um problema. Sutilmente, Cristine Lagarde já disse que o plano econômico deste acordo foi integralmente esboçado por Macri. Até colocou em seu Twitter, como que dizendo: “depois não joguem a culpa em mim”. Uma das funções que buscarão com o acordo é que sirva para justificar o ajuste. Sem dúvida, a palavra FMI para a geração 2001 é miséria, fome, desesperança. É perigosíssima a subordinação política e econômica da Argentina a organismos que não têm sequer representantes físicos aqui.

E como você acredita que o povo pode reagir diante deste acordo?

Eu acredito que haverá uma rebelião. Independente da vontade dos dirigentes, se a coisa vem com um esquema como nos anos 1990, eu acredito que haverá uma séria rebelião.

As condições para que isso ocorra estão dadas?

O povo não irá engolir uma ditadura econômica estrangeira que o esfomeou. Uma coisa é suportar um mau governo eleito, e outra coisa é suportar uma ditadura econômica estrangeira. O povo argentino, gostemos ou não, optou que esta gente que nos governa defina as políticas econômicas deste país, não que sejam definidas por Lagarde e um bando de tecnocratas da Universidade de Chicago, que em todos os países por onde passaram deixaram um rastro de sofrimento. Não podemos permitir que volte a fome de 2001. É a isso que não queremos voltar.

Isto muda completamente a relação que você tem com o governo?

Nós sempre dissemos que o pior que pode acontecer com o nosso povo é voltar a uma situação como a de 2001 ou que o governo não conclua seu mandato porque os que mais sofrem são nossos companheiros. Por isso, sempre dialogamos. Mas, definitivamente, o que temos agora não é um governo, é uma administração colonial dos interesses do capital, que o podem usar e tirar como fizeram com tantos personagens sinistros na história de nosso país. Pensar que o inimigo é Macri é ter uma visão muito pequena.

Caso se acertem com o FMI, os métodos de fazer oposição irão mudar?

Assumimos que o método de luta neste momento histórico tem a ver com a construção de poder popular, a luta reivindicativa e, para alguns companheiros, a luta institucional. Todos os métodos sempre dentro dos marcos institucionais. Caso esse contrato social seja quebrado porque volta a existir uma administração colonial na Argentina, certamente, irá mudar a visão de muitos de nós a respeito de quais são os métodos de luta que são necessários aplicar. Tem a ver com não voltar à fome a sério. Eu sou muito respeitoso desse conceito tão terrível como é a fome, nunca o usamos para justificar uma determinada luta. Nós lutamos por salário social. Mas, a luta pela subsistência é outra coisa. Se isso chega ao ponto da luta pela subsistência, os métodos mudam e, sem dúvida, serão muito diferentes.

E se o governo lhes garantir que as políticas sociais continuam, mas com o FMI dentro?

A garantia disso precisa ser muito clara. Estamos com um piso muito baixo de direitos sociais, não se pode continuar diminuindo esse piso. E muito menos se pode continuar diminuindo para garantir que um bando de delinquentes internacionais continue levando 40% dos juros com as Lebac. Nenhuma pessoa com responsabilidade sobre os labutadores, sobre os mais humildes, pode tolerar isso.

Arrepende-se de ter priorizado o diálogo, durante este tempo?

Eu estou orgulhoso de ter priorizado o diálogo. Assumimos que, mesmo se quiséssemos, não existe nenhuma possibilidade e nenhuma correlação de força para poder impor, neste momento da Argentina, um modelo de distribuição da riqueza radicalmente diferente daquele que há agora. O qual implicaria, por exemplo, na nacionalização de todo o setor agroexportador. Então, temos que buscar dialogar e coexistir. Por isso, sempre buscamos os melhores acordos possíveis. Mas, o contexto muda quando sai dos marcos institucionais da democracia e aparecem atores externos que não são democráticos, porque o nosso povo não votou na direção do FMI.

Escreveu no Facebook que isto é um autogolpe...

Dar o controle da economia de um país a um núcleo de poder transnacional estrangeiro é delegar a soberania, que é indelegável. Então, há um autogolpe, não tenho a menor dúvida. É necessário avaliar seriamente os termos desse acordo porque há muito em jogo.

Chegou há alguns dias de Roma. Como o Papa avalia a relação com o FMI?

É uma atitude indigna se esconder atrás da sotaina do Papa. Considero que qualquer dirigente social ou político que possua alguma relação com ele não pode justificar sua opinião por trás da do Papa. Nossas posições e nossas decisões são nossas e assim deve continuar sendo. Seria muito ruim buscar nos justificar com o que ele diz, e também seria ruim se ele nos dissesse o que temos que fazer.

Contudo, não considera que o acordo com o FMI parece ser contrário à sua mensagem?

O Papa se expressou com clareza, em muitas ocasiões, de maneira diametralmente oposta ao programa que o governo está conduzindo, não me resta dúvida. É um governo subordinado à idolatria do dinheiro. O dinheiro não apenas como elemento econômico, mas em sua pior face que é a financeira. Além disso, em termos filosóficos, aqui se tenta importar uma ideia que tem a ver com a cultura anglo-saxã da meritocracia. Isso é um ideal que não compartilho e o Papa falou com clareza sobre isto: há um ideal superior que é o da justiça social, que foi formulado por Santo Agostinho e que Marx depois retomou, que diz: “cada um segundo sua capacidade e a cada um segundo sua necessidade”. Esses valores comunitários são contrários a esta ideia da meritocracia.

Na Argentina, existe meritocracia?

Temos um governo e uma classe empresarial que é parasitária na Argentina. É dependente da pátria contratista. São todos filhos de. Há pouco talento, pouca inovação, pouco do que os liberais chamariam iniciativa própria. Não é que aqui se tornaram ricos como Bill Gates inventando coisas. Entendo que o presidente não inventou nada, nem é filho de um operário. A maioria dos funcionários não tem muito mérito. A meritocracia é truta como conceito de fundo e é truta em sua aplicação prática.

Por que o setor da economia popular continua crescendo em nível mundial?

Há um conceito do pensamento social do Papa Francisco que me parece interessante, que é o do paradigma tecnocrático. Na fase atual de desenvolvimento do capitalismo, existe uma aliança entre as altas finanças e a alta tecnologia, na qual dominam as finanças. A tecnologia está a serviço do lucro e não do bem-estar da humanidade. Esse paradigma não é algo que é digitado a partir de um escritório dos Estados Unidos que está conspirando contra a humanidade, mas que é uma lógica de funcionamento que faz com que a robótica, a biotecnologia e os processos de automatização sejam aplicados unicamente para gerar maiores lucros para as empresas. E isso gera dois fenômenos sociais: o primeiro é a exclusão. Tem a ver com o descarte do ser humano visto como um recurso e substituído por outro de uma maior produtividade do ponto de vista mercantil, que é a tecnologia. Isso faz nosso setor crescer. E o segundo fenômeno social é a deterioração ambiental, que ninguém mais pode dizer que é um lema chavão do Greenpeace, pois está afetando de maneira concreta e real a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

E como frear isso?

Esse paradigma que é global é a mãe de todas as batalhas. Essa aliança entre tecnologia e finanças expõe uma aliança popular entre os trabalhadores que continuam mantendo o emprego em uma relação clássica e os descartados, que são os que estão na economia popular e produzem sua existência com o que o sistema descartou. E poderíamos acrescentar um terceiro componente para esta aliança que são os indignados. Aqueles que não sofrem na própria carne estas injustiças, mas veem que assim não há futuro para a humanidade.

E como se daria esta aliança na Argentina?

Nós, organicamente, como CTEP, acreditamos que precisa existir uma central que agrupe toda a classe trabalhadora. Isso implica trabalhar pela unidade em dois sentidos. Um é mais estrutural, que é a incorporação dos trabalhadores da economia popular nas estruturas sindicais argentinas. E outra é a unidade política do movimento operário e os trabalhadores. E as duas coisas são difíceis.

Por quê?

É difícil para um dirigente com a mentalidade da sociedade industrial entender que a exclusão do mercado de trabalho não é um estágio transitório no desenvolvimento capitalista, mas algo permanente no paradigma tecnocrático. Que entenda que não irá se resolver nem com uma política de derrame induzido, nem com a aplicação de certo neokeynesianismo, nem com um governo popular. Nosso setor continuará existindo, enquanto existir o capitalismo. E, por outro lado, há níveis de mesquinhez e de posicionamentos que têm pouco a ver com os interesses dos trabalhadores que, lamentavelmente, determinam como se organiza o movimento operário hoje. Então, essa arte de buscar construir unidade nessas condições é complexa.

E como enxerga Pablo Moyano e Sergio Palazzo para construir essa unidade, a partir da CGT?

Há muitos dirigentes... A Corrente Federal fez uma evolução muito importante com este tema de entender a realidade dos trabalhadores da economia popular. Isto eu tenho que dizer: o homem que mais trabalhou conosco é (Juan Carlos) Smith. Além disso, para mim, é um exemplo de dirigente sindical muito bom por sua integridade humana. Porque um dos grandes problemas que há na militância popular, social e política é a corrupção ou, para dizer em outros termos, a aspiração de alguns dirigentes em viver como burgueses quando representam trabalhadores. Viver como o outro polo dialético do conflito social. E isso é ruim. Retira força e poder das reivindicações e, além disso, é mau intrinsecamente.

Enxerga como possível, então, a unidade sindical de todos os setores?

Há uma janela de oportunidade. É muito difícil porque implica que todos nós temos que engolir sapos. Não se pode andar elegendo como se fosse Lilita Carrió com o dedo acusador sobre quem é bom, quem é mau, quem é mais ou menos. É necessário buscar a forma de construir a unidade possível no momento atual.

Na semana passada, algumas organizações que promovem a CTEP lançaram, juntas com outros movimentos, um espaço político próprio (“Vamos”), mas você não participa. Por quê?

É muito importante ressaltar que a CTEP não faz parte de nenhuma estrutura partidária. O êxito da CTEP está em que entendemos que, nesta etapa histórica, a unidade na luta social nos permite construir uma unidade muito ampla, que não é possível ser construída no âmbito político. Não podemos rifar isso. A CTEP é um sindicato, é uma organização em si mesma, não é uma coordenação de organizações. Sim, é promovida por uma trintena de organizações que algumas são políticas e sociais como o Movimento Evita, Pátria Grande, A Dignidade. Nesse sentido, surge esta iniciativa por fora. Eu a vejo com muita prudência, porque os experimentos nesse campo foram bastante tristes. Como sempre militei no terreno social, conheço o dano que a política partidária causa à unidade no social e o quanto deixa vulnerável os setores populares, quando os dirigentes dos movimentos sociais brigam para ver quem é o vereador suplente de Três de Fevereiro. Mas, ao mesmo tempo, também vejo o espaço com alguma esperança, porque eu acredito muito em nossa geração.

Você os apoia?

O que mais apoio de tudo isto é o protagonismo dos jovens militantes. Não só por uma questão biológica e etária, mas porque me parece necessário uma refundação da forma de militar e fazer política. E acredito que aqueles que estão há muito tempo dirigindo organizações não a podem fazer. Podem aconselhar, guiar, transmitir experiências, mas não devem liderar. Neste espaço, que é necessário ver como termina de se estabelecer, é claro que me sinto muito próximo e irei ajudá-los em tudo o que eu puder.

E se pedem a você que os ajude sendo candidato?

É preciso haver uma quantidade de circunstâncias que não acredito que existirão. Contudo, isso não significa que não vá acompanhar o espaço, na medida em que se deem algumas condições.

Quais?

Uma é que haja um protagonismo quase exclusivo de uma nova geração. Outra condição é que seja um espaço que permita a construção de unidade do campo popular frente ao neoliberalismo. Ou seja, que não seja uma pequena alternativa que pode chegar a ser funcional a tal ou qual setor do poder consolidado. Dizendo com todas as letras, que não seja funcional à estratégia eleitoral do governo porque divide os votos da oposição.

Então, enxerga o kirchnerismo e Cristina dentro dessa unidade?

Eu acredito que deve existir uma frente opositora, umas PASO opositoras. Acredito que os novos emergentes vinculados a movimentos sociais, de mulheres, juventude, estudantil, que não se sentem parte orgânica do kirchnerismo e nem do peronismo mais tradicional podem construir um perfil próprio, mas com um espírito de unidade. Unidade com perfil próprio para derrotar o neoliberalismo na Argentina. Nesse marco de condições, eu irei contribuir com tudo o que puder.

Há alguns meses, vazou que você teve uma reunião com Cristina Kirchner...

Eu falo com muito dirigentes, com ela falei alguns vezes. Não tenho dúvidas de que tanto ela, como o que ela expressa, é parte do campo popular. E essa parte do campo popular não pode não estar em um processo de disputa com o neoliberalismo. Também acredito que é necessário construir um perfil próprio, com uma agenda clara, que priorize coisas que faltaram durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner. E que é necessário construir outros métodos e outra série de coisas que fazem com que eu não me sinta kirchnerista. Não me senti antes e não me sinto agora. Contudo, é necessário tentar construir um nível de unidade nacional que permita que a agenda dos setores populares possa se expressar. Estamos em um momento em que é necessário ser consciente de qual é a onda e a ofensiva do capital sobre os povos em todo o mundo. A agenda do império busca aguçar as contradições no interior dos países para fragilizá-los a tal ponto que sua penetração seja devastadora, como acontece no Oriente Médio. Nós não podemos permitir que isso aconteça.

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