“Precisamos mais de consenso do que de demarcação no campo popular”

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22 Mai 2018

“Hoje deveríamos trabalhar com a expectativa de formar uma nova frente política, de natureza programática, capaz de enfrentar a conjuntura de crise e o golpismo que se instalou na nossa jovem democracia e, a partir desta unidade, ir construindo formas políticas novas, que combinem, de uma parte, as relações horizontais de colaboração que já estão em vigor entre os movimentos sociais, nas grandes regiões metropolitanas e, de outra, a força intelectual dos grupos dirigentes que estão se construindo nos partidos de esquerda, na academia e nas instituições do Estado, estes ainda de forma embrionária, através das nossas experiências de governo”, afirma Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul – PT, em entrevista publicada na Revista Cidadanista e reproduzida por Sul21, 20-05-2018.

Eis a entrevista.

Você participou de articulações políticas do campo da esquerda no Brasil e no mundo. Qual é a foto mais precisa que vê hoje?

Penso que as mutações sociais e econômicas que o capitalismo sofreu, acompanhadas do desmantelamento da URSS e das vertentes socialdemocratas, que se transladaram para soluções liberais e neoliberais, não foram respondidas pela esquerda. Hoje há um debate mundial, que eu acompanho principalmente na Espanha e em Portugal, que busca revisitar a tradição da esquerda do século passado, a partir de dois valores que devem nortear a ação política para uma nova ideia de socialismo: a necessária independência entre fins e meios, para o desenho de uma nova sociedade, de uma parte, e o sentido democrático e libertário, não aceitando, portanto, nenhuma “ditadura” estatal para “encurtar” saídas, mesmo que ela seja feita em nome do proletariado ou dos excluídos em geral. Pelo simples motivo que ela, necessariamente, cria novos grupos de privilegiados, que, na verdade, abandonam os “fins” a que se propuseram como grupo dirigente.

Na sua opinião, qual a estratégia de renovação que os partidos de esquerda brasileiros deveriam adotar para lograrem força e representatividade política no futuro?

Os partidos de esquerda em nosso país estão envolvidos nesse turbilhão e em todos eles tem gente pensando em inovar, em recriar, em revisar o que foi feito, sem perder a ancoragem nas experiências “reais” que nos trouxeram até aqui, do socialismo e da socialdemocracia. Acho que essa estratégia ainda não construiu um fio comum, uma ideia matriz inovadora, que exige, aliás, muito intercâmbio internacional para que ela tenha força e capacidade de articulação interna. De outra parte, não se pode deixar de levar em conta as dificuldades que temos, em todo o mundo, para enfrentar o liberal-rentismo, que é propagado pelos oligopólios midiáticos e, em muitas circunstâncias, ganha o senso comum para os seus valores.

Guilherme Boulos será candidato pelo PSOL. Acredita que o perfil de Boulos poderia acompanhar a trajetória de Lula e ser eleito hoje ou no futuro como foi no PT?

Sim, Boulos é o líder político desta geração que demonstrou uma capacidade superior a todos os demais para compreender o que se passava no país e que o cerco a Lula era, na verdade, um cerco à democracia e às conquistas dos trabalhadores e de certos setores da classe média baixa, na última década. Soube se posicionar, na minha opinião, de forma correta, entendendo que a disputa pela hegemonia exige, no campo popular, mais “consenso” do que “demarcação” com outras forças democráticas de esquerda, que se esteriliza quando erigem formas de luta “puras” incapazes de enfrentar a força dos inimigos e adversários em momentos de crise.

Você apoiou novos movimentos políticos, como a Raiz. Qual seria a melhor estratégia para a construção de uma força política de esquerda?

Entendo que o futuro de todos os movimentos políticos de esquerda – sejam os mais tradicionais, sejam os mais heteredoxos – estão em aberto nos dias e, quem sabe, anos que correm. Não temos um paradigma confiável, para um largo período histórico, de uma forma de organização de esquerda capaz de enfrentar sozinha o terror e a violência semeados pelo projeto neoliberal. Penso que hoje deveríamos trabalhar com a expectativa de formar uma nova frente política, de natureza programática, capaz de enfrentar a conjuntura de crise e o golpismo que se instalou na nossa jovem democracia e, a partir desta unidade, ir construindo formas políticas novas, que combinem, de uma parte, as relações horizontais de colaboração que já estão em vigor entre os movimentos sociais, nas grandes regiões metropolitanas e, de outra, a força intelectual dos grupos dirigentes que estão se construindo nos partidos de esquerda, na academia e nas instituições do Estado, estes ainda de forma embrionária, através das nossas experiências de governo.

Na ausência atual de uma reforma política que traga mais participação do cidadão e eleja um Legislativo mais representativo, você vê alguma força ou mecanismo político capaz de transformar o sistema pelo voto dos eleitores?

O mecanismo de transformação pelo voto é a Constituinte originária, livre e soberana, que só poderá ocorrer depois de uma ruptura com o modelo de sociedade liberal rentista e com as suas formas de dominação política espúrias e ilegítimas.

Como os governos progressistas poderiam aliar políticas públicas de crescimento econômico com investimento social dentro de um modelo ambiental que não seja predatório?

O modelo principal de apropriação da naturalidade pelo sistema do capital e a devolução do equilíbrio “homem x natureza” só poderá ocorrer naquilo que Gramsci chamava de “sociedade regulada”, ou seja, numa “sociedade conscientemente orientada”. Penso que o que poderemos ter, nos tempos atuais – com um governo de esquerda apoiado massivamente pela ampla maioria da sociedade civil – é um modelo de melhor sustentabilidade, livre das amarras destrutivas e violentas do capitalismo.

Como imagina que deveria ser um eventual e hipotético terceiro mandato de Lula, caso ele concorresse e ganhasse?

Penso que Lula, se o deixarem concorrer – se ganhar – deveria espelhar seu governo na experiência portuguesa, adequando-a à realidade brasileira, que seria muito mais difícil de gerir, dada a mentalidade escravocrata das elites dirigentes da direita brasileira, que só gostam da democracia quando ela ajuda imediatamente os seus negócios, tanto os lícitos como os ilícitos. E quando não gostam, golpeiam.

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