Francisco não se intimida com as críticas. Entrevista com o cardeal Walter Kasper

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11 Abril 2018

"Certamente o Papa Francisco não se deixa intimidar pelas críticas que vêm de dentro e fora da Igreja. É sereno; fica até mesmo feliz quando o chamam de revolucionário, segue seu caminho nas pegadas de Cristo, defende os fracos, luta pela redenção dos necessitados, é contra qualquer forma de injustiça, quer cada vez mais uma Igreja em saída, pobre para os pobres, mas com respeito pela tradição, falando aos homens e às mulheres de hoje e sempre com o Evangelho na mão. E aqueles que tentam em vão colocá-lo contra o Papa emérito, e vice-versa, erram por má-fé, pois todos sabem que entre Jorge Mario Bergoglio e Joseph Ratzinger existe continuidade, sintonia, respeito, afeto recíproco e o mesmo amor pela Igreja de Jesus", diz o cardeal Walter Kasper, em entrevista concedida a Orazio La Rocca, publicada por Panorama, 09-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O cardeal alemão nativo de Heidenheim, eminente teólogo com a "paixão" pelo diálogo inter-religioso e o ecumenismo, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e da Comissão Para a Relação com os Judeus. Unanimemente reconhecido como o cardeal mais bergogliano de todo o Colégio Cardinalício, ao lado do Papa Francisco desde a eleição de cinco anos atrás, desempenha, entre outras funções, o delicado papel de relator no Sínodo Sobre a Família que abriu a Igreja aos divorciados recasados e se aproximou dos casais unidos civilmente e seus filhos, atraindo sobre si as críticas dos setores eclesiais mais conservadores e de alguns cardeais.

"É só conversa – resume Kasper - a verdade é que com o Sínodo Sobre a Família, a Igreja está mais perto daqueles que sofrem e das famílias feridas, como um hospital de campo depois de uma batalha, para trazer alívio e ajuda através da Misericórdia. Pena não ser entendida uma pastoral tão humana e próxima de todos os que pedem ajuda. Cristo veio para curar os doentes, não os sadios".

Eis a entrevista

Cardeal Walter Kasper, no entanto, as críticas ao Papa Francisco aumentam, vindas tanto da sociedade civil como de dentro da Igreja. Por quê?

Aumentam as críticas ao Santo Padre? Não tenho tanta certeza. Certamente aqueles que discordam levantam a voz, fazem barulho para serem ouvidos, mas não afetam a pastoral do Papa. A ação do Papa é profética, universal, e, como costuma sempre acontecer, os profetas se deparam com adversários em seu caminho. No fundo é um fato positivo, gerar reações é um sinal de atenção e credibilidade. Seria prejudicial despertar apenas indiferença. O Papa sabe disso e, como me disse justamente por ocasião dos recentes votos de Páscoa, está sereno, até mesmo feliz, as críticas não o impressionam e certamente não o fazem perder a paz. Ele me disse que vai seguir em frente, perto dos pobres, doentes, presos, perseguidos, com a misericórdia de Deus e com o Evangelho na mão.

Difícil imaginar que as críticas possam agradar. Giuliano Ferrara no Panorama o definiu um "Papa que procura agradar" e "político" porque busca o consenso e esquece a fé. É possível que Francisco não se preocupe com tais juízos?

Nenhuma preocupação e nenhum medo por parte do Papa, que sabe que ter adversários que pensam diferente dele é algo normal. Aqueles que o criticam, mesmo na Igreja são uma minoria que só levanta a voz para ser ouvida, mas poucos a ouvem. O Papa não se deixa intimidar, fala para o mundo, olha para o homem, os pobres, os excluídos, seguindo a Cristo. Não por acaso, é considerada como a mais alta autoridade moral. E a alguns isso pode resultar incômodo.

Há quem, no entanto, defina Bergoglio como o último verdadeiro "comunista" em circulação, um Papa que em vez de promover a fé cristã, pratica política.

É um falso juízo, distorcido e mesquinho. Respondo com o que eu escrevi no prefácio ao livro mais recente do padre Giulio Albanese, Poveri noi! (Pobres de nós!, Edizioni Messaggero Padova - nde), dedicado à obra de Francisco ao lado dos necessitados, onde eu mencionei que D. Helder Câmara, o saudoso arcebispo brasileiro que passou toda a sua vida dedicado à redenção dos pobres, costumava dizer: 'Quando eu dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que os pobres não têm comida, me chamam de comunista'. A mesma coisa acontece com o Papa Francisco quando defende os imigrantes, denuncia guerras, comércio de armas, máfias, as iniquidades dos sistemas capitalistas, a exploração dos pobres, a construção de muros, as expulsões de pessoas que fogem de conflitos, doenças e opressões. Esquecendo que é o Evangelho de Cristo, que nos impõe ajudar os pobres e oprimidos, e condenar as injustiças. O comunismo não tem nada a ver com isso.

Francisco também é acusado de pouca capacidade para governar porque as reformas não decolam, as nomeações geram discussões, os lobbies do Vaticano enlouquecem. Monsenhor Dario Viganò, um dos seus assessores mais próximos, renunciou ao cargo de Prefeito da comunicação. Como se explica?

Mais uma vez, essas são acusações infundadas e estúpidas. Qualquer reforma antes de trazer frutos precisa de tempo. Isso acontece inclusive nas instituições seculares, em que não faltam nomeações que geram discussão e há aqueles que defendem seus próprios interesses. É da natureza humana, e a Igreja, infelizmente, não está imune. Mas o Papa não está parado assistindo. No caso Viganò tudo foi esclarecido. O Prefeito deu um passo para trás para evitar envolver, através de sua pessoa, o papa em acusações tendenciosas por ter publicado um resumo de uma carta de Bento XVI. Ele fez isso com o intuito de não expor ainda mais o Papa emérito em uma polêmica entre os teólogos. Não é por acaso que Francisco o nomeou imediatamente assessor para concluir a reforma dos meios de comunicação do Vaticano.

E que responde àqueles que temem que Bergoglio esteja desestabilizando verdades evangélicas e dogmas de fé? A abertura aos divorciados novamente casados ainda causa discussão dois anos após o Sínodo sobre a família. Nem mesmo sobre o ecumenismo faltam críticas.

O Papa não está desestabilizando nada, porque, repito, aplica ao pé da letra o Evangelho. A novidade é que ele fala uma linguagem moderna, destinada ao povo e não aos teólogos ou aos círculos de intelectuais. O Evangelho é dinamismo, força que avança, que não fica parada. O Papa fala com o dinamismo e a força das palavras contemporâneas, mas sem desestabilizar verdades evangélicas e fé cristã. Equivoca-se, inclusive, aquele que tem dúvidas sobre seu compromisso com o ecumenismo. Mas como é possível não ver a beleza e utilidade do diálogo e da busca de unidade com os irmãos ortodoxos e as outras Igrejas reformadas? Como é possível não apreciar o encontro com as outras religiões, e os repetidos apelos contra as guerras e contra aqueles que matam em nome de Deus? O diálogo, o encontro, o acolhimento irão salvar o mundo. A partir das religiões. E o Papa sabe disso.

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