A singular renúncia do Mons. Viganò. E agora?

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22 Março 2018

O afastamento do Mons. Dario Viganò – até essa quarta-feira, 21, prefeito da Secretaria para a Comunicação –, após a gigantesca bagunça da manipulação da carta de Bento XVI, além da foto de tal documento – uma verdadeira obra-prima de insensatez – pode ser, para o pontificado de Francisco, um momento de grande importância para endireitar o leme de uma reforma, a das mídias vaticanas, que até hoje se assemelha mais a um fracasso do que a um sucesso.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada por Il Sismografo, 21-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa é a opinião mais generalizada nos ambientes vaticanos e jornalísticos que acompanham esse processo de reforma há tempos, com atenção e preocupação, um processo que o papa chamou de “revisão” no motu proprio de 27 de junho de 2015 (data da instituição do dicastério confiado ao Mons. Viganò).

Em sua carta ao papa, o Mons. Viganò nunca fala em renúncia. Usa a singular expressão “colocar-me à parte”, porque – escreve o ex-prefeito – “nos últimos dias levantaram-se muitas polêmicas sobre a minha atuação que, além das intenções, desestabiliza o complexo e grande trabalho de reforma que o senhor me confiou em junho de 2015 e que vê agora, graças à contribuição de muitíssimas pessoas, começando pelo pessoal, o cumprimento do trecho final”.

Portanto, o Mons. Viganò não fala do caso da carta manipulada nem da cadeia dos erros sucessivos. Nenhuma menção autocrítica. Nenhuma análise do que aconteceu. Tudo se resolve no genérico “a minha atuação”.

Depois, o ex-prefeito vai ao ponto: “... para evitar que a minha pessoa possa, de algum modo, retardar, prejudicar ou até bloquear o que já foi estabelecido pelo motu proprioO atual contexto comunicativo’, de 27 junho de 2015, e, sobretudo, pelo amor à Igreja e ao senhor, Santo Padre, peço-lhe que acolha o meu desejo de me colocar à parte, ficando à disposição, se o senhor desejar, para colaborar em outras modalidades”.

De sua parte, o Santo Padre, que admite ter tido algumas conversas com o Mons. Viganò nesses dias, fala em “passo atrás” e acrescenta: “Respeito a sua decisão e acolho, não sem alguma fadiga, a demissão como prefeito”.

Somente nessa passagem o “colocar-me à parte” e o “passo atrás” recebem seu verdadeiro nome: “renúncia como prefeito”, mas é o papa quem escreve isso.

Segue outra passagem importante. O Papa Francisco escreve: “Peço-lhe que continue junto do dicastério, nomeando-o como assessor para o dicastério da comunicação, para poder dar sua contribuição humano e profissional ao novo prefeito, ao projeto de reforma desejado pelo Conselho dos Cardeais, por mim aprovado e regularmente compartilhado. Reforma que já chegou ao trecho conclusivo com a iminente fusão do L’Osservatore Romano dentro do único sistema comunicativo da Santa Sé e a incorporação da Tipografia Vaticana”.

Nas palavras do papa, não há nenhum julgamento sobre esses quase três anos de reforma ou de revisão das mídias da Santa Sé.

O papa, mais uma vez, se limita a falar do “projeto de reforma desejado pelo Conselho dos Cardeais, por mim aprovado e regularmente compartilhado”.

Talvez, e a partir de agora até setembro de 2019, quando terminar o período “ad experimentum”, o Papa Francisco poderá avaliar com calma os frutos dessa reforma que, em geral, parece ser um conjunto de muitíssimas, até demais, proclamações, discursos, lectio magistralis, organogramas e declarações, e, acima de tudo, uma fúria iconoclasta contra a Rádio Vaticano, destruída e aniquilada para sempre.

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