Jovens e a religião: possibilidades e limites das mídias digitais. Entrevista com Patrícia Vieira

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 11 Abril 2018

O Sínodo dos Bispos em outubro de 2018 terá como ponto de partida da discussão a opinião de milhares de jovens de todo o mundo. A divulgação dos materiais preparatórios e a sua distribuição entre as dioceses e paróquias buscou ampliar o debate e dar voz aos próprios sujeitos da temática. Para além, a sinodalidade que provoca o papa Francisco alcançou as dinâmicas comunicacionais do século XXI com a possibilidade de participação pelas redes sociais. Ao todo foram mais de 15 mil usuários interagindo, junto aos 300 jovens delegados da Reunião pré-Sinodal em Roma, pelos fóruns digitais e opinando sobre o “jovem, a fé e o discernimento vocacional”. Apesar da participação juvenil no processo preparatório, a pedagoga Patrícia Machado Vieira questiona: “Por que não fazer o sínodo com as juventudes?”

As dinâmicas desse mundo conectado devem compor uma linha base nas diretrizes do documento final produzido pelo Sínodo. A juventude atual, nascida junto ao processo de expansão da amplitude da Internet e à popularização das redes sociais, vive experiências de relações ainda não compreendidas pela Igreja. A professora Patrícia Machado Vieira, em entrevista por e-mail para IHU On-line, afirma que “esses sujeitos são nativos digitais, já nasceram em um mundo conectado, onde a divisão entre real e virtual não é tão marcadamente clara. As experiências sociais, portanto, se dão tanto nos espaços físicos como escola, casa, igreja e rua, como nos espaços digitais, especialmente nas redes sociais".

Já se constata na sociedade como um todo, incluindo as redes sociais, o avanço de discursos conservadores pelos perfis juvenis, incluindo perspectivas de uma Igreja pré-conciliar, temporalmente distantes dessa geração. Patrícia destaca o desafio que é para a Igreja entrar nessa disputa em meio ao recrudescimento da discursividade violenta. Necessita-se compreender o processo e, sobretudo, a prática educacional. “Esse crescimento me parece um desafio para as formas de educar na nossa sociedade, faz pensar na necessidade de ensinar a pensar de forma mais comunitária e coletiva, respeitar ideias diferentes, educar para a paz e para cooperação”, argumenta.

Patrícia, que esteve no Congresso Internacional de Pesquisadores sobre Juventude, ocorrido em Havana, Cuba, nos dias 26 a 30 de março de 2018, aponta como essa categoria social não é naturalizada, mas composta por sujeitos plurais. Precisa-se “[...] desconstruir a imagem da juventude somente como um modelo de beleza ou um problema social, é emergente enxergar as juventudes como parte importante e ativa na sociedade hoje. Há que se pensar no futuro dessas juventudes, mas também vê-las como protagonistas da sociedade contemporânea”, conclui.

Patrícia Machado Vieira | Arquivo Pessoal

Patrícia Machado Vieira é professora dos anos iniciais no Colégio Marista Rosário e pesquisadora no Observatório Juventudes PUCRS/Rede Marista. Pedagoga graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS, na linha de História, Memória e Educação; atua na temática relacionada a Práticas de Leitura e Escrita, Impressos de Juventude, Juventude e Participação Social.

No XVIII Simpósio Internacional IHU – A virada profética de Francisco: possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, Patrícia estará com Moisés Sbardelotto e Maurício Perondi compondo a mesa-redonda Juventude, experiência de fé e tecnologias, no dia 23 de maio, às 16h, na Unisinos Porto Alegre.

Confira a entrevista.

IHU On-line — Como a relação da juventude com a fé expressa-se pelas mídias digitais?

Patrícia Machado Vieira — As mídias digitais para as novas gerações estão constituídas de sentidos diferentes do que para as gerações anteriores. Esses sujeitos são nativos digitais, já nasceram em um mundo conectado, onde a divisão entre real e virtual não é tão marcadamente clara. As experiências sociais, portanto, se dão tanto nos espaços físicos como escola, casa, igreja e rua, como nos espaços digitais, especialmente nas redes sociais. Na sociedade contemporânea, o espaço público é um “espaço híbrido entre as redes sociais e o espaço urbano ocupado” (CASTELLS, 2013, p. 20) [1]. Com as expressões de fé, não é diferente. Assim como as redes sociais se configuram como novos espaços e caracterizam novas formas de sociabilidade, de militância e de participação, são também espaços de compartilhar informações e significados relacionados a vivência da fé dos/as jovens, de maneira especial.

IHU On-line — Quais possibilidades e limites as tecnologias colocam na relação da juventude com a fé?

Patrícia Machado Vieira — Para Manuel Castells, o crescimento da sociedade em rede, da conexão e das mídias sociais, traz um aumento da autonomia do ator social (CASTELLS, 2013), possibilitando maior expressão e compartilhamento de ideias, em um espaço onde os sujeitos superam o medo e encontram outros que compartilham dos mesmos significados, seja local ou globalmente. Esse novo cenário social nos apresenta diversas potencialidades e limitações, em minha opinião, principalmente por não termos clareza de como trabalhar e nos posicionarmos nesse contexto.

Na relação entre a juventude e a fé, acredito que as principais potencialidades dizem respeito ao acesso à informação e à possibilidade de troca com outros jovens sobre suas experiências de fé. Caem por terra mitos e velhos paradigmas, criando para esses/as jovens um contexto que favorece o amadurecimento da fé por meio da informação. Outra potencialidade é a visualização de uma comunidade, grupo que é global, inserindo o/a jovem em uma Igreja além-fronteiras, que se expressa de inúmeras formas nas mais diversas realidades sociais.

Porém, existem também algumas limitações, que prefiro referir como desafios a serem pensados e superados. A vivência da fé cristã e católica pressupõe uma vivência comunitária, que é experimentada nas celebrações, na ritualística, no encontro com o outro, com a outra. Corre-se o risco de criar um distanciamento dos espaços de vivência da fé na comunidade, nas igrejas, no coletivo presencial. É fundamental repensar a comunidade e de que formas é possível criar o espaço híbrido, que valoriza a vivência por meio das tecnologias, mas garante a participação no espaço comunitário.

IHU On-line — Quais as principais causas do crescimento dos discursos de ódio entre jovens nas redes sociais?

Patrícia Machado Vieira — Parece relevante, para pensar essa questão, destacar o que diz a pesquisadora Regina Novaes, comparando a juventude com um espelho retrovisor, “que reflete e revela a sociedade de desigualdades e diferenças sociais” (NOVAES, 2006, p. 119) [2]. Ou seja, esse crescimento dos discursos de ódio nas redes sociais, mas não só nas redes sociais, é um processo que se dá em todas as esferas da sociedade. Ficando, no entanto, mais explícita e visível entre os/as jovens.

Esse crescimento me parece um desafio para as formas de educar na nossa sociedade, faz pensar na necessidade de ensinar a pensar de forma mais comunitária e coletiva, respeitar ideias diferentes, educar para a paz e para cooperação. Ao contrário disso, grande parte da nossa sociedade educa para a competição, de forma que os/as outro/as tornam-se adversários.

A Igreja tem, nesse contexto, um papel fundamental de contribuir na educação das crianças e jovens de maneira mais comunitária, compreendendo o valor de cada sujeito, como irmãos e partícipes de um mesmo projeto de Civilização do Amor, que só é possível se vivido em grupo e pensado para todos/as.

Quando a competição pauta as relações, o diferente se torna ameaça e surgem os discursos de ódio, que visam menosprezar a ideia do outro. Quando somos educados para a vivência coletiva e o respeito, não precisamos menosprezar ninguém, pois entendemos o valor de cada um/uma e o diálogo leva a um consenso, ao crescimento e avanço para todos/as.

IHU On-line — O despertar de “jovens conservadores” nas redes sociais pode gerar que consequências no trabalho eclesial?

Patrícia Machado Vieira — Acredito que esses processos de conservadorismo estão sendo experimentados por toda sociedade, mas explicitados e visibilizados de maneira mais contundente pelas juventudes. Vejo nos “jovens conservadores” um reflexo da incapacidade social de buscar alternativas criativas, de abrir-se para a novidade, quase como um medo de sair do seu lugar “de comodidade” para encarar o novo.

Há um grande risco de essa onda conservadora gerar ainda mais discursos de ódio, o que em certa medida já vem acontecendo. Esse é um significativo retrocesso na realidade eclesial brasileira e latino-americana. Para romper com esse processo, é preciso educar para o respeito e a valorização da diversidade das expressões religiosas; estimular a esperança e a utopia como forma de resistência; e atuar desde as comunidades, as paróquias, as dioceses, na conscientização de que é preciso haver unidade na diversidade de expressões da nossa fé.

IHU On-line — Qual o papel que a Igreja pode desempenhar no acompanhamento da juventude pelas mídias digitais?

Patrícia Machado Vieira — Acompanhar as juventudes nesse contexto emergente das mídias digitais é um grande desafio para a Igreja, assim como para outras instituições sociais, como família e escola. Em primeiro lugar, porque grande parte dos sujeitos que compõem e pensam essas instituições não são nativos digitais e estabelecem formas diferentes de relacionar-se com essa realidade.

A Igreja pode e acredito que deve passar por um processo de autorreflexão em relação a suas práticas e maneiras de se organizar frente ao mundo conectado, global e em constante transformação que vivemos. Além disso, o papel que a Igreja pode desempenhar, em relação à juventude e às mídias digitais, é de acompanhamento e mediação. É preciso ensinar e educar para a autonomia que elas proporcionam, além de ajudar na seleção das informações, na compreensão dos contextos sociais envolvidos e na reflexão crítica sobre os mesmos. Acredito que a Igreja tem um grande potencial como mediadora das práticas sociais juvenis também nas redes sociais, não pelo cerceamento dessas práticas, mas pelo acompanhamento e educação para as mesmas.

IHU On-line — Qual a sua avaliação da Reunião Pré-Sinodal da Juventude? Destaque três pontos positivos e três negativos.

Patrícia Machado Vieira — A reunião Pré-Sinodal da Juventude e uma convocação tão grande à escuta dos/as jovens é um movimento muito importante e sem precedentes na Igreja. A presença significativa do papa Francisco, com falas de incentivo aos jovens presentes, é outro destaque e sinal de abertura e reconhecimento por parte da Igreja, em relação à importância que as juventudes têm socialmente.

Destaco como pontos positivos, primeiramente, a escuta e o fazer ouvir a voz das juventudes, buscando compreender a realidade juvenil com e a partir dos próprios jovens. Outro ponto muito significativo foi a diversidade de expressões religiosas representadas, buscando um retrato mais fiel das juventudes no mundo. E, também, a produção de um documento com os/as jovens, num sentido de trabalho que se dá por meio do acompanhamento, onde se incentiva e valoriza o protagonismo.

Em relação aos pontos negativos, não gostaria de me referir a eles de forma pejorativa, mas propositiva, como pontos que poderiam ser pensados de maneira mais efetiva. O primeiro diz respeito à participação dos/as jovens representativos de diversas religiões, ateus e agnósticos, que poderia ter sido mais marcada na trajetória do encontro e no documento final, que apesar de grandes avanços no sentido da abertura, ainda tem muito forte a marca institucionalizada da Igreja. Outra questão é a valorização desse movimento por toda a Igreja, comunidades e dioceses, que ainda parecem resistentes ao fato de colocar os/as jovens no centro de um processo tão importante para a Igreja, repercutindo pouco a riqueza em que se constituiu esse momento. E, por fim, deixo uma questão que acredito estar alguns passos mais distante da nossa realidade, mas com a qual não podemos deixar de sonhar: por que não um Sínodo COM as juventudes?

IHU On-line — Quais são as prioridades no trabalho de evangelização da juventude na atual conjuntura? Qual o horizonte que a Igreja deve seguir?

Patrícia Machado Vieira — A conjuntura social e política brasileira é bastante complicada, como já falamos, há um crescente discurso de ódio se propagando e um enfraquecimento significativo da nossa, já frágil, democracia. Vivemos tempos de desesperança e incerteza para as juventudes, onde muitas são as ameaças de morte física e simbólica. Acredito na necessidade de criarmos espaços onde os/as jovens sintam-se ouvidos/as, valorizados/as e repeitados/as.

Destaco três pontos que acredito serem prioritários na evangelização frente a essa conjuntura:
a) Dialogar com as realidades juvenis, respeitando e valorizando suas diversidades e suas expressões socioculturais.
b) Perceber o jovem como coração pulsante de uma Igreja que deseja ser profética. É preciso sonhar, anunciar que é possível uma outra realidade, denunciando os sinais de morte.
c) Incentivar ao protagonismo e ao engajamento sociopolítico como compromisso de construção dessa outra realidade, de justiça social, do Reino de Deus.

IHU On-line — Quais experiências você destaca do Congresso Internacional de Pesquisadores de Juventude tendo em vista o atual momento político brasileiro?

Patrícia Machado Vieira — Em março, tive a oportunidade de participar da terceira edição do Congresso Internacional de Investigadores de Juventude, em Havana, Cuba. É um evento organizado pelo Centro de Estudos sobre Juventude, local que também tive a alegria de conhecer. Com uma identidade marcadamente latino-americana, o Congresso reuniu cerca de 700 pesquisadores que expuseram suas pesquisas, participaram de mesas e conferências, além de conhecer experiências de boas práticas de trabalho desenvolvidas com adolescentes e jovens cubanos.

Alguns elementos me inquietaram e vêm me fazendo pensar sobre a dinâmica social brasileira e a forma como olhamos, pensamos e trabalhamos com as juventudes em nosso país. Antes de tudo, é preciso ter um projeto claro de sociedade, que se constrói por meio da educação e de um compromisso de todos e todas. É fundamental sabermos onde queremos chegar como nação, só então será possível desenvolver um trabalho consistente e efetivo para a formação das crianças, adolescentes e jovens.

Outro ponto é desconstruir a imagem da juventude somente como um modelo de beleza ou um problema social, é emergente enxergar as juventudes como parte importante e ativa na sociedade hoje. Há que se pensar no futuro dessas juventudes, mas também vê-las como protagonistas da sociedade contemporânea. Em contraposição, não se pode esperar das juventudes que “salvem” a sociedade dos problemas que preexistem a elas.  Espera-se, sim, dos/as jovens que pensem em alternativas e soluções criativas para os problemas sociais, mas isso só é possível com incentivo ao protagonismo e respeito às diversidades. É preciso políticas públicas que garantam condições de possibilidade para que os/as jovens sejam jovens e vivam verdadeiramente esse período de suas vidas.

Notas

[1] CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e Esperança: Movimentos sociais na era da Internet. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 271 páginas, 2013.

[2] NOVAES, Regina. Os jovens de hoje: contextos, diferenças e trajetórias. In: ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de, EUGENIO, Fernanda (orgs.). Culturas Juvenis: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Zahar, 2006a, p.105-120.

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