Em artigo da revista Études, futuro da Igreja é visto a partir da relação entre mulheres e homens

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02 Março 2018

Anne-Marie Pelletier, professora universitária, biblista, autora de vários livros, foi a vencedora do Prêmio Joseph Ratzinger em 2014, primeira mulher a receber esse prêmio. Ela também escreveu o texto das Meditações para a Via Sacra no Coliseu em Roma de abril de 2017. Em janeiro do mesmo ano, produziu um artigo para a revista Études – depois retomado na edição especial “Quelle place pour les femmes”, publicado em outubro de 2017. O artigo intitula-se “Des femmes avec des hommes, avenir de l’Église” [Mulheres com homens, o futuro da Igreja], que se refere, sem dúvida, à última frase do artigo Joseph Moingt, de janeiro de 2011, retomado na mesma edição: “A mulher é e será o futuro da Igreja”. O plural substituiu o singular, e o artigo pede que a Igreja respire com seus dois pulmões, o masculino, mas também o feminino, estranhamente atrofiado.

A reportagem é de Sylvie de Chalus, publicada por Le Comité de la Jupe, 05-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O artigo começa, paradoxalmente, lembrando aquilo que os últimos papas fizeram em favor das mulheres. O lugar das mulheres no lava-pés, gesto feito pelo Papa Francisco na Quinta-Feira Santa desde o início de seu pontificado, mas também aquilo que seus antecessores fizeram antes: a “mensagem às mulheres” de Paulo VI, no fim do Concílio, a promoção de várias mulheres ao posto de Doutoras da Igreja, os textos que lhes foram dedicados.

O fato é que, para os sociólogos, esses anos foram também os da deserção em massa das mulheres do corpo eclesial. Cita-se normalmente a encíclica Humanae vitae, por ser percebida pelas mulheres como uma intrusão no âmbito íntimo. A autora acrescenta os discursos estereotipados sobre a feminilidade, que valorizam a maternidade ou seu contraponto, a virgindade consagrada, tudo sobre um pano de fundo de mariologia às vezes exagerado, o recurso ao registo do sublime da condição feminina, discurso que deixa transparecer uma hierarquia entre os sexos.

Dentro da instituição, as decisões nas mãos de um poder eclesial masculino, que, aliás, vive mal as mudanças da sociedade e a crise da identidade masculina.

Este último ponto é desenvolvido por Anne-Marie Pelletier no parágrafo intitulado “A emancipação das mulheres, uma ameaça?”. Nele, a autora mostra que é preciso levar a sério a relação, que J. Moingt já estabelecia, entre a emancipação das mulheres e o declínio da Igreja Católica, como se o modelo da Igreja, estruturalmente, fosse uma ordem social em que as mulheres são sempre menores de idade.

Se houvesse realmente colusão entre o teológico e tal antropologia, então se poderia considerar a Igreja como uma construção ideológica “baseada em representações e interesses simplesmente humanos”. É uma possibilidade pouco desejável.

Anne-Marie Pelletier mostra, no próximo parágrafo, que a Igreja tem os recursos que permitem responder a esse novo fato. Ela presta homenagem à historiadora Lucetta Scaraffia, responsável pelo caderno do L’Osservatore Romano dedicado à vida das mulheres, que mostrou que a Igreja, desde as origens e ao longo de sua história, se preocupou com a dignidade da mulher, tornando o matrimônio indissolúvel, por exemplo, protegendo-as dos caprichos masculinos do repúdio, favorecendo a vida religiosa feminina, que lhes permitia serem mulheres fora do matrimônio e da maternidade.

Isso já significava adquirir uma certa autonomia. Portanto, pode-se considerar que o cristianismo, por si só, tem recursos para responder às questões levantadas pelas novas configurações de que somos testemunhas, com a condição de que não se essencialize uma certa antropologia.

São expressadas algumas pistas no funcionamento interno da Igreja: acima de tudo, ver as mulheres, vê-las realmente, ativas a serviço do Evangelho, escutá-las também, enquanto, na Igreja, são os homens que falam sobre elas, sem lhes deixar expressar nem o que pensam nem o que vivem.

Deixar-lhes espaço nos lugares de poder, hoje exclusivamente masculinos. As nomeações de algumas mulheres para a Comissão Teológica Internacional ou à frente de uma universidade pontifícia vão nessa direção, apesar das fortes resistências que essas nomeações envolvem. Além disso, uma eclesiologia renovada, que fuja da obsessiva preocupação com as vocações presbiterais, em favor de uma teologia dos leigos, de sua vocação batismal. Então, será preciso retomar a constituição Lumen gentium.

Pode-se também pensar em uma missão, obra associada entre mulheres e homens, lembrando que existe um único batismo e uma vocação final comum.

Anne-Marie Pelletier, por fim, termina seu artigo sobre a questão dos ministérios, considerando que a demanda feminina ao presbiterado revela uma espécie de clericalismo do qual ela se distancia. Ela menciona discretamente aquela que poderia ser uma “diaconia da Palavra”, que não se reduziria à questão do diaconato para as mulheres. Devemos, então, pensar no ministério instituído de leitor? As palavras não são suficientemente explícitas, mas podemos pensar nisso.

Esse artigo, com muitas nuances, evidencia bem a situação das mulheres na Igreja, mostrando os desvios clericais, sem polêmica, mas com firme clareza, propondo também uma teologia renovada do laicato, na linha da Lumen gentium, com uma pista interessante quanto à diaconia da Palavra.

Dois pontos são particularmente importantes: o risco de que uma teologia se torne ideologia – algo de que somos testemunhas na Igreja francesa há duas décadas, com a imagem do Cristo-esposo e da Igreja-esposa, continuamente lembrada às custas de outras imagens bíblicas que a temperam e que fundamentou teologicamente uma hierarquia entre os sexos.

E a proposta de uma diaconia da Palavra, que permitiria que as mulheres se expressassem na Igreja, enquanto são publicamente reduzidas ao silêncio e à invisibilidade, ainda mais hoje do que há duas décadas, e isso em contradição com os valores da democracia, isto é, da liberdade de expressão dos cidadãos no espaço público, independentemente da pertença um gênero.

De fato, é difícil continuar pensando que a Igreja pode “irrigar” profundamente a Europa mantendo uma estrutura tão patriarcal. Ao mesmo tempo, não há muito espaço para o otimismo.

Na França, o catolicismo mais visível é um catolicismo identitário, que se satisfaz fortemente com uma estrutura patriarcal que ele mesmo contribuiu para fortalecer. Os bispos, dentro da Conferência Episcopal, estão divididos, ainda mais sobre um tema tão candente. Para se ter uma melhoria e uma certa homogeneidade em todo o território nacional [1], seriam necessárias, sobre temas que sejam de sua competência, como a visibilidade das mulheres na vida litúrgica, uma análise da situação, cujas conclusões sejam compartilhadas por todos, e uma vontade comum, o que está bem longe da realidade.

Os bispos também devem levar em conta a sensibilidade dos jovens padres, uma grande parte dos quais são provenientes de ambientes sociais conservadores, e sua tarefa hoje é tão pesada que esse problema é percebido como “um problema das mulheres”, ou seja, um problema secundário.

Ao mesmo tempo, a emancipação das mulheres é um movimento histórico cujo dinamismo está lançado; ela continuará se realizando, especialmente fora da Igreja e muitas vezes contra a Igreja. A Igreja Católica não abandona uma representação da “mulher” muito datada, cuja antropologia remonta aos tempos bíblicos, em um contexto patriarcal, que não corresponde nem às aspirações das mulheres da modernidade, nem àquilo que elas vivem na sociedade civil, em termos de funções e de responsabilidades.

Elas não se reconhecem nessa imagem refletida de si mesmas que lhes é mostrada e não suportam a hierarquia dos sexos, tal como ela aparece, cada vez mais pronunciada, em lugares cada vez mais numerosos. São muitas aquelas que, talvez, não abandonem a Igreja, mas se distanciam, como lembra Anne-Marie Pelletier, com tudo o que isso envolve em termos de ruptura na transmissão da fé às gerações sucessivas.

Na realidade, somente os ambientes universitários e, certamente, certas ordens religiosas, como os jesuítas e os dominicanos, abertos às Ciências Humanas, têm consciência da importância do problema e da urgência de uma resposta.

Espera-se que esse artigo da Études – assim como a edição especial dedicada às mulheres, em 2017 – permita uma conscientização indispensável e, sem dúvida, já muito tardia!

Notas:

1. Homogeneidade exigida pela Association Catholique des Femmes em seu Plaidoyer dirigido aos bispos em setembro de 2015, disponível aqui, em francês.

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