Nenhuma mudança de paradigma, diz Weigel – mas a história da Igreja está cheia delas

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16 Fevereiro 2018

"Qualquer coisa que Amoris Laetitia venha a realizar ou não – e nenhum de nós é dono do futuro – é um passo, um grande passo, em direção à honestidade e integridade na vida da Igreja quando se trata dos nossos ensinamentos e das nossas práticas concernentes ao matrimônio e à vida em família."

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 09-02-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

O mais recente artigo de George Weigel publicado na revista First Things sob o título “The Catholic Church doesn’t do ‘paradigm shifts’”, pode não ser tão moralmente ofensivo quanto a defesa feita pelo Pe. Romanus Cessario do sequestro de Edgardo Mortara a mando do Papa Pio IX, porém, a seu modo, é uma reflexão ridícula enquanto proposição intelectual, talvez até mais que isso.

Weigel discorda da observação do cardeal secretário de Estado Pietro Parolin segundo a qual Amoris Laetitia representa uma mudança de paradigma na forma como a Igreja aborda a questão da família e do matrimônio. Weigel nota que as Escrituras fornecem evidências de tais mudanças, como quando São Paulo percebeu que a salvação estava, através de Jesus Cristo, disponível aos gentios, ou na introdução de referentes filosóficos gregos no primeiro capítulo do Evangelho de João.
“Estas são questões de revelação divina, no entanto”, escreve Weigel, “e, como a Igreja há tempos acreditou e ensinou, a revelação acabou com a morte do último apóstolo”.

Desde esta época, segundo Weigel, há o desenvolvimento da doutrina, mas nada que possa ser chamado de uma mudança paradigmática.

No caso, Weigel não é Noah Webster [dicionarista americano] e não é ele quem decide qual é – ou não – a definição apropriada de determinada frase. Com razão, Weigel observa que foi Thomas Kuhn quem popularizou a expressão “mudança de paradigma” e assim o fez no contexto das revoluções científicas, mas a definição do [dicionário] Merriam-Webster não é tão restritiva: “uma mudança importante que acontece quando o modo usual de pensar sobre ou fazer algo é substituído por um modo novo e diferente”.

Todavia, há um propósito para que Weigel enquadre de maneira tão estreita o sentido da expressão. Ele escreve sobre a escolha da metáfora feita por Parolin:

“Independentemente da sua intenção, o cardeal não pode desejado dizer que Amoris Laetitia é uma ‘mudança de paradigma’ no sentido de uma ruptura radical com as compreensões católicas anteriores. Pois a Igreja Católica não faz ‘mudanças de paradigma’ nesse sentido do termo”.

Isso é absolutamente ridículo, sem sentido. Se lermos a biografia de São João Paulo II, “Witness to Hope”, de Weigel, o que ele descreve na transição do Papa Paulo VI para este herói se não uma mudança paradigmática? O autor descreve Paulo como indeciso, irregular na função, mas então vem o Papa Wojtyla e mostra o que significa ser papa. Descreveu a decisão de ir além da tradição de eleger somente italianos como um “avanço”, que é uma espécie de mudança de paradigma, suponho eu.

E o objetivo do livro “Evangelical Catholicism”, de Weigel, foi o de argumentar a favor de uma mudança paradigmática na compreensão da missão da Igreja: mesmo se algumas das reformas propostas de Weigel sejam bobas, como fazer do inglês a língua de trabalho do Vaticano, ele certamente não tentou minimizar a mudança na perspectiva em que advoga.

Há também a questão do Concílio Vaticano II. De que outra forma descrever os ensinamentos deste concílio se não como uma mudança de vários paradigmas? Foi-se a ideia de Igreja como uma “sociedade perfeita” e em seu lugar temos o “povo de Deus”.

Foi-se a ideia de que o erro não tem direitos, noção que silenciava o maior teólogo que os EUA já produziram, John Courtney Murray, e em seu lugar ficou o compromisso de Murray com a liberdade religiosa, conquanto imbuído da antropologia teológica de Yves Congar. Foram-se as restrições de Humani Generis, encíclica do Papa Pio XII que levou ao silenciamento de Henri de Lubac, e em seu lugar temos Gaudium et Spes, documento carregado da teologia de de Lubac. Foi-se o neoescolasticismo empolado que precedeu o concílio e em seu lugar ficou a rica e complexa teologia do ressourcement e seus florescimentos teológicos multifacetados.

Ou por que não considerar o Concílio de Trento? Este não significou uma mudança de paradigma, digamos, na formação clerical? Nas responsabilidades dos bispos? Nos direitos e deveres dos pastores?

O que dizer da ascensão das ordens mendicantes? Pode-se argumentar que as mudanças mais importantes nos 2.000 anos de história da Igreja foram o resultado direto do beijo de São Francisco em um leproso. Há as reformas gregorianas do século XI. Também as realizações teológicas dos primeiros concílios. Todas estas mudanças fazem Amoris Laetitia parecer quase nada.

Weigel discerne uma mudança de paradigma na aplicação de Amoris Laetitia e se escandaliza com ela. “A implementação pastoral de Amoris Laetitia em Malta, na Alemanha e em San Diego é bem diferente da que se estabeleceu na Polônia, em Phoenix, na Filadélfia, em Portsmouth, na Inglaterra, em Edmonton e em Alberta”, escreve ele, rotulando esta diferença de “ominosa”.

Aqui, concordo com Weigel. É ominoso que os bispos da Polônia, de Phoenix, da Filadélfia, de Portsmouth e Edmonton pensem que podem ignorar o fato de que o Papa Francisco pôs a interpretação do documento pretendida por ele na Acta Apostolicae Sedis. É ominoso que estes bispos, ao alegar que ficaram confusos com Amoris Laetitia, agora recebam uma interpretação inconfundível e oficial, e mesmo assim divergem. E sejamos honestos: trata-se de uma dissidência do magistério papal, pura e simples, nada diferente em espécie daquela feita a Humanae Vitae.

Essa comparação com Humanae Vitae, certo estou, deixa todo mundo nervoso. Os conservadores não apreciam ser comparados àqueles, como o Pe. Charles Curran, que tanto desejaram ver mandados embora dos seminários e faculdades. Os progressistas que amam Amoris Laetitia porém detestam Humanae Vitae podem apoiar a exortação e não a encíclica, mas na questão de divergir para com o magistério papal, eles estão no mesmo barco que aqueles que resistem a Francisco. Nos dois casos, o papa desenvolveu a doutrina de um jeito que deixou metade da Igreja indignada. Com esta diferença: o segundo grupo, em geral, não consiste de bispos que fizeram um voto formal e público de obediência a Pedro e seus sucessores!

Esta daí é uma diferença adicional e de fazer história. Este ano, marcaremos o 50º aniversário de Humanae Vitae. De certo modo, este documento fica melhor a cada ano. Quem pode duvidar que Paulo VI estava ciente ao advertir sobre os perigos morais da ética neomalthusiana? Lembram deste artigo [4] da grande Melinda Henneberger sobre as práticas eugênicas de certos casais poderosos da Ivy League?

Entretanto, não há dúvida de que Humanae Vitae aprofundou uma crise pastoral que provavelmente aconteceria de uma forma ou de outra, mas que foi trazida para a percepção de todos pela recepção difícil ocorrida: o magistério da Igreja se tornou, cada vez mais, ausente da experiência vivida dos fiéis. Com efeito, a minha é a primeira geração cuja maioria sequer pensa consultar o magistério da Igreja sobre um aspecto central da vida e da individualidade humana.

De certa forma, Amoris Laetitia é uma resposta a esta crise pastoral, um esforço no sentido de abordar estes temas sem espancar as pessoas com a doutrina ignorada por elas com alegria; é uma resposta a esta crise sem idealizar uma igreja menor, mais pura, formada pelos que seguem o planejamento familiar natural. Amoris Laetitia é um conectar-se com a experiência vivida dos fiéis.

Para aqueles que, como Weigel, viram em São João Paulo II o remédio a todos os males da modernidade, o fato de que os bancos das igrejas estiveram se esvaziando não os perturba; eles ignoram o fato de que estes bancos, mesmo quando cheios, não estavam preenchidos com famílias com seis ou mais crianças. A desconexão entre o magistério e a prática que Weigel denuncia, hoje, não só estava claramente evidente antes; a desconexão era também moralmente corrosiva. É impossível entender o acobertamento da crise de abusos sexuais à parte do fato de que os bispos se acostumaram a falar sobre a sexualidade humana de uma maneira que, sabiam, era irreal. Passaram-se dezesseis anos, no contexto dessa crise, desde que escrevi estas palavras:

“Existe um motivo por que a hierarquia católica teme o debate honesto: ela receia que o debate irá expor uma crise de crença.

Existe um senso pervasivo dentro da Igreja de que ninguém mais realmente crê em seus ensinamentos sobre a sexualidade: nem os leigos, nem o clero. Numa hierarquia estrita, ninguém quer dizer que o imperador está sem roupas. Quando não se permite a discussão, e quando se evitam as perguntas honestas, a Igreja deve afirmar os seus ensinamentos com base na ‘autoridade’ somente; e se estes ensinamentos não estiverem de acordo com a experiência vivida das pessoas, surge um regime de hipocrisia e indiferença que contribui para o enfraquecimento da ‘autoridade’, mais do que qualquer discussão honesta poderia fazer.”

Weigel achava que a compreensão da ambivalência humana de Paulo VI era problemática e prejudicial à autoridade da Igreja, mas, na verdade, era a atitude do “como se atreve a questionar?” de seu herói João Paulo II – e dos acólitos deste – o que enfraqueceu verdadeiramente a autoridade da Igreja. A idealização da sexualidade humana de João Paulo II – e sua idealização da vida sacerdotal – contribuiu para o seu maior fracasso, a indisposição a enfrentar a crise de abusos sexuais, e é esta crise, não os desdobramentos de Humanae Vitae, que realmente mutilou a Igreja nos EUA.

Qualquer coisa que Amoris Laetitia venha a realizar ou não – e nenhum de nós é dono do futuro – é um passo, um grande passo, em direção à honestidade e integridade na vida da Igreja quando se trata dos nossos ensinamentos e das nossas práticas concernentes ao matrimônio e à vida em família.

O novo artigo de Weigel busca minar esta realização porque exige uma avaliação honesta das deficiências do pontificado de João Paulo II, e essa é uma ponte demasiada longa para ele. O restante de nós não consegue esperar para cruzá-la.

Notas:

[1] Texto disponível aqui em inglês.

[2] Texto disponível aqui em inglês.

[3] Disponível aqui em inglês.

[4] Texto disponível aqui em inglês.

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