Você pode ser católico e libertário?

Revista ihu on-line

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Mais Lidos

  • O psicanalista analisa o "vazio de sentido". "A técnica domina, a política não decide, os jovens consomem e ponto". Entrevista com Umberto Galimberti

    LER MAIS
  • ''Estamos vendo o início da era da barbárie climática.'' Entrevista com Naomi Klein

    LER MAIS
  • Necropolítica Bacurau

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

11 Junho 2014

O bispo Blase Cupich de Spokane, Washington, argumentou que o libertarismo é uma ameaça direta à fé: "a nossa capacidade de chamar as pessoas a acreditar em um Deus clemente" fica comprometida, ele disse em uma entrevista, se "as cartas estão contra" os pobres.

O artigo é de Melinda Henneberger, colunista de política e cultura do The Washington Post. Foi correspondente para o New York Times em Roma por 10 anos e já escreveu para o NCR, Commonweal, GQ, e Reader's Digest.

O artigo foi publicado no sítio do jornal The Washington Post, 06-06-2014. A tradução é de Cláudia Sbardelotto.

Eis o texto.

Durante anos, os católicos norte-americanos têm estado sob pressão para votar no Partido Republicano.

Embora nenhum líder da Igreja tenha dito isso de forma direta, o cardeal Raymond L. Burke chegou perto quando ele disse que o Partido Democrata estava em perigo de se tornar um "partido da morte". O bispo Michael J. Sheridan de Colorado Springs sugeriu repetidamente que os católicos não deveriam receber a comunhão se votassem em políticos que diferem da doutrina da Igreja em assuntos "não-negociáveis", como aborto, pesquisas com células-tronco embrionárias, eutanásia, casamento homossexual - e, mais recentemente, no mandato contraceptivo da nova lei de saúde dos Estados Unidos.

O apelo mais intenso às urnas veio do bispo Daniel R. Jenky da cidade de Peoria, no estado de Illinois, pertencente à Congregação de Santa Cruz, que se referiu ao "desprezo calculado do presidente dos Estados Unidos", em uma homilia um pouco antes da eleição presidencial de 2012. "Hitler e Stalin, em seus melhores momentos,'' Jenky disse, "seriam capazes de tolerar algumas Igrejas em permanecer funcionando, mas não tolerariam qualquer competição com o Estado nos campos da educação, serviços sociais e saúde. Em clara violação dos nossos direitos da primeira emenda da Constituição, Barack Obama - com sua agenda radicalmente pró-aborto e extremamente secularista - agora parece decidido a seguir um caminho semelhante".

Nenhum dos protestos que se seguiram alegaram que Jenky não havia sido claro.

Agora, porém, parece estar acontecendo o oposto, com os conservadores da economia sendo chamados à atenção.

Em Washington, esta semana, o cardeal que alguns consideram "o vice-papa'' zombava deles abertamente em uma conferência chamada "Erroneous Autonomy: The Catholic Case against Libertarianism" (Autonomia errônea: as razões católicas contra o libertarismo, em tradução livre). A reportagem do Religion News Service sobre a crítica dos sistemas de mercado livre teve como manchete: "Católico e libertário? Principal assessor do papa diz que eles são incompatíveis".

Esse assessor, o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa, Honduras, foi apresentado pelo presidente da AFL-CIO [American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations] Richard L. Trumka, e falou contra a desregulamentação e a "adoração de ídolos, mesmo que esses ídolos sejam chamados de 'economia de mercado'''. Rodríguez também chamou a economia "trickle-down" de "um engano'', e disse que a "mão invisível" do mercado rouba e estrangula os pobres: "Nós não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. Esta economia mata. É isto é o que o papa está dizendo".

Alguns libertários descreveram as visões econômicas do papa como ingênuas e desinformadas - e Rodríguez retornou o favor. "Muitos desses libertários não lêem a Doutrina Social da Igreja, mas agora eles estão tremendo diante do livro de Picketty'', disse ele, referindo-se ao best-seller do economista francês Thomas Piketty, "O capital no século XXI" sobre as disparidades de riqueza que nos faz rumar para uma nova Era Dourada.

De certa forma, a disputa é sobre interpretações da história norte-americana, disse Meghan J. Clark, um teólogo moral da Universidade de St. John. A narrativa libertária dessa história é estrelada por um sertanejo que esculpe o oeste americano a partir do nada, em uma autonomia radical, com apenas uma faca de caça. Todavia, esse homem que se fez sozinho a partir do nada não soa um pouco como Deus? "Esse é o problema [católico] com o libertarismo'', disse Clark. "Ele depende de uma pessoa humana que se cria, e não há nenhuma maneira de fazer isso em harmonia com Cristo".

A economia criada por todo aquele povo da fronteira é o mercado livre irrestrito, e o próprio Papa Francisco recentemente reiterou sua opinião de que é "um sistema desumano. Eu não hesitei em escrever (...) na Evangelii Gaudium ("A alegria do Evangelho") que esse sistema econômico mata'', disse o Papa Francisco a repórteres no avião a caminho de Roma, quando retornava de Jerusalém. "E eu repito isso."

Claro, o Papa Bento XVI, também, manifestou-se contra "a prevalência de uma mentalidade egoísta e individualista, que também encontra expressão em um capitalismo financeiro desregulado". Não temos conhecimento se o Papa Francisco sabe quem é o congressista católico Paul Ryan, republicano do estado do Wisconsin, conhecido pelo seus cortes no orçamento.

É refrão constante de Francisco, no entanto, que andamos com Cristo quando ficamos perto dos pobres. E a conferência de terça-feira "Autonomia Errônea" foi, sem dúvida, um ataque contra a política de Ryan e outros potenciais candidatos presidenciais republicanos, incluindo o senador Rand Paul do Kentucky, que se descreve como "um tipo de libertário", e seu companheiro favorito do Tea Party, senador Ted Cruz do Texas.

O reverendo Robert A. Sirico, do Acton Institute, um instituto de pensamento libertário com sede em Michigan, disse que a conferência parecia projetada para "criar um homem de palha, derrubá-lo, e fazer feno político", apenas definindo ou refletindo com precisão opiniões defendidas pelos "seguidores mais extremistas de Rand ou anarquistas". O mercado não está somente longe de ser irrestrito, disse ele, mas há evidências de que sua expansão faz as pessoas se erguerem ao invés de deixá-las para trás.

Ele disse que foi convidado para participar e sentar-se na platéia, e ser instruído, mas que nenhum católico libertário foi convidado a falar ou a fazer parte de algum painel no evento de um dia inteiro.

Um dos organizadores da conferência, Michael Sean Winters, cujo trabalho anti-libertário foi citado extensivamente pelo cardeal em suas observações, disse que o evento foi pensado conscientemente para não ser um debate, da mesma forma que durante a Guerra Fria "não era o objetivo dialogar com o comunismo; mas sim derrotá-lo".

A reunião não era partidária, disse ele, uma vez que, em ambos os partidos, a maioria possui algumas crenças libertárias do tipo "me deixe em paz", com os democratas espantando o governo para fora do quarto do casal e os republicanos tentando tirá-lo de todas as outras esferas da vida. E "a crítica católica não se baseia na economia; achamos que eles [os libertários] estão errados sobre o que significa ser uma pessoa humana".

Steve Schneck, diretor do Institute for Policy Research & Catholic Studies, instituto que patrocinou a conferência, argumentou que como o cristianismo, o libertarismo "oferece uma visão de mundo abrangente que informa a ética e a arte, estilo de vida e cultura, e até mesmo relacionamentos e psicologias. Certamente isso é evidente tanto na reivindicação de uma mulher da NARAL [National Abortion Rights Action League] que diz 'é o meu corpo', na arte do 'selfie', na fantasia dos "doomsday preppers"[1], como o é na afirmação do fazendeiro Cliven Bundy[2] de que a pastagem comum é "minha propriedade".

O bispo Blase Cupich de Spokane, Washington, argumentou que o libertarismo é uma ameaça direta à fé: "a nossa capacidade de chamar as pessoas a acreditar em um Deus clemente" fica comprometida, ele disse em uma entrevista, se "as cartas estão contra" os pobres.

Tais advertências teológicas mais suaves contra ambos os excessos da autonomia e do livre mercado estão muito longe das referências a Hitler do bispo Jenky.

No entanto, na frente política, vale a pena lembrar que as recentes tentativas de arrebanhar os eleitores católicos não deram muito certo, e pode ser que até tenham saído pela culatra; apesar dos esforços de vários bispos norte-americanos de elencar o presidente Obama como "pró-aborto" e "anti-católico", ele ganhou o voto católico em 2008 e 2012.

E em época de eleição, não se sabe se o argumento "você não pode ser católico e libertário" funcionará melhor do que o argumento "você não pode ser católico e pró-escolha''.

 

Notas:

1. Doomsday preppers refere-se a um reality show do canal de TV National Geographic, onde indivíduos (também conhecidos como sobrevivencialistas) se preparam para o dia do juízo final pela auto-suficiência.

2. Clive Bundy é um rancheiro do estado de Nevada, envolvido em uma disputa legal com o governo dos Estados Unidos pelo não pagamento de impostos de pastagem em terras federais.

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Você pode ser católico e libertário? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV