Obcecado pela continuidade. O que um ensaio sobre o sequestro de Mortara confirma

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25 Janeiro 2018

“Agora, doutrinalmente, deve-se preparar uma defesa da historicidade da teologia e do magistério contra o dogmatismo católico pós-moderno/antimoderno obcecado com a catolicidade exclusiva de continuidade absoluta e da suposta heresia da descontinuidade. Neste ambiente de destradicionalização e pluratização, o cristianismo exige uma teologia para além das teorias de continuidade e descontinuidade. As teologias da continuidade por si só não conseguem explicar a relação entre a fé cristã e a sociedade contemporânea. E as teologias da descontinuidade não conseguem porque correm o risco de ignorar a ligação intrínseca entre fé e história”, escreve Massimo Faggioli, professor de teologia na Villa Nova University, em artigo publicado por Commonweal, 20-01-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “uma rejeição da teologia do Vaticano II e do magistério a respeito de questões políticas (por exemplo, sobre democracia, pluralismo, direitos humanos) poderá criar uma nova versão de uma antiga mistura venenosa quando muitos católicos estão ávidos a ir além da democracia progressista, secular, mas sem ter ideia de como um mundo democrático pós-progressista se parece”.

Eis o artigo.

Se os paralelos nas crises da tradição política americana e da tradição católica já não estavam aparentes a esta altura, o debate provocado por um recente artigo, publicado na revista First Things sobre o infame caso de Mortara [1] (junto de uma nota explicativa do editor R. R. Reno), poderá torná-los mais claros.

Edgardo Mortara foi o menino judeu sequestrado da casa de seus pais, pela força policial papal em 1858, em Bolonha, na Itália, então ainda parte dos Estados Papais. Tendo sido batizado por sua cuidadora católica durante uma enfermidade, foi declarado católico pelo inquisidor local, quem ordenou a abdução com base em que os católicos não podiam crescer em famílias judaicas. “Assim se iniciou a série de eventos que trouxeram o opróbrio do mundo sobre Pio IX” escreve o autor Romanus Cessario, antes de ele próprio começar, até certo ponto, a justificar as ações do papa. “Ele não se dissuadiu pelas reações negativas. Na verdade, repetidas vezes respondeu aos que, em face da confusão pública, o exortavam a devolver a criança Mortara: ‘Non possumus’, isto é: ‘Não podemos’. Piedade, não teimosia, explica a resposta”.

Claramente antecipando a resposta provável de muitos leitores, Reno explicou o pensamento ao analisar o artigo de Cessario:

O meu propósito ao trazer este episódio foi confrontar-nos com a força assustadora dos decretos irrevogáveis de Deus. Esta força nem sempre é feliz, pelo menos como contabilizamos a felicidade em nosso quadro finito, mortal. Ela levou Pio à sua mal considerada decisão. Mas mesmo quando evitamos os seus erros, devemos encarar a verdade implacável de que a aliança de Deus com nós estabelece realidades que não podemos redirecionar ou remodelar conforme o nosso desejo.

Para entender o que o artigo de Cessario e a explicação de Reno dizem (ou não dizem) sobre First Things e o judaísmo, é necessário considerar como as noções de “tradicionalismocatólico e de conservadorismo político mudaram ao longo dos últimos anos.

A ruptura teológico-política no catolicismo americano é relativamente nova. Há, evidentemente, uma divisão quanto à política do aborto e quanto ao papel e o alcance do governo, mas há também uma divisão eclesial-vaticana. Podemos remontar suas origens a 2005, quando algumas poucas e importantes coisas ocorreram. Primeiro foi o conclave do mês de abril após a morte de João Paulo II, quando duas culturas teológicas (“conservadora” e “progressista”, em termos americanos) se polarizaram ainda mais com a eleição de Bento XVI. Poucos meses mais tarde, Bento XVI foi presenteado com o comentário de Tübingen sobre o Vaticano II [2] em cinco volumes. O comentário exibia uma apreciação profunda da historicidade do concílio e da recepção dos principais pontos de vista factuais e hermenêuticos de “História do Vaticano II”, obra compilada pela Escola de Bolonha e cuidadosamente editada em inglês por Joseph Komonchak. Poucas semanas depois disso, em dezembro de 2005, celebrou-se o novo comentário em um congresso teológico internacional realizado em Tübingen. Nesse mesmo fim de semana, no jornal mais importante da Alemanha, o intelectual católico alemão e social-democrata Ernst-Wolfgang Böckenförde publicou um texto sobre o ensinamento papal a respeito da liberdade religiosa intitulado “Roma falou, a discussão está aberta. Se as encíclicas não são infalíveis, elas convidam à crítica”.

Em breve, toda essa efervescência na Alemanha (em Tübingen em particular) encontrou expressão no discurso que Bento proferiu à Cúria em 22 de dezembro, no qual articulou a sua visão de uma interpretação correta do Vaticano II: a hermenêutica da continuidade e reforma X a hermenêutica da ruptura e descontinuidade.

A meu ver, este continua sendo o mais significativo dos discursos papais sobre a interpretação do Vaticano II. É verdade que destaca algumas ansiedades tipicamente idiossincráticas pós-1968 de Joseph Ratzinger; historiadores da Igreja encontram algumas passagens com as quais acham difícil concordar (por exemplo, onde ele minimiza a descontinuidade no ensinamento sobre a liberdade religiosa). Mesmo assim, o papa tentou acertar um caminho intermediário entre o neotradicionalismo anti-Vaticano II e o antitradicionalismo pós-moderno. “É exatamente neste conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis que consiste a natureza da verdadeira reforma”, disse.

O problema é que o caminho do meio não vingou, o que se ficou particularmente evidente a partir da eleição do Papa Francisco em 2013. Especialmente no catolicismo americano, há uma divisão considerável entre continuidade e descontinuidade: “Os conservadores ortodoxos católicos” estão para a continuidade absoluta, enquanto “os progressistas católicos” estão para a descontinuidade. O artigo de Cessario, em First Things, é um exemplo do extremismo do lado da continuidade: ele ignora completamente o desenvolvimento do ensinamento católico sobre os judeus e o judaísmo, sobre a liberdade religiosa e sobre a liberdade de consciência aprovados pelo Vaticano II, confirmado e repetido por todos os papas do período pós-Vaticano II. Ele supõe que a tradição magisterial católica que se seguiu e mudou o catolicismo do século XIX não é um ensinamento católico autêntico.

As reações ao artigo tendem a focar-se ou 1.- sobre a relação entre o poder da Igreja e o poder do Estado no contexto do debate americano em torno da liberdade religiosa, do aborto e questões de gênero; ou 2.- sobre a crise do progressivismo. Ambos evitam o componente histórico-teológico.

O artigo de Cessario e a resposta não são um caso isolado. Um artigo de 2012 publicado em First Things afirmava que a declaração Dignitatis Humanae, do Vaticano II sobre a liberdade religiosa, não se opõe à coerção religiosa em geral, mas somente à coerção pelo Estado – isto é, a Igreja mantém o direito de coagir. O autor ignorou inteiramente o consenso teológico dos intérpretes vaticanos sobre o tema, incluindo os papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. O que estava começando a surgir nos círculos tradicionalistas era um consenso para a construção de uma narrativa sobre o “fracasso” do progressivismo teológico (e, portanto, do progressivismo político) inaugurado no Vaticano II.

Agora, estes debates podem, em grande parte, estar ocorrendo entre os leitores de certas publicações. Mas eles jamais refletem uma crise dentro do catolicismo americano. Em meu ponto de vista como historiador e teólogo voltado ao século passado, há um grande problema em termos de como se deve compreender a tradição. O pecado original da era pós-Vaticano II é que os teólogos progressistas católicos dos EUA relegaram, em grande parte, a tradição católica a um passado que é para sempre passado. Isto abriu caminho para teólogos tradicionalistas/conservadores “sequestrarem”, se é que podemos dizer assim, a tradição, rebatizando-a de um modo anti-histórico e antiprogressista, com a linguagem se tornando cada vez mais extremista com o passar dos anos.

Onde estamos neste momento? A deslegitimização do evento do Vaticano II seguiu-se com a deslegitimização dos documentos do Vaticano II. O artigo de Cessario ilustra o cul-de-sac teológico dentro do qual estes tradicionalistas se colocaram. É difícil ser pró-liberdade religiosa, de Dignitatis Humanae, enquanto também se acredita que Pio IX agiu de maneira certa no caso de Mortara; é difícil aceitar o ensinamento da Igreja sobre o judaísmo de Nostra Aetate até o Papa Francisco enquanto também se acredita que Pio IX esteve certo. Estes dois documentos do Vaticano II são exemplos da descontinuidade no ensinamento católico conforme compreendido por Bento XVI em seu discurso sobre “continuidade e reforma”, de 2005; ele não defendia uma compreensão absolutista da “continuidade com a tradição anterior” que está criando os problemas com que temos de lidar agora.

Um destes é o impacto sobre o nosso discurso teológico. A rejeição da descontinuidade na tradição e no magistério recente deslegitimaria silenciosa e gradualmente a compreensão do ecumenismo e do diálogo inter-religioso que se desenvolveu nos últimos cinquenta anos. Ela funcionaria como uma injunção contra a discussão sobre o papel da mulher na Igreja, questões LGBTs, o cuidado da criação e temas sociais e econômicos.

Uma rejeição resoluta da descontinuidade também expõe uma ignorância das raízes intelectuais da nossa compreensão histórica da teologia e do magistério católicos. A virada da teologia para a história não é um produto dos modernistas excomungados, do Vaticano II ou da teologia progressista pós-Vaticano II. Na verdade, ela começou no início do século XIX com a escola de Tübingen, como uma resposta teológica católica tradicional ao sola scriptura da teologia protestante e do dogmatismo racionalista de pensadores iluministas (de maneira geral, o Cardeal Walter Kasper faz parte dessa linhagem hoje). E ela será parte da teologia católica daqui para frente, somente com um tipo diferente de urgência – doutrinal e politicamente –, dado o estado atual das coisas e os seus ecos nos debates políticos e religiosos nos Estados Unidos.

Portanto agora, doutrinalmente, deve-se preparar uma defesa da historicidade da teologia e do magistério contra o dogmatismo católico pós-moderno/antimoderno obcecado com a catolicidade exclusiva de continuidade absoluta e da suposta heresia da descontinuidade. Neste ambiente de destradicionalização e pluratização, o cristianismo exige uma teologia para além das teorias de continuidade e descontinuidade. As teologias da continuidade por si só não conseguem explicar a relação entre a fé cristã e a sociedade contemporânea. E as teologias da descontinuidade não conseguem porque correm o risco de ignorar a ligação intrínseca entre fé e história.

Há também as consequências para a cultura e postura política dos católicos. Isto é particularmente relevante hoje dado que o antiprogressivismo católico está de volta. Neste momento, o antiprogressivismo e o fascismo católico não são a mesma coisa. Mas, historicamente, o fascismo católico (cf. o Pe. Agostino Gemelli, fundador da Universidade Católica de Milão) era um produto do antiprogressivismo católico. Uma rejeição da teologia do Vaticano II e do magistério a respeito de questões políticas (por exemplo, sobre democracia, pluralismo, direitos humanos) poderá criar uma nova versão de uma antiga mistura venenosa quando muitos católicos estão ávidos a ir além da democracia progressista, secular, mas sem ter ideia de como um mundo democrático pós-progressista se parece.

Uma defesa séria da virada teológica à história e uma atenção renovada à tradição não são só tarefas intelectuais especulativas para o catolicismo americano. A “continuidade por si só” possui ecos das “Escrituras por si só”, e a “continuidade por si só” não pode nos ajudar a extrair um significado do ensinamento oficial atual da Igreja Católica sobre o judaísmo, a escravidão, a liberdade religiosa, a democracia, os direitos humanos e outras questões. Há também o aspecto político: nos últimos cinquenta anos, vemos o quanto a rejeição do Vaticano II sempre fez parte do ressurgimento de culturas políticas fascistas entre os católicos de direita na Europa e na América Latina. É claro que nem todas as críticas ao Vaticano II alimentam o fascismo, mas parece que os católicos que adotam posturas políticas e sociais autoritárias tendem a rejeitar o Vaticano II exatamente por suas descontinuidades com o passado recente.

Portanto, os católicos têm uma responsabilidade cívica de fazer parte do debate. A obsessão com a continuidade na compreensão da tradição intelectual católica deveria ser uma preocupação de todos nós.

Notas:

[1] O texto pode ser acessado aqui, em inglês.

[2] Conferir o texto disponível aqui.

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