Da Utopia à Retrotopia: lições de 1968, cinquenta anos depois

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10 Janeiro 2018

Existem fortes correntes ideológicas na Igreja Católica que tendem a ignorar a importância dos fatos históricos para a teologia.

O artigo é de Massimo Faggioli, publicado por La Croix International, 09-01-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A Igreja Católica tem um profundo senso de história e é fascinada por aniversários.

A tradição moderna do ensinamento social católico, por exemplo, tem sido publicar uma sequência de encíclicas para marcar o aniversário de Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII, como Quadragesimo anno, em 1931, Mater et Magistra, em 1961, Octogesima adveniens, em 1971, Laborem Exercens, em 1981, e Centesimus Annus, em 1991. Se é verdade que tradição não é o mesmo que história, também é verdade que não se pode compreender tradição sem história e sem um sentido de historicidade.

O ano de 2018 nos traz um conjunto de desafios interessante. A Igreja está entrando no cinquentenário de 1968 com cautelosa, dadas as tensões culturais em torno de tudo o que tem a ver com o período após o Concílio Vaticano II (1962-65) e os "anos 60".

A relação problemática de Joseph Ratzinger com os acontecimentos de 1968 é famosa. Mas o Papa Francisco, em seu discurso ao corpo diplomático, também se refere aos anos 1960 em uma passagem reveladora: "Deve notar-se que, ao longo dos anos – sobretudo depois das agitações sociais de 1968 –, se foi progressivamente modificando a interpretação de alguns direitos, a ponto de se incluir uma multiplicidade de “novos direitos”, não raro contrapondo-se entre si", disse o Papa.

"Isto nem sempre favoreceu a promoção de relações amigas entre as nações, porque se afirmaram noções controversas dos direitos humanos que contrastam com a cultura de muitos países, que, por isso mesmo, não se sentem respeitados nas suas próprias tradições socioculturais, antes se veem transcurados nas necessidades reais que têm de enfrentar", acrescentou.

(Vale observar que o Papa usou a palavra "sessantotto" ou "sessenta e oito" na versão original do discurso, em italiano, enquanto a tradução ao inglês é equivalente aos "anos 60”).

De uma forma muito diferente de Ratzinger-Bento XVI, e apesar de erroneamente ser considerado "liberal", Francisco também mantém alguma distância crítica das "agitações sociais de 1968".

Ninguém deve esperar que a assembleia do sínodo dos bispos sobre os jovens – que o Papa Francisco vai convocar para outubro de 2018 — marque o significado simbólico que as revoltas estudantis de 1968 tiveram para a cultura jovem. É muito improvável que católicos jovens convidados para o sínodo marchem na Praça de São Pedro como fizeram os jovens franceses pelas ruas de Paris em maio de 1968 — o que o estudioso jesuíta Michel de Certeau de "la prise de la parole".

Mas há algo que a Igreja Católica poderia aprender com os acontecimentos de 50 anos atrás ao tentar entender a situação atual. Isto é particularmente verdade sobre a história do magistério e da teologia, bem como sobre o papel que o mundo e a história "secular" desempenham na Igreja.

A história do magistério a partir de 1968 nos mostra, acima de tudo, que a autoridade papal tem tido tempos mais difíceis do que a crítica atual da exortação do Papa Francisco sobre a família, Amoris Laetitia. Ninguém foi mais criticado na história moderna do papado do que o Papa Paulo VI depois de publicar a encíclica Humanae Vitae, em 25 de julho de 1968. Se quer ver uma grande dissidência e rejeição ao magistério pontifício, a Humanae Vitae de 1968 foi o começo. Amoris Laetitia está passando por um processo de recepção muito diferente.

A relação difícil entre a seção da Humanae Vitae contra a contracepção artificial, particularmente, foi sinalizada por árduos exercícios hermenêuticos em documentos publicados por conferências episcopais nacionais inteiras. A encíclica basicamente foi rejeitada por meio de declarações assinadas por centenas de teólogos e por um "cisma silencioso" que não foi menos devastador para a autoridade papal.

O Papa Paulo estava tão consciente disso que nunca emitiu nenhuma outra encíclica nos últimos dez anos de papado antes de morrer. Logo após Humanae Vitae, as conferências episcopais compreenderam a necessidade de dar espaço aos direitos da consciência e colocá-los no papel — o que aconteceu de forma sem precedentes.

Mas 1968 não significou apenas a explosão da dissidência na Igreja. Também significou um desenvolvimento do ensino da Igreja sobre a paz e a guerra, devido a muitas reações católicas contra a guerra do Vietnã. Isso marcou o primeiro teste sério das medidas tomadas no Concílio Vaticano II em direção a uma nova teologia da paz e da guerra. Não há dúvidas de que a Igreja Católica hoje está trabalhando muito mais na prevenção da guerra e na construção da paz, em vez de elaborar argumentos teológicos para a "guerra justa". Isso porque a bomba nuclear inaugurou um novo tipo de guerra, mas também porque houve uma mudança magisterial na Igreja Católica a respeito da questão.

Isso que levou Paulo VI a instituir o Dia Mundial da Paz em 1968, um evento que a Igreja continua a celebrar anualmente no dia 1º de janeiro. Mas o movimento de paz católico de 1968 não se baseou tanto no magistério pontifício quanto na mobilização dos leigos católicos — algo que é difícil de ver hoje.

Em segundo lugar, 1968 deve ser lembrado como o ano em que inúmeras obras seminais foram publicadas, impulsionando os estudos teológicos e a consciência religiosa contemporânea. É uma longa lista, mas aqui alguns exemplos serão suficientes: a segunda edição do livro Verdadeira e falsa reforma da Igreja, de Yves Congar, cujo posfácio (escrito durante a revolta dos estudantes) começou a elaborar o desafio dos protestos dos estudantes nas ruas de Paris de maio de 1968 para a Igreja Católica; a publicação dos documentos oficiais dos bispos alemães que estavam lidando com Hitler – foi o início do processo em que a Igreja Católica assumiu publicamente a responsabilidade pelo apoio ao nazismo (e, com trabalhos publicados em italiano, a favor do fascismo na Itália), por meio da ajuda de historiadores; o livro A Igreja e o Segundo Sexo, de Mary Daly, que abriu o capítulo da teologia feminista na Igreja Católica — um capítulo que ainda está sendo escrito e é provavelmente o mais crucial para o futuro do catolicismo no Ocidente.

Um terceiro motivo para lembrar 1968 é a interconexão fundamental da história religiosa/ da Igreja e a história secular. Não há dúvida de que eventos seculares da época influenciaram a Igreja e a religião. Por exemplo, a guerra do Vietnã foi decisiva para convencer Paulo VI da necessidade de um novo compromisso da Igreja com a cultura de paz e, portanto, com a ideia do Dia Mundial da Paz. O impacto da tecnologia médica moderna na biopolítica e na religião constituiu um pano de fundo essencial que precedeu e sucedeu Humanae Vitae.

Assim como não se pode separar a situação social e política da América Latina do período pós-Vaticano II no continente. Isso é verdade principalmente a respeito do evento eclesial mais importante de 1968, a Conferência dos bispos latino-americanos em Medellín (Colômbia), que abriu um novo período na história do catolicismo mundial.

Esta íntima conexão entre história religiosa/da Igreja e história secular não é exclusiva dos anos 60; mas sempre foi parte da consciência histórica da Igreja. Mas hoje o fenômeno de "fake news" está causando um enfraquecimento geral no sentido que fatos históricos existem independentemente da sua orientação ideológica. Isto tem consequências para a teologia cristã e católica, porque o cristianismo é inseparável da historicidade — acima de tudo por causa da encarnação.

É extremamente importante lembrar a relação entre o cristianismo e a historicidade hoje, porque existem fortes correntes ideológicas da Igreja Católica que tendem a ignorar a importância dos fatos históricos sobre a teologia. Essas mesmas correntes ideológicas encorajam os crentes ideologicamente militantes a serem muito seletivos em relação a fatos que usam para sustentar o seu entendimento particular, idiossincrático e “ortodoxo” do catolicismo.

A boa teologia não vem de uma história ruim. O desafio é muito sério neste momento histórico, em que o desejo pela utopia foi substituído pelo que Zygmunt Bauman chama de retrotopia — o anseio por um passado que nunca aconteceu.

Retrotopia é, para os católicos, uma tentação particularmente poderosa, enganosa e perigosa. É, também, uma das principais diferenças entre as utopias de 1968 e de hoje.

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