O Concílio e a fé ferida pelo '1968'. Artigo de Peter Henrici

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01 Dezembro 2014

Publicamos aqui alguns trechos da lectio magistralis que Dom Peter Henrici, bispo auxiliar emérito de Chur, Suíça, proferiu no dia 26 de novembro, em Milão, na Faculdade Teológica da Itália Setentrional.

A inauguração do ano acadêmico 2014-2015 ocorre em pleno cinquentenário do Concílio Vaticano II: e, há dez anos, o cardeal Giuseppe Colombo, de quem se celebrará em pouco tempo o décimo aniversário de morte, em um dos seus últimos escritos, voltara um olhar retrospectivo sobre "Vaticano II e o pós-Concílio".

Colombo (1923-2005), um dos mais conhecidos e importantes teólogos italianos, foi ordenado sacerdote em 1948 e formou-se em teologia em 1955 com uma tese sobre Natureza e sobrenatural na filosofia de Maurice Blondel: o sobrenatural na teologia contemporânea.

Professor no seminário de Venegono Inferiore, foi chamado a desempenhar, como colaborador do reitor Carlo Colombo, o papel de organizador da nova instituição teológica, a Faculdade Teológica Inter-Regional (hoje Faculdade Teológica da Itália Setentrional), inaugurada em 1968.

Professor ordinário e vice-reitor de 1971 a 1980, em 1985 sucedeu a Carlo Colombo como reitor, assumindo dois mandatos quadrienais até 1993. Sócio-fundador da Associação Teológica Italiana e membro da Comissão Teológica Internacional, foi também colaborador da Fundação Ambrosiana Paulo VI e do Instituto de Estudos Religiosos de Villa Cagnola, em Gazzada, e membro do Comitê Científico do Instituto Paulo VI da Bréscia e do Comitê Permanente da Fundação Cultural "Ambrosianeum". Pela editora Glossa, publicou, dentre outros, L'ordine cristiano (1993), La ragione teologica (1995) e Professione "teologo" (1996).

O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 26-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O meio século teológico que precedeu o Vaticano II foi caracterizado, além da tensão entre modernismo e antimodernismo, por três movimentos que tiveram repercussão sobre a piedade do povo de Deus: o movimento litúrgico, o movimento bíblico e um renovado sentido da Igreja. Pio XII havia sancionado e até promovido esses movimentos com as suas três grandes encíclicas Mystici corporis, Divino afflante Spiritu e Mediator Dei, encíclicas que prefigurariam as três constituições dogmáticas do Vaticano II.

Portanto, foi um dinamismo espiritual, nascido espontaneamente no povo de Deus e apoiado pelo papa, que preparou o evento do Concílio. Ainda mais que esse dinamismo teve a sua repercussão em uma teologia que, renovando-se, proclamava o "retorno às fontes". O mesmo dinamismo pode explicar também a onda de expectativas e de esperanças que acolheram o anúncio do Concílio e que acompanhou boa parte do seu desenvolvimento.

Deve-se somar a isso que o evento conciliar se desenvolveu na primeira metade dos anos 1960, período que se autodefinia como "década do desenvolvimento", distinguindo-se por uma confiança otimista no progresso. Um eco de tal otimismo, por si só puramente secular, pode ser percebido em alguns documentos conciliares e na sua primeira recepção.

Da constituição pastoral Gaudium et spes, em particular, esquecia-se, de bom grado, que, às palavras do seu título, acrescenta-se imediatamente "timor e angor". Via-se aí uma quase canonização da visão teilhardiana da história, que se acreditava ser igualmente otimista. Tanto que um Karl Barth, na sua visita pós-conciliar ad limina apostolorum, podia criticar os Padres conciliares por terem se esquecido do Juízo Universal.

A esse clima de otimismo generalizado e confiante, porém, não falou um pano de fundo contrastante. Os anos 1960 também foram a época da Guerra Fria, cujo testemunho os bispos do Leste europeu traziam para a Aula conciliar.

Foram os anos da derrota norte-americana na Guerra do Vietnã, da resistência interna a essa guerra e o início da época da droga. São as tensões que, em breve, fariam estourar a revolução cultural do famigerado 1968.

Essa revolução, que estourou apenas três anos depois da conclusão do Concílio, condicionou profundamente a recepção do Concílio: condicionamento que se faz sentir até os nossos dias. Por isso, é preciso examinar considerar essa revolução e suas consequências um pouco mais de perto.

Acima de tudo, não foi uma revolução econômico-social no sentido clássico marxiano, mas uma revolução cultural. No entanto, ela também se referia a Karl Marx, mas não ao Marx da maturidade, mas ao jovem Marx, como o interpretavam os chamados neomarxistas. Na sua origem, estavam três best-sellers: A dialética do Esclarecimento, de Horkheimer-Adorno, O homem unidimensional, de Herbert Marcuse, e o Livro Vermelho, de Mao-Tse-tung.

Eram obras que criticavam o otimismo e os males da sociedade capitalista, não tanto do ponto de vista socioeconômico, mas sim do antropológico-cultural. Por isso, foi uma revolução de intelectuais e, especialmente, de jovens intelectuais, uma revolução estudantil, não da classe proletária, tanto que os operários se recusavam, primeiro, a aderir a esse movimento.

Ora, entre esses jovens revolucionários, encontravam-se, ao menos na Itália, na França e na Suíça, não poucos católicos militantes que, animados pelo dinamismo conciliar, viam na revolução um passo rumo a um futuro tal como o Concílio havia prefigurado. Sonhavam, junto com os neomarxistas, com uma nova sociedade, não mais alienada e alienante, mas construída, sob o modelo de Rousseau, por um homem novo, espontaneamente comunitário.

Esse novo homem, por sua vez, devia ser produzido por uma nova pedagogia, não diretiva, mas antiautoritária, que se inspirava no modelo proposto por Alexander S. Neill na escola de Summerhill. Neill, por sua vez, havia se inspirado na "revolução sexual", que o psicanalista norte-americano Wilhelm Reich tinha proclamado no seu A função do orgasmo: outro bestseller daqueles anos.

Para promover tal pedagogia, confeccionou-se uma versão do Livro Vermelho ad usum delphini, ou seja, para os estudantes escolares, distribuídos pelos professores nas escolas. Só essas poucas frases podem dar a entender o quão profundamente a revolução de 1968 devia incidir na vida da Igreja e na recepção do Concílio.

Acima de tudo, ela levou quase duas gerações de católicos (os "sessantottini" e as crianças por eles educados) a uma distância ideológica e, depois, a uma ignorância quase total não só da doutrina da Igreja, mas também de toda prática religiosa. Não é de se admirar que uma maioria dos jovens da época, que são os pais e os avós de agora, não foram e ainda não são capazes de educar os seus filhos na fé, mesmo que eles mesmo ainda sejam batizados.

A Igreja, portanto, se encontrou por quase meio século com um grande número dos seus filhos e filhas distantes de toda prática religiosa ou, melhor, da própria fé cristã. O que pode explicar, ao menos em parte, a queda quase instantânea das vocações sacerdotais e religiosas pouco depois do Concílio.

Somente nos últimos anos, em uma nova geração, a fé parece pouco a pouco redespertar. Nesse pano de fundo da situação depois de 1968, deve-se inscrever dois traços particulares que dizem respeito à imagem que nos foi feita da Igreja e, por isso, também à interpretação da Lumen gentium.

A revolução de 1968 fez-se, marxianamente, de baixo, da chamada "base", e, por isso, devia-se interpretar o "povo de Deus" da constituição conciliar em um sentido análogo. Em vez de ver a Igreja constituída por uma "comunhão hierárquica", como ela mesma se explicou mais tarde, via-se aí uma espécie de democracia popular de base. Daí os vários movimentos do Nós somos a Igreja, com as suas aspirações para mudar não poucas coisas também fundamentais na Igreja, para torná-las mais conformes com a mentalidade dos nossos tempos.

Tal tendência ou crise foi reforçada por uma infausta coincidência. Poucas semanas depois do fatídico maio de 1968, foi publicada a encíclica Humanae vitae, do Papa Paulo VI, documento que devia completar a doutrina conciliar sobre a família em um ponto sensível na vida de muitos fiéis. Tão sensível que os Padres conciliares haviam encarregado o papa de resolver o problema. Portanto, foi um texto já em si mesmo difícil de receber.

Ora, reafirmando, ao que parece, nada mais do que a doutrina tradicional sobre o matrimônio, ele decepcionava, ao menos nas nossas regiões, tantas expectativas pós-conciliares, expectativas reforçadas pela atmosfera de "revolução sexual" que estava se impondo.

Uma leitura completa e pacífica desse texto rico e de diversas camadas tornava-se, assim, quase impossível. E, como se soube ou se supunha que o papa sozinho era o responsável pela redação definitiva do texto, contrária à opinião de duas comissões preparatórias, a autoridade pontifícia, para muitos fiéis e não poucos sacerdotes, foi posta gravemente, para não dizer definitivamente, em crise.

Desde então, de fato, ao menos ao norte dos Alpes, os textos emitidos pelo Sumo Pontífice e pelos seus dicastérios não são mais aceitos como documentos do Magistério, mas, no máximo, como propostas a serem discutidas.

Isso acontece, infelizmente, já com o texto que me parece ser o mais importante do pontificado do Bem-aventurado Paulo VI, a exortação pós-sinodal Evangelii nuntiandi de 1975. Nesse texto, de fato, o papa respondia à Revolução Cultural, já transpassada, introduzindo o conceito de evangelização da cultura.

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