"A União Soviética entrou em colapso quando não conseguiu igualar os resultados do capitalismo". Entrevista com Alan Woods

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31 Outubro 2017

Em tempos de tensões nucleares, terrorismo global, auge de partidos xenófobos e desigualdades abismais, a história não pode mais ser vista como um museu de ideias, diz Alan Woods. “As classes dominantes têm um medo atroz das revoluções”, ressalta.

“O centenário da Revolução Russa merece passar a limpo as lições que este acontecimento chave do século passado deixou para o mundo. A mensagem que dão às novas gerações é que as revoluções sempre terminam mal. Quando falo da Revolução Russa, não falo da história antiga, de um fóssil. Estou falando de hoje. A Revolução Russa é o futuro da humanidade”, afirma Alan Woods, escritor e intelectual britânico, que apresentou o seu livro Bolchevismo, o caminho da revolução em Buenos Aires e participou do congresso internacional sobre os 100 anos da revolução de outubro organizado pela Universidade Nacional de Rosario, da Argentina.

Woods é o encarregado da tarefa de resgatar o legado de Lênin e Trotsky e de refutar os argumentos de seus críticos. “É o aniversário do acontecimento mais importante de toda a história. Os economistas dizem que a revolução de outubro não serviu para nada. A Rússia czarista era um país muito atrasado, mais atrasado do que o Paquistão pode ser hoje”, diz ele em conversa com a Página/12.

O pensador também se pergunta sobre as promessas de paz e prosperidade que os defensores da economia do livre mercado fizeram após a desintegração da União Soviética. “Nosso grande poeta nacional, William Shakespeare, certa vez escreveu que uma rosa mesmo com outro nome continuaria a cheirar como uma rosa. O capitalismo entrou em colapso em 2008 e não há paz no mundo. O terrorismo está se expandindo como uma epidemia medieval”, diz ele.

A entrevista é de Patricio Porta, publicada por Página/12, 30-10-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é, para o senhor, o maior legado da Revolução Russa?

Como marxista que sou, para mim, a revolução de outubro foi o maior acontecimento da história, no sentido de que, pela primeira vez, exceto a Comuna de Paris, que foi algo breve, as massas, e não as pessoas cultas que podiam devorar os três volumes de O Capital, mas milhões de homens e mulheres comuns, não organizados, instruídos apenas por seu instinto de classe, entram na luta e derrubam um regime monstruoso e opressivo que durou centenas de anos. E eles fizeram isso com a mesma facilidade com que um homem tira um mosquito do seu braço. Isso é extremamente relevante para os dias de hoje, quando o sistema capitalista não faz senão causar guerras, destruição, opressão e horrores sem fim para a humanidade. A Revolução Russa foi a revolução mais democrática e popular da história.

Por que um processo revolucionário como o bolchevique desembocou em um regime ditatorial sob Stalin?

Atualmente, há uma avalanche de mentiras e distorções. Diz-se que não houve revolução, que Vladimir Ilich Lênin e um pequeno grupo de conspiradores fizeram um golpe de Estado. Eu gostaria de conhecer, então, a fórmula mágica que permite que um pequeno grupo tome o poder em um país com 150 milhões de habitantes. Mas a calúnia mais grave é a tentativa de identificar o bolchevismo com o stalinismo. Eles são totalmente antagônicos. Se você me disser que o stalinismo é fruto do leninismo, você tem que me dizer por que Stalin teve que massacrar todo o partido de Lênin. Todos os velhos bolcheviques foram mortos. A razão pela qual a revolução degenerou não tem nada a ver com as ideias de Lênin e Trotsky, mas com o isolamento da revolução em condições de terrível atraso, que é a base da ascensão da burocracia stalinista, especialmente após a morte de Lênin, quando Trotsky liderava uma oposição de esquerda para defender as autênticas ideias de outubro.

Em que momento o senhor acha que a Revolução perdeu o rumo e não conseguiu cumprir seus objetivos?

Já muito cedo, em 1936, em seu livro A Revolução Traída, Leon Trotsky prevê que a burocracia stalinista, mais cedo ou mais tarde, destruiria a economia planejada. E foi exatamente isso que aconteceu com o colapso da União Soviética sob Gorbachev. A economia planejada no início teve enormes sucessos, transformando um país que era muito atrasado, semi-feudal e analfabeto, em uma potência industrial de grande importância. A história não conhece um processo de transformação tão dramático. O problema é que uma economia planejada tem necessidade da democracia, da democracia operária, como o corpo humano tem necessidade de oxigênio. É o avanço da burocracia que estrangula a economia planejada, e isso se reflete em uma queda da taxa de crescimento.

Nos anos 30, a taxa de crescimento era de 20% ao ano, algo incrível. Mesmo após a Segunda Guerra Mundial, era de 10%, o que ainda é surpreendente, com pleno emprego e sem inflação. Mas já na década de 60 começa uma queda para menos de 6% e sob Brezhnev chega a zero. O marxismo diz que a base de todo progresso é o crescimento das forças produtivas. Uma vez que a União Soviética não conseguiu obter os mesmos resultados que o capitalismo, entrou em colapso. E tinha que entrar em colapso. Então veio a contrarrevolução capitalista, o que certamente significou um grave revés para o povo russo.

Que consequências no longo prazo teve o colapso da União Soviética?

O que fracassou na União Soviética não foi, em nenhum sentido, o socialismo como o entendem Marx, Lênin ou Trotsky. O que fracassou foi um sistema burocrático e autoritário. Naquele momento, quando ocorreu o colapso, os defensores do capitalismo estavam eufóricos e falavam do fim do socialismo, do fim do comunismo. Francis Fukuyama falava do fim da história. Eles previam um futuro brilhante graças ao livre mercado. Vinte e cinco anos se passaram e hoje podemos afirmar que não resta pedra sobre pedra dessas previsões. Pelo contrário. Em 2008, a economia de livre mercado entrou em colapso e 10 anos depois a burguesia ainda está lutando para sair da crise e não está conseguindo. E quem paga o preço? Os trabalhadores, a classe média, os desempregados, os pensionistas, os estudantes, os doentes. Todos pagam a colossal dívida do sistema capitalista. Este é o balanço dos últimos 10 anos de livre mercado.

Cada vez que há uma crise econômica de grandes proporções costuma-se falar da “crise terminal do capitalismo”. Mas o sistema sempre consegue se reinventar. As vitórias de Donald Trump ou de Emmanuel Macron parecem responder a essa lógica. A que custo se dá essa permanência do capitalismo?

Não existe essa coisa como a crise final do capitalismo. Se a classe trabalhadora não derrubar o capitalismo, eles sempre vão encontrar a saída para qualquer crise. Essa ideia não explica nada sobre esta crise concreta. Embora seja verdade que o capitalismo tem alguns recursos para sair de uma crise, mesmo de uma crise profunda, o problema é que hoje essas soluções estão esgotadas. Há algo de irônico em tudo isso. Eles estão nos dizendo há décadas que o Estado não deve participar, e, atualmente, a economia da livre iniciativa só existe devido à intervenção do Estado.

A única coisa que eles fizeram nos últimos 10 anos é transformar o gigantesco buraco negro das finanças privadas dos bancos em um enorme buraco negro das finanças públicas, com cortes e ataques ao padrão de vida em todos os lugares. Quando surgir a próxima crise, que está em preparação, na minha opinião, eles não poderão mais recorrer a esses recursos. A mesma coisa com a taxa de juros, que atualmente está próxima de zero. Os capitalistas estão em uma situação difícil. E eles estão muito pessimistas.

O senhor prevê uma nova crise, e o cenário atual na Europa está marcado pelo crescimento de partidos de extrema direita que demonstram ser eleitoralmente competitivos. O que podemos esperar dessa combinação?

Bem, na França, Marine Le Pen perdeu. O problema é que existe uma polarização à direita e à esquerda. Na Grã-Bretanha, você tem o fenômeno de Jeremy Corbyn, e na Espanha, o Podemos. Na Grécia, surgiu o Syriza. O problema é o colapso do centro que originou a situação atual de polarização. É o que acontece na Alemanha. Esperava-se o que aconteceu com o partido Alternativa para a Alemanha, à custa dos social-democratas e democrata-cristãos. Mas se você reunir a esquerda e os verdes, eles têm mais votos do que o Alternativa para a Alemanha.

Mas não se trata de juntar votos, mas do número de pessoas que optaram por um partido xenófobo e racista e do fato de que a extrema direita voltou ao Parlamento depois de 70 anos.

Precisamos ver de onde vêm esses votos. Eles vêm de um colapso dos votos dos democrata-cristãos de Merkel e dos social-democratas. O problema fundamental é que as pessoas estão procurando desesperadamente uma saída para a crise. E na medida em que a esquerda decepciona as pessoas, há um giro à direita. O contrário também acontece. Este é o caso de Corbyn, Bernie Sanders e Jean-Luc Mélenchon.

O senhor acredita que a extrema direita está ganhando a batalha pelo eleitorado?

Isso depende. O pêndulo gira e o que temos são giros violentos. Na França, por exemplo, o Partido Socialista ganhou as eleições anteriores por uma esmagadora maioria. Acontece que decepcionou as pessoas e isso preparou o ascenso da direita. Mas Le Pen perdeu e Mélenchon ganhou muito. No caso do Syriza, por outro lado, o que vemos são as limitações do reformismo de esquerda. A crise é tão profunda que não admite soluções pela metade. Ou a esquerda toma as medidas necessárias para nacionalizar e expropriar os banqueiros ou não há nenhuma solução.

As tensões entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos estão aumentando. A guerra na Síria continua. O senhor acredita que pode haver algum confronto maior que envolva outros países?

Uma guerra mundial é algo totalmente descartado por uma questão de equilíbrio de forças. A Coreia do Norte é um país pequeno e pobre da Ásia, é um pigmeu. Os Estados Unidos são o país mais rico e poderoso da história. Eles têm muito mais armas nucleares do que a Coreia do Norte e o resto do mundo. E, no entanto, são impotentes contra a Coreia do Norte. O que podem fazer? Militarmente não podem fazer nada. Os norte-coreanos estão constantemente provocando. E todos fazem muito barulho. Especialmente Trump, que não é o político mais inteligente do mundo. Os norte-coreanos riem dele. No Oriente Médio, os Estados Unidos sofreram uma derrota. Quem governa na Síria são os russos e os iranianos. Mesmo que não gostem, eles devem aceitar essa realidade.

A mesma coisa aconteceu quando a Rússia ocupou a Crimeia. Eles fazem muito barulho, muitos protestos. O que isso significa na prática? Putin colocou a Crimeia no bolso. Obama quis intervir na Síria e não podia por causa da oposição do povo, que está cansado de aventuras militares. A mesma coisa aconteceu na Grã-Bretanha. A situação é complicada, mas os capitalistas não fazem guerras para se divertirem. Eles fazem guerras para conquistar mercados e esferas de influência. Hoje é um jogo muito arriscado, especialmente quando há armas nucleares envolvidas.

Na América Latina, estamos vivendo um giro para a direita depois de uma década de governos de esquerda. Quanta responsabilidade existe nesses projetos e quanto de esgotamento de um ciclo?

O que eu disse sobre a Grécia é aplicável à Argentina. Na medida em que Cristina Kirchner decepcionou as pessoas, preparou a vitória de Macri. Mas Macri não tem muito futuro, porque ele não tem nada a oferecer ao povo argentino. O mesmo se pode dizer sobre o Brasil. A Venezuela é um caso dramático. Na Venezuela havia, sim, uma revolução, sobre isso não há dúvida. Eu penso que Chávez queria fazer a revolução, mas não sabia como. Ele estava cercado por burocratas e reformistas. Eu disse a Chávez, e o repeti em reuniões de massas e na televisão, que não se pode fazer uma revolução pela metade. Ou seja, a revolução acaba com a burguesia, os banqueiros ou os capitalistas ou eles vão acabar com a revolução. Infelizmente, é a segunda opção que se está cumprindo.

O senhor realmente acredita que há uma revolução na Venezuela?

Havia. Trotsky explica que uma revolução é uma situação em que as massas começam a participar da política e a tomar o seu destino em suas mãos. Eles poderiam ter obtido êxito na Venezuela. Mas, novamente, trata-se de um problema de direção.

O que deu errado, então?

Na Venezuela, houve coisas interessantes. Houve uma reforma agrária parcial e foram feitas reformas na educação e na saúde. Mas a questão central era a expropriação de capitalistas, proprietários de terras e banqueiros. Isso não foi feito. Eles tentaram combinar economia planejada e economia de mercado, algo impossível. Isso produziu uma situação caótica, que favorece a direita e a contrarrevolução.

Também não ajuda o fato de ser um país dependente do petróleo e não ter uma produção diversificada. A queda do preço do petróleo é um fator muito importante na crise. Mas há também uma sabotagem sistemática por parte dos capitalistas e um caos gerado pela economia de mercado. As limitações do reformismo são aquelas que não permitem o progresso em direção a um socialismo real.

Cuba está em um processo de reformas. Para onde esse processo vai levar a Revolução?

O socialismo em um único país é impossível. Se não foi possível na Rússia ou na China, como pode ser em uma pequena ilha? Menos ainda em uma ilha tão próxima dos Estados Unidos. Os imperialistas americanos têm sido muito curtos de visão, porque foi o embargo que fortaleceu o regime. A melhor maneira de derrotar a Revolução Cubana seria abrir o comércio e os investimentos, que era a ideia de Obama. Com Trump dá-se o contrário. Cuba não pode existir sem a revolução socialista na América Latina. Se a revolução venezuelana fracassar, os cubanos estarão em uma situação muito difícil.

A democracia e o capitalismo são compatíveis?

Obviamente são compatíveis, porque assim tem sido durante muito tempo. E, do ponto de vista da burguesia, é o sistema mais eficaz para controlar a classe trabalhadora. Acontece que, na medida em que existe uma ameaça de luta de classes, todos os países restringem os direitos cada vez mais. É inevitável que isso aconteça. Eles estão se preparando para um confronto sério.

À esquerda do trabalhismo

Alan Woods define-se como um revolucionário convicto e militante. Em apresentações e debates, ele defende a causa com veemência e opiniões convincentes. Diante do microfone, antes de concluir suas intervenções, ele encoraja o público a mudar urgentemente o estado de coisas. Mas a revolução não é a pregação de Woods, mas a sua obsessão. E o é desde a adolescência, quando entrou no Partido Trabalhista, em um momento em que ser um jovem trabalhista significava essencialmente ser um jovem socialista.

Woods, nascido em Swansea, no sul do País de Gales, cresceu num mundo que passou diretamente de uma guerra mundial para uma guerra fria. Embora o cenário resultante não tenha dissipado o medo de um novo confronto, pelo menos assegurou que as tensões e a exasperação fossem administradas com maior cuidado pelas superpotências. Para a geração de Woods, essa frágil estabilidade foi um convite para colocar o mundo de cabeça para baixo.

O modelo para a transformação, ou para a revolução, estava no triunfo bolchevique de 1917. Woods mergulhou nos estudos marxistas e formou-se em filologia russa e eslava nas Universidades de Sussex, Sofia e na Estatal de Moscou. Foram muitos os anos investidos na compreensão de cada um dos fatores que levaram o povo russo a derrubar o antigo regime para aplicar um modelo diferente de sociedade e de produção. Para aplicá-lo com as suas mãos. E Woods, um dos mais destacados intelectuais da esquerda britânica, explica isso em seus livros Lênin e Trotsky, o que eles realmente defenderam, Bolchevismo, o caminho para a revolução e O marxismo e a questão nacional.

Não é que as posições de Woods se radicalizaram, mas a implosão da União Soviética desconcertou os partidos de esquerda. O trabalhismo reorientou sua estratégia pelas mãos do ex-primeiro-ministro Tony Blair, que afastou os sindicatos da cena, dirigiu as reivindicações para o centro e amigou-se com a economia de mercado. Assim, devia preparar-se para entrar na era da prosperidade prometida pelo século XXI. Não havia mais espaço para a tendência Militant, a ala marxista do partido. Houve a expulsão de membros notáveis como Ted Grant e os camaradas começaram a brigar entre si. No meio do caos, Woods fundou a Corrente Marxista Internacional, que segue a estratégia de trabalhar a partir dos grandes partidos de massas.

Embora às vezes sinta que suas palavras são um eco no deserto, Woods sabe como reconhecer aqueles lugares onde germina a revolução. Ele apoiou o governo de Hugo Chávez, que ele chegou inclusive a assessorar, porque viu na Venezuela a possibilidade de uma mudança revolucionária. Agora ele considera que é uma oportunidade perdida, um desastre: a revolução é uma relação entre expectativas e audácia. Neste momento, a aposta é por Jeremy Corbyn, o líder do trabalhismo, um homem que fez o partido encontrar novamente as suas origens e o aproximou dos jovens. Enquanto isso, segue em pé o seu convite para sacudir o mundo.

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