França Insubmissa. A mobilização e as redes como armas

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29 Agosto 2017

Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento de esquerda radical, demonstrou que a insubmissão não perdeu sua atração e França Insubmissa se tornou a caixa de ressonância do famoso: “Que se vayan” (Dégagez) [saia], popularizada nas revoltas árabes.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 28-08-2017. A tradução é do Cepat.

Desmembrada pelo auge do macronismo e as imprevisíveis vitórias de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais de abril e maio passados e, em seguida, nas legislativas de junho, os antigos partidos de governos – os socialistas e a direita – ainda buscam sua identidade às apalpadelas. Nenhum dos dois partidos que protagonizaram a transição nos últimos 35 anos cicatrizaram as feridas de uma eleição presidencial onde o macronismo capitalizou as divisões de seus adversários, a saturação do eleitorado e as incompatibilidades ideológicas que explodiram como nunca, durante as duas disputas eleitorais de 2017.

A direita de Os Republicados ainda não encontrou líder e nem credibilidade, ao mesmo tempo em que o Partido Socialista consagra as poucas forças que lhe restam a um lento processo de reconstrução. Nesse quase vazio opositor, só uma força política se levanta com autoridade: a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon. A esquerda radical vive um de seus melhores momentos na França. Fora desta corrente, o espaço da esquerda é um monte de cinzas. Jean-Luc Mélenchon se apresenta com a única alternativa para enfrentar o “golpe de Estado social” de um “governo de ricos para os ricos”, com uma proposta de “combate” com legitimidade suficiente para avançar e juntar todas as esperanças de uma esquerda que ficou pela metade órfã.

Ao seu modo reatualizada, França Insubmissa é uma revolução cidadã em gestação. Eric Coquerel, deputado da França Insubmissa, resume o movimento assim: “Contamos com um programa que seguirá sendo atual durante vários anos. Contamos com uma estratégia, a revolução cidadã mediante as urnas, e temos um método, a adesão cidadã direta”. As bandeiras já estão dadas. O fim do verão europeu sela o começo da verdadeira batalha política. O Executivo tem uma agenda com várias medidas impopulares – a reforma trabalhista entre outras – e a esquerda radical começa por esperá-lo na rua, com uma grande manifestação que ocorrerá em Paris, no próximo dia 23 de setembro. Os sindicatos franceses também marcharam em setembro, no dia 12, mas Mélenchon decidiu manter sua própria manifestação como uma forma de encarar o presidente, cujo número de simpatizantes cai a cada mês.

França Insubmissa conta com um sólido poder de mobilização e, diferente dos outros partidos, com uma arma que soube utilizar com muita eficácia: a Internet. O canal YouTube de Mélenchon alcançou mais audiência que as televisões oficiais. A Internet e as redes sociais são a peça chave da ideia que a esquerda radical francesa tem sobre como reinventar a ação política, como evitar “o modelo tradicional” e renovar a relação entre o movimento e seus militantes. Estes se tornaram interlocutores ativos. Através de várias consultas realizadas na rede, Mélenchon criou uma relação fluida com seus militantes, onde estes se sentem parte do que está nascendo. Já houve uma consulta onde participaram 500.000 pessoas que responderam sobre os métodos de ação do movimento, as campanhas que seria necessário realizar, com quais meios e mediante qual organização.

Alexis Corbière, deputado da França Insubmissa e figura influente do movimento, explica que “se trata de um debate apaixonante, muito distante do caráter seco de A República em Marcha (o movimento de Emmanuel Macron) ou da decomposição mórbida dos partidos tradicionais”. A inovação contra a tradição corroída. Ugo Bernalicis, outro deputado da França Insubmissa, admite que “os instrumentos digitais permitem resolver muitos problemas. A plataforma cumpre todas as funções em nome das quais o partido se constituiu. A ação está livre do peso das estruturas”.

Com uma narrativa frontal e impertinente frente ao liberalismo e a rejeição a qualquer aliança com os socialistas, desde 2016, quando Mélenchon lançou o movimento ao mesmo tempo que sua candidatura presidencial, França Insubmissa foi crescendo à sombra dos temporais que açoitavam a direita de Os Republicanos e o Partido Socialista. Foi, como o próprio Mélenchon reconhece, um salto para o desconhecido que, agora, o deixou sobre uma praia feliz: ficou em quarto lugar nas eleições presidenciais, muito próximo ao terceiro, o candidato da direita François Fillon. Durante as eleições legislativas, a dinâmica foi menor, mas não o abandonou: França Insubmissa ganhou 17 deputados, muito mais que os 10 que havia conquistado em 2012 sob o rótulo de Frente de Esquerda.  Esse resultado desemboca em um duplo poder: o político e o financeiro. Graças às porcentagens obtidas nas eleições legislativas (7 milhões de votos), o movimento melenchonista receberá do Estado 4 milhões de euros até o final da legislatura. Para uma estrutura acostumada a existir com meios escassíssimos, o aporte público é uma real fortuna.

A ambição de Jean-Luc Mélenchon consiste em se tornar a única alternativa da esquerda e continuar crescendo. Sua postura é: ele ou os liberais. Um de seus conselheiros contou ao jornal Libération que “se há algo certo é que não queremos ser um partido qualquer, fechado em si mesmo. Nossos militantes permanecerão ativos no terreno e serão consultados sobre todas as grandes decisões para continuar crescendo”.

A próxima etapa desse desenvolvimento poderia ser a transformação do movimento em partido. Em dezembro deste ano ocorrerá uma convenção para decidir a forma de organização futura. Em qualquer dos dois casos, Mélenchon demonstrou que a insubmissão não perdeu sua atração. Desde o início, o movimento se situou fora das convenções, rejeitou pactos ou acordos com os demais partidos, fez das redes seu melhor aliado e, à esquerda, se tornou a caixa de ressonância do famoso “Que se vayan” (Dégagez) [saia], popularizado durante as revoltas árabes, especialmente no Egito contra o ex-presidente Hosni Mubarak.

Mélenchon fez do dégagisme uma moda e uma expressão política. É, hoje, quase o único líder que ousa pronunciar a palavra “povo” e a romper o consenso que opera como um encantamento anestésico. “Federar o povo e não as etiquetas”, disse Mélenchon. Orador inspirado e inimitável, cuja palavra liberta as energias daqueles que o escutam, é lícito admitir que, sem ele, França Insubmissa não teria alcançado os cumes aos quais chegou. Ao menos neste chato e regulado boulevard da política mundial, habitado por conselheiros em comunicação, existe um movimento criativo, um personagem atrevido e irredutível a todos os vícios que pouco a pouco vão esvaziando a democracia de conteúdo.

As andanças deste movimento francês podem parecer um tanto caóticas, mas se avança. Os melenchonistas sentem que estão reinventando uma revolução no coração de um sistema onde os partidos de esquerda foram incapazes de transformar a sociedade. E para transformar, primeiro, é necessário esboçar um modelo de partido totalmente oposto aos esquemas piramidais de outrora. Com muito menos dinheiro e essa ideia, França Insubmissa renovou a legitimidade e a influência política de uma esquerda que rejeita deixar vazio o lugar que lhe corresponde na história presente.

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