Biógrafo de Stalin esbarra em revisionismo

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16 Maio 2017

Stephen Kotkin coloca em dúvida a veracidade dos textos de Lenin sobre o ditador, até então unânime em outras biografias

A reportagem é de Marcelo Godoy, publicada por O Estado de S. Paulo, 13-05-2017.

O maior encanto – e risco – da biografia histórica é a ligação que se instaura e se desenvolve entre o historiador e seu objeto. Jacques Le Goff contava que se sentia distante de São Luís quando começou a estudá-lo, mas dele se aproximara à medida que analisava documentos e a produção do rei santo para sua biografia. “Não o vi em sonhos, mas creio que poderia fazê-lo.” Não se vive impunemente com um personagem como São Luís – ou Stalin – ainda mais quando “a imaginação esclarecida e controlada é necessária ao historiador”. Le Goff dizia que não se devia abandonar a noção de verdade na história. “Pelo contrário, os contínuos êxitos no desmascaramento e na denúncia das mistificações e das falsificações da história permitem um relativo otimismo.”


Capa do livro 'Stalin, Paradoxos do Poder 1878-1928', de Stephen Kotkin Foto: Livraria Saraiva.

Em seu Stalin, Paradoxos do Poder 1878-1928, Stephen Kotkin aponta mistificações em torno de Stalin: ele não era um fanfarrão, mulherengo ou ladrão. Ele resiste à tentação de explicar o déspota como resultado da violência que enfrentara em casa, do pai bêbado e das humilhações na infância, como Isaac Deutscher viu em Stalin, a História de uma Tirania. Mas Kotkin não retira o lugar do ressentimento nas decisões de homens e nações.

Ele concede ao seu personagem um papel ativo na Revolução de 1917, desmentindo Leon Trotski, biógrafo e rival de Stalin. Mas isso Deutscher já havia feito – e melhor –, assim como Dmitri Volkogonov, em Stalin, Triunfo e Tragédia. O que nenhum deles fizera, nem mesmo o conservador Richard Pipes, foi pôr em dúvida a veracidade do testamento de Lenin e considerar falsos alguns dos últimos escritos do bolchevique, nos quais Lenin se pôs em colisão com Stalin, pedindo sua destituição da secretaria-geral do PCUS. O documento assombrou Stalin durante sua vida. Em um pós-escrito, Lenin disse: “Stalin é por demais rude (...) Proponho que os camaradas encontrem uma maneira de retirá-lo dessa função.”
Após sair no New York Times (traduzido por Max Eastman) em 1926, o testamento teve de esperar 30 anos para ser conhecido do público soviético. Com Kruchev, ele foi incluído na 5.ª edição das Obras Completas de Lenin. Kotkin alega que não há registro estenográfico ou qualquer documento que garanta sua veracidade. Diz que ele pode ter sido obra da mulher de Lenin, Nadejda Krupskaia, e levanta a hipótese de um complô de Trotski. Tenta achar falsificação onde a historiografia não vê. “Minhas pesquisas revelaram que Stalin foi a visita mais frequente de Lenin em 1922. Ele se tornou autoconfiante e passou a agir por iniciativa própria o que levou ao conflito com Lenin”, escreveu Pipes, que se disse surpreso com a decisão de Kotkin em pôr em dúvida os textos de Lenin.

O historiador Oleg Khlevniuk nos dá uma pista sobre a escolha de Kotkin: ela é baseada na obra de seu colega V. A. Sakharov. Em seu Stalin, New Biography of a Dictator, Khlevniuk aponta Sakharov como um “revisionista” que desde 2003 duvida do testamento. “A mais forte evidência da autenticidade das notas ditadas por Lenin é que nenhum dos camaradas de Lenin, incluindo Stalin, tinha dúvida disso. Stalin, por meio do controle do aparato e da influência sobre o círculo íntimo de Lenin, tinha como evitar ser vítima de uma falsificação. Ele sentia o perigo do testamento e sofreu muito para neutralizá-lo.”

O termo revisionista é forte, mas correto. A tese de Sakharov está em Politicheskoe Zaveshchanie Lenina: Real’nosti i Mify Politiki (Testamento Político de Lenin: Realidade e Mitos da Política). Recentemente, em entrevista, ele afundou-se mais ainda no revisionismo ao abordar o massacre de oficiais poloneses em Katyn, crime ordenado por Stalin em 1941. Segundo Sakharov há duas versões no caso: “a germano-fascista, adotada pela Europa, pela Polônia e, infelizmente, pela Federação Russa, e a segunda, a soviética, vigente até a Perestroika.” Aqui não há duas versões: há uma falsificação stalinista e a verdade, que não é “fascista”. Kotkin podia não saber quem era sua fonte. Pode ser mesmo que isso fosse irrelevante para o exercício de sua “imaginação esclarecida”. Mas se associar de forma frágil a uma ideia revisionista não faz bem a nenhuma biografia. A originalidade e a luta contra a mistificação têm seus limites.

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