Vietnã & um século de ensino católico sobre guerra e paz

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04 Outubro 2017

"No contexto do nosso debate político-teológico sobre a natureza do ensino da Igreja a respeito de questões sociais, este século de desenvolvimento na visão católica da guerra nos lembra que, para o catolicismo, a atividade diplomática da Santa Sé é parte integrante do pensamento da Igreja: sobre paz e guerra, desenvolvimento social e econômico, direitos humanos" escreve Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por Commonwealth, 28-09-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

A Guerra do Vietnã, o documentário de 18 horas de Ken Burns e Lynn Novick, no ar no canal PBS, apresenta uma nova perspectiva sobre a guerra e seu papel no desenvolvimento da tradição cristã. Apesar de o documentário menosprezar o papel da religião na sanção da guerra e protestos, traz uma visão particularmente interessante para os historiadores da Igreja e os estudiosos religiosos (incluindo este, que agora está lecionando a um pequeno grupo de maravilhosos sacerdotes e freiras vietnamitas em um curso de pós-graduação).

Por um lado, ajuda a considerar a relação entre a guerra e o período pós-Vaticano II em que ainda vivemos. A guerra do Vietnã foi a primeira pós-Vaticano II e pós-Pacem in Terris. O papado de Paulo VI teve que lidar com posições diferentes acerca do Vietnã dentro da Igreja, mesmo entre os principais cardeais - o anticomunista patriótico Cardeal Francis Spellman, de Nova York, por exemplo, contra um dos quatro moderadores do Vaticano II, o Cardeal Giacomo Lercaro, de Bolonha. Lercaro foi demitido de sua diocese em fevereiro de 1968 (fato sem precedentes na época e jamais repetido desde então) porque suas posições públicas representavam um obstáculo aos esforços diplomáticos de Paulo VI para ajudar a acabar com a guerra.

Hoje, no catolicismo global, há diferenças notáveis na compreensão da moral da guerra e da relação entre a Igreja e os militares. A cultura de paz católica nos Estados Unidos permanece identificada com figuras-chave como Dorothy Day e os irmãos Berrigan, como proféticas e diferentes da maioria dos Estados Unidos e inteiros na postura contracultural do catolicismo estadunidense. Na Europa, a teologia católica pós-Vaticano II une-se fundamentalmente à cultura europeia secular e mainstream na rejeição da ideia de guerra como por vezes inevitável e algo com que a Igreja e a teologia têm de lidar. O cristianismo estadunidense e o catolicismo institucional têm estilos diferentes, mais pragmáticos, que podem moldar as diferentes culturas institucionais do catolicismo. Por exemplo, seria inimaginável que um episcopado europeu elegesse o prelado da Arquidiocese dos EUA para Serviços Militares para presidente da conferência da Comissão de Justiça Internacional e Paz dos bispos do país, como aconteceu com a USCCB em novembro passado. Este é apenas um exemplo de como o catolicismo é diferente de cada lado do oceano.

Mas, dentro do catolicismo pós-Vaticano II, há também uma divisão sobre o papel da história na doutrina da Igreja - isto é, se eventos históricos "seculares" (neste caso, história política e militar) devem ou não impactar a teologia católica. O Papa Bento XVI criticou esta consideração de eventos históricos no desenvolvimento da doutrina em seu famoso discurso das "duas hermenêuticas", em dezembro de 2005. Boa hermenêutica, disse ele, respeita a natureza da Igreja como única filosoficamente e inalterada em sua essência através da história: "A Igreja, tanto antes como depois do Concílio, era e é a mesma Igreja, única, santa, católica e apostólica, viajando no tempo; continua 'sua peregrinação em meio às perseguições do mundo e às consolações de Deus', proclamando a morte do Senhor até que ele venha a nós". Era uma visão da Igreja como praticamente intocada e inalterada pela história secular - o que era notável vindo de um papa nascido e criado na Alemanha nazista.

Por outro lado, o documentário ajuda a examinar como o anticomunismo ajudou a moldar uma visão de mundo compartilhada por muito tempo nos Estados Unidos e no Vaticano. A compreensão do presidente Lyndon Johnson sobre o papel do comunismo na Guerra do Vietnã não era diferente da compreensão trazida por João Paulo II e pelo Cardeal Ratzinger à questão da teologia da libertação latino-americana na década de 80. O que era no Vietnã uma mistura complexa de ideologia comunista e libertação nacional era na América Latina uma combinação de libertação político-social de regimes opressivos e de um catolicismo colonialista que, nos anos 70 e 80, era baseado na análise marxista. Esse alinhamento político-ideológico entre os EUA e o Vaticano sobre o comunismo teve um efeito na interpretação de importantes eventos eclesiais. A dificuldade de reconhecimento do Vaticano do martírio de Oscar Romero, por exemplo, deve-se à oposição – de natureza essencialmente política - de cardeais da América Latina, mas também de Roma. O mundo mudou desde então, com os alinhamentos geopolíticos e ideológicos enfraquecendo-se e, por sua vez, levando à crise atual nas relações entre o Papa Francisco e importantes setores do catolicismo estadunidense. A mudança no Vaticano advém, em partes, do fim do comunismo patrocinado pelos soviéticos na América Latina entre 1989 e 1991, mas muito mais das eleições, uma geração depois, do papa latino-americano Francisco, cuja experiência com o comunismo diferiu consideravelmente da de seus predecessores. A geopolítica de Francisco resulta de um tipo diferente de análise dos sistemas sociais e políticos, e isso representa um desafio à ordem mundial imposta pelo Ocidente e às ortodoxias do capitalismo de mercado livre que apoiam essa ordem mundial. Este é um elemento significativo no problema dos conservadores estadunidenses com o papa Francisco. O impacto de seu pontificado não é apenas uma questão de convicções políticas diferentes de seus predecessores, mas também de uma mudança geopolítica para o catolicismo global. Roma é o epicentro desta mudança, mas os Estados Unidos são onde mais é sentida, tanto política como eclesialmente.

O documentário ajuda a explicar como o anticomunismo formou uma visão de mundo compartilhada pelos Estados Unidos e pelo Vaticano

A Guerra do Vietnã também nos ajuda a pensar sobre o papel das guerras no desenvolvimento da doutrina e do magistério. A Guerra do Vietnã é parte integrante da história teológica do período pós-Vaticano II, na medida em que ocorreu após o fim da era da justificativa teológica para a guerra. Recentemente, tivemos dois exemplos que confirmam a mudança fundamental que ocorreu no catolicismo moderno: um foi a reação do catolicismo italiano (incluindo alguns bispos) contra a escolha do Papa João XXIII, o papa da encíclica Pacem in Terris, como padroeiro do exército italiano; outro foi a ratificação pela Santa Sé do novo tratado que proíbe armas nucleares.

A Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial também tiveram um impacto profundo na teologia católica e no magistério. A Primeira Guerra Mundial gerou mudanças não apenas na doutrina da "guerra justa", mas, de forma mais ampla, na visão teológica da guerra no ensino católico. O pedido do papa Bento XV, em 1917, aos líderes dos povos em guerra foi uma iniciativa diplomática falida (não teve impacto no curso da guerra), mas sinalizou uma mudança notável na linguagem papal sobre a guerra. O apelo deixou claro que Bento XV não acreditava que simplesmente tivesse que pedir aos católicos que orassem pelo fim da guerra e entendeu que não fazia sentido - diante do estado de guerra - se limitar a pedir aos combatentes que respeitassem os edifícios da igreja e os ministros de Deus. Na verdade, ele fez um apelo direto por uma solução diplomática para acabar com a guerra. A guerra não é mais interpretada como castigo divino contra um mundo moderno que se afastou de Deus; em vez disso, a Santa Sé torna-se um agente diplomático a favor do multilateralismo e da negociação. Se a Primeira Guerra Mundial não foi "a guerra para acabar com todas as guerras", para o ensino papal foi o começo do fim da justificativa teológica para a guerra. Depois, cerca de 30 anos depois, os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 chocaram a teologia católica da mesma forma que levou o filósofo austríaco Günther Anders a falar sobre "uma teologia atômica" ao enfrentar o impacto das armas nucleares em nosso entendimento de Deus e religião.

No contexto do nosso debate político-teológico sobre a natureza do ensino da Igreja a respeito de questões sociais, este século de desenvolvimento na visão católica da guerra nos lembra que, para o catolicismo, a atividade diplomática da Santa Sé é parte integrante do pensamento da Igreja: sobre paz e guerra, desenvolvimento social e econômico, direitos humanos. Essa evolução na diplomacia papal, de uma abordagem próxima à atividade diplomática dos Estados-nação, foi uma das mudanças mais profundas na Igreja Católica ao longo do século passado. Os recentes e constantes apelos de Francisco para uma solução diplomática e multilateral para a crise da Coreia do Norte representam o último sinal desse desenvolvimento teológico no catolicismo contemporâneo.

Com sua carta de agosto de 1917, Bento XVI abriu um novo capítulo no papel internacional da Santa Sé. Com Pacem in Terris , em abril de 1963, João XXIII, o último diplomata papal que foi eleito papa, impulsionou os fundamentos teológicos a uma nova visão da paz e da guerra em conexão com uma compreensão católica moderna a respeito da justiça, do bem comum, dos direitos humanos, do papel da consciência, e do respeito pela liberdade religiosa de todos. Uma das grandes ironias deste momento é como uma estrutura diplomática papal estabelecida entre os séculos XV e XVI - a era do estado papal e do papa considerado rei - agora encarrega-se de aplicar e executar os princípios dos avanços teológicos do século passado. Os sentimentos antimodernos e neotradicionalistas que em alguns círculos católicos se manifestam em oposição aos ensinamentos do Vaticano II e ao papado de Francisco colocam em risco os desenvolvimentos acerca de paz e guerra dos últimos cem anos.

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