Berrigan e sua lição de vida: a fidelidade tem suas recompensas

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10 Maio 2016

Em vários momentos de sua vida, o padre jesuíta Daniel Berrigan foi desafiado por céticos e novatos à causa pacifista a mostrar os resultados do trabalho ingrato que ele vinha empreendendo. O religioso respondia que Deus nos chama à fidelidade, não ao sucesso.

A reportagem é de Tom Roberts e Patrick O’Neill, publicada por National Catholic Reporter, 07-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Enlutados marcham em 6 de maio antes da missa fúnebre do padre jesuíta Daniel Berrigan.
(Foto: CNS/Gregory A. Shemitz)

A enorme quantidade de histórias relatadas desde a sua morte aos 94 anos, em 30-04-2016 (histórias que têm a ver com as incontáveis vidas que ele profundamente influenciou) e alguns eventos surpreendentes dos últimos meses podem se combinar para corroborar a afirmação de que até mesmo a fidelidade tem as suas recompensas.

Berrigan, que deixava algumas pessoas confusas ao permanecer, ao mesmo tempo, numa comunidade religiosa e numa igreja – apesar do profundo desacordo e conflitos que tinha com cada um destes ambientes –, foi recordado nos ambientes mais tradicionais: um funeral cristão e uma cerimônia celebrada aqui na paróquia jesuíta da St. Francis Xavier Church.

O padre, poeta e ativista, viveu o suficiente para ver um papa jesuíta, Francisco, levar ao mundo a vocação cristã de ir às periferias da humanidade, onde Berrigan passou tantos dias de sua vida. Ele viveu para saber que o mesmo papa destacou dois dos antigos amigos seus (Dorothy Day e Thomas Merton, ativistas e escritores que o precederam na morte) como cidadãos americanos que servem de modelo.

E quem poderia prever, durante os seus longos anos de atuação diligente nos caminhos da resistência não violenta, que pouco antes de morrer um encontro mundial de ativistas da paz aconteceria no Vaticano? Ou que o encontro, acolhido por Francisco, iria propor um fim à “Doutrina da Guerra Justa”, abordagem que o grupo reunido no Vaticano afirmou ter perdido a sua utilidade.

De alguma forma, tudo isso parece estar em harmonia com a vida de um homem que apreciava as tensões presentes nos problemas difíceis da vida e que escreveu: “Deve-se entender a redenção como um trabalho contínuo e inacabado”. Este era um outro jeito de dizer que ele tinha uma visão de longo prazo, e a qualquer um que precisasse se convencer de que o trabalho no longo prazo tem as suas recompensas, as provas eram abundantes.

Daniel e Philip

Em sua homilia, o padre jesuíta Stephen Kelly, que passou mais de uma década na prisão por ter participado de protestos não violentos, relacionou, “numa ruptura com a convenção fúnebre”, Daniel com o seu irmão, Philip, falecido em 2002. Os dois primeiro ganharam a atenção nacional na ação de 1968 em que eles e sete outros queimaram documentos da Segunda Guerra Mundial em Catonsville, Maryland, em protesto contra a Guerra do Vietnã. Eles acabaram se envolvendo e inspirando inúmeras outras ações, bem como o movimento chamado Plowshares Movement, de protesto contra as armas nucleares e as guerras subsequentes no Afeganistão e Iraque.

Segundo Kelly, a vida destes dois homens perguntava: “Será que iremos permanecer num estado de estupor catatônico, adormecidos, bêbados, inconscientes, numa existência que não mostra sinal algum de vida? Permaneceremos neste Estados Unidos da Amnésia? Será que iremos chegar à perdição, ao domínio da morte com as nossas liberdades jamais usadas, intactas? O que há de bom estarmos paralisado pelo medo? Libertos, mas sem amar.

Disse que os dois “expuseram a aliança histórica dos líderes religiosos, dos que foram nomeados pastores, em conluio com as estruturas de dominação. Abençoar bombardeios não tem lugar nos planos de Jesus. O poder imperial da Pax Romana encalhou sobre os bancos de areia da firmeza cristã. Mas, ao longo dos séculos, o que era um círculo fechado de excluídos e mártires dissolveu-se e ganhou o poder a que deveria resistir. O poder que deveria ser enfrentado.

Daniel e Phil uniam, ilegalmente, aqueles chamados a sair cativeiro, dos limites do poder”, disse. “Eles correram o risco da retaliação daqueles que estão em dívida com a morte. Tocaram no ídolo do Estado. Inspirados, eles e outros recobraram o lugar do objetor de consciência ao imitar o amor de Cristo, assegurado no documento do Vaticano II Gaudium et Spes, mas mantiveram em segredo nos ambientes pastorais locais”.

No começo de sua homilia, Kelly fez os presentes soltarem uma risada e aplaudirem quando, ao fazer referência ao breve período que Berrigan ficou foragido do FBI: “Podemos deixar a saber os membros do FBI aqui presentes hoje que esta é a missa fúnebre da Ressureição de Daniel Berrigan, então estas pessoas podem completar e talvez concluir os seus casos”.

A cerimônia foi precedida por uma marcha de cerca de 200 pessoas, incluindo uma banda de metais, sob chuva, indo do centro até a comunidade de St. Francis Xavier. Numa bela ironia, a missa ocorreu na arquidiocese de onde Berrigan fora, quando jovem padre, banido por causa de sua associação com os protestos à Guerra do Vietnã e outras iniciativas ativistas.

Aqui, o santuário repleto com mais de duas dúzias de padres, incluindo o bispo auxiliar emérito Thomas Gumbleton, de Detroit, e liderados pelo provincial jesuíta John J. Cecero, esta vida clerical mais que incomum foi celebrada num ambiente bem tradicional. Textos antigos e orações forneceram uma base familiar sobre a qual os temas que ocuparam a vida de Berrigan foram revisitados.

Uma narrativa de lutas

A assembleia pode muito bem ter sido uma espécie de foto de turma de ativistas católicos de uma certa geração, esmagadoramente branca e grisalha, mergulhada na narrativa das grandes lutas político-religiosas da década de 1960: atuando contra a guerra no Vietnã; no calor da campanha pelos direitos civis; os participantes de infindáveis vigílias, protestos e atos de desobediência civil contra a ameaça persistente das armas nucleares e da nova era das guerras de escolha. Registros de prisões nesta congregação foram muitos, e, com Berrigan, viu-se a imagem chocante de um padre algemado na prisão, um distintivo de honra, não de vergonha.

Na noite anterior, durante os eventos em torno das formalidades do funeral, durante a marcha e na recepção que se seguiu na escola da paróquia, o ambiente era calmo, com as histórias de conversão, de como Berrigan deu, aos participantes dos retiros e aos seus leitores de sua abundante obra literária, novas maneiras de compreender o que significa ser cristão e católico nos EUA.

Jim Wallis, fundador e presidente da revista Sojourners e autor de “America’s Original Sin”, obra que trata do racismo nos Estados Unidos, credita a Berrigan o fato de ter mantido a sua fé. Expurgado da igreja evangélica de maioria branca em que participava na adolescência por motivos de cor – ele ouviu de um membro mais velho que “o cristianismo nada tem a ver com racismo –, acabou envolvendo-se profundamente com movimentos que buscavam transformações sociais, mas sem referências à religião. “Eu não conhecia nenhum cristão que fosse contra a Guerra do Vietnã”, disse. Na faculdade, no final da década de 1960, ele ouviu falar do Pe. Berrigan e disse que o padre “ajudou a pavimentar o caminho para eu voltar à igreja” e, finalmente, levar a sua fé à esfera pública.

Nos anos que se seguiram, Wallis e Berrigan passariam longas horas conversando na casa do amigo em comum, William Stringfellow, em Rhode Island. “Tinha este cristão”, falou Wallis sobre Berrigan, “que era contra ao que os meus irmãos na igreja me disseram e que levou a sua fé para o ambiente público. E eis o que tenho feito desde então em minha vida”.

A Irmã Theresa Kane, conhecida por sua acolhida do Papa João Paulo II nos EUA em 1979 ao pedir-lhe que abrisse todos os ministérios da Igreja às mulheres, conheceu Berrigan num retiro que ele deu em sua comunidade e por meio de seus escritos. Anos depois de se conhecerem em pessoa, eles se viram ocasionalmente em eventos onde os dois estavam palestrando ou participando de painéis. “Sabe, a gente fala de algumas pessoas como tendo sido ungidas por Deus”, disse a religiosa. “Acho que ele, muito cedo, percebeu a militarização do nosso planeta. Realmente acho que ele foi ungido por Deus para nos levar a uma compreensão mais profunda da paz. Acho realmente que ele foi escolhido”.

Ela lembrou um diálogo em que perguntou a Berrigan onde ele se colocava quanto à questão das mulheres na Igreja. “Ele me disse: ‘Até o momento em que as mulheres não estiverem plenamente integradas a esta igreja, toda vez que subo ao altar eu me sinto desconfortável’”. Kane juntou-se aos aplausos quando Ellen DeMott Grady ofertou não só um pedido pela igualdade feminina na Igreja durante as orações dos fiéis. “Daniel aprendia com as mulheres. Ele as escutava”, disse Grady. “Ele valorizou e incentivou vários atos de resistência à violência do sexismo. Abriu espaço para elas no altar e foi um defensor dos dons femininos – liturgicamente e em outros sentidos. Nós ofertamos uma oração pela igualdade, pelo rosto feminino do divino a ser visto, ouvido e atendido”.

O seu irmão, John Grady, de Ithaca, Nova York, lembrou as vezes durante a sua infância em que Berrigan ia celebrar a missa nas reuniões de família. Os irmãos Berrigans e o pai de Grady eram os principais organizadores por detrás das dúzias de atos em oposição à Guerra do Vietnã. “Fico feliz quando lembro disso tudo; feliz por ter nascido naquela família e vivido naquela comunidade”, disse Grady. “O que eles nos deram foi um profundo amor, um profundo respeito e muita alegria”.

O Rev. Bill Wylie-Kellermann, pastor da Igreja Episcopal de St. Peter, em Detroit, esteve com Berrigan quando este deu um curso sobre o Apocalipse de João. Wylie-Kellerman disse acreditar que as manifestações em Catonsville foram um ponto de inflexão nos esforços contra a Guerra do Vietnã. “Daniel e Phil trouxeram a Igreja para dentro da luta contra a guerra, e isso com certeza me influenciou. Foi aí que se deu o meu chamado ao discipulado e à resistência não violenta”.

John Schuchardt, que fez parte do primeiro protesto conhecido como Movimento Plowshares com os Berrigans em 1980, veio de Ipswitch, Massachusetts, para o velório e funeral. Ele recorda o momento em que ele e sua esposa, Elizabeth McAlister, foram apresentados a Phill Berrigan como um momento “importante, fundamental, em que uma porta se abriu, um passo foi dado. Isso nunca teria acontecido sem Daniel Berrigan.

“As pessoas o tem como um líder”, Schuchardt. “Eu o tenho como um seguidor. Ele foi um seguidor do Espírito Santo, e nós todos estávamos buscando seguir o Espírito Santo, então havia uma harmonia incrível. É isso o que eu lembro”.

Pat Lowry era professor secundarista em Ohio no ano de 1981 quando se deparou com uma divulgação para um retiro com Berrigan no Centro de Retiros Kirkridge, na Pensilvânia. Nos 28 anos seguintes ou mais, ele participou de oito destes retiros, mesmo depois de ter se envolvido na carreira política de seu ex-aluno e hoje um congressista, Tim Ryan. Lowry, assessor de Ryan, viajou de carro durante a noite para participar do funeral.

Segundo ele, os retiros e o trabalho na política são uma extensão do envolvimento precoce na região de Youngstown, com grupos pacifistas e outras iniciativas de justiça social. Lowry disse reconhecer que “sempre há tensões e contradições” entre o retiro na montanha e as exigências da vida diária, que envolve trabalho e educação dos filhos. Conta com o consolo num escrito de Berrigan: “Não se trata de resultados, mas de fazer a coisa certa. (...) Como católico, a minha relação com a Igreja tem sido um tanto tênue”, falou. “Sou um homem de pouca fé, disposto a pegar uma carona com os que a tem”.

Tio e irmão

Em vários momentos, a eulogia foi feita por diferentes pessoas do entorno de Berrigan: Elizabeth McAlister, Frida, Jerry e Kate Berrigan, e Carla Berrigan Pittarelli. Começou com McAlister, esposa de Philip e há muito uma pessoa ativa na resistência não violenta, repetindo algumas das frases de uma nota publicada pelo grupo de ativistas católicos que, em 1968, queimou registros documentais em protesto à Guerra do Vietnã conhecido como Catonsville Nine, explicando as motivações do ato:

“Pedimos desculpas, bons amigos, pela quebra da boa ordem, pela queima de documentos ao invés de crianças (...) Não poderíamos fazer, Deus nos ajude, diferente”.

“Nós dizemos: matar é desordem; vida, comunidade e altruísmo é a única ordem que reconhecemos. A bem da ordem, corremos o risco de perder a nossa liberdade, o nosso bom nome. Escolhemos dizer, com o presente da nossa liberdade, se necessário for até com as nossas vidas: a violência pára aqui, a morte pára aqui, a supressão da morte pára aqui, esta guerra pára aqui”.

A descrição do padre radical, no entanto, contrastou-se com aquela de um tio bondoso gracioso e sempre interessado. Aquele que passaria horas com a sobrinha para achar sapatos novos e uma nova carreira em Nova York; aquele que traria para casa pequenos presentes e lembranças de suas viagens; que cozinhava e sorria às dúvidas; que escutava; que gostava de passar horas nos museus da cidade. Ele foi o autor cuja escrita se ligou a um outro sobrinho seu. Foi um entusiasta das artes: as paredes de onde morava eram ricamente decoradas. Ele levava os mais jovens ao telhado de seu prédio na Rua 98 para que pudessem ter uma visão única de Nova York, a cidade que amou. Na presença de seus irmãos, ele dava risadas até doer a barriga, até que um deles finalmente levantasse uma garrava de uísque, declarando: “Somos os melhores!”.

Ele era aquele que, lembrou McAlister, durante os encontros de Natal daria início a uma discussão sobre um assunto que estava atraindo a atenção ou interesse da família e então perguntava: “Hoje em dia, o que lhes traz esperança? O que vocês estão fazendo que lhes dá esperança?”

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