Cardeal dos EUA ''está jogando um jogo perigoso''

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27 Agosto 2012

Dolan, estudante de história, deve entender que a polarização na Igreja e na cultura cívica atingiu níveis que se aproximam de um caso único, ao menos nos últimos 100 anos. As complexidades dessas situações são agravadas, é claro, pelo entrelaçamento sem precedentes da religião na política dos Estados Unidos.

Publicamos aqui o editorial do jornal National Catholic Reporter, 24-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A noção de que os bispos católicos dos Estados Unidos não se envolveram na política historicamente ou não deveriam se envolver na política é, em primeira instância, uma ficção e, em segunda instância, um absurdo.

Sem nenhum insulto destinado à pacífica seita, os católicos não são amishes, dos quais há muito a admirar e que, no longo prazo, podem ser os melhores representantes do reino de paz. Mas os amishes são relativamente autossuficientes. Eles procuram mais escapar do que se envolver na cultura dominante; eles não aspiram a grandes instituições, nem reivindicar tradições de arte e de esforço intelectual que influenciaram civilizações ao longo dos milênios.

Os exemplos extremos servem apenas para ilustrar que a Igreja Católica aspira a ser uma forte presença na cultura, para influenciar uma mudança sistêmica, para argumentar e para persuadir ao que ela considera as opções mais amorosas e justas para a sociedade humana. Em síntese, ela é uma jogadora – sempre foi e presumivelmente sempre será.

Nesse contexto, a aparição na Convenção Nacional Republicana do cardeal Timothy Dolan, de Nova York, presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, faz parte de uma longa tradição. Como relatado no NCR, os católicos de todos os níveis – desde cardeais arcebispos para baixo – foram convidados a rezar em convenções de ambos os partidos. Dolan afirma que ele irá participar apenas para rezar, que não se trata de um endosso a Romney, nem de um gesto partidário. Veremos mais sobre isso daqui a pouco.

Mas a mesma alegação foi feita pela irmã de 86 anos, Catherine Pinkerton, que deu a bênção no encerramento da convenção democrata há quatro anos, a que nomeou Barack Obama. Pinkerton era, na época, uma ativista do Network, de Washington, um grupo que, apesar de representar os interesses dos pobres e não dos banqueiros milionários, no entanto, se manifestou para se beneficiar dessa estreita associação ao poder no caso de vitória de Obama. O fato de que Pinkerton era uma líder do Conselho Consultivo Católico Nacional para a campanha presidencial de Obama não a impediu de afirmar que a sua aparição na convenção para rezar era apartidária.

Ok, então o cardeal arcebispo de Nova York tem um perfil de maior destaque e um pouco mais de influência do que uma de irmã de 86 anos de idade ativista pelos pobres e desprivilegiados. A questão é que a Igreja em muitos níveis tem interesses a proteger, e os católicos entendem isso. A Igreja, por exemplo, pode com justiça afirmar ser a maior dispensadora de serviços sociais do país somente porque ela faz isso com milhões e milhões de dólares de ajuda federal, certamente um fato do qual o republicano Paul Ryan está ciente.

O cardeal Francis Spellman, antecessor de Dolan em Nova York, teve um rápido acesso à Casa Branca de Dwight D. Eisenhower. O cardeal John Krol, da Filadélfia, soube como sinalizar discretamente o seu apoio a um político favorecido. Confira as primeiras páginas do agora extinto jornal arquidiocesano durante as temporadas de campanha do seu mandato.

No entanto, a questão de quem proferiu qual invocação e onde foi, no passado, de um interesse apenas momentâneo. E provavelmente seria assim este ano – os partidos políticos sempre podem encontrar um católico adequado de algum significado e de adequada persuasão para adornar o palco da convenção –, não fosse por algumas circunstâncias incomuns.

Se Dolan não queria que a Igreja fosse percebida como partidária, ele simplesmente teria dito que, se os republicanos queriam um bispo católico, eles deveriam convidar o bispo daquela região, Robert Lynch. Há inúmeros precedente para isso, e ninguém teria feito grande coisa disso. O porta-voz de Dolan disse que o cardeal aceitou o convite apenas depois de contatar Lynch. A sugestão é de que, se Lynch objetou, ele teria dito ao cardeal arcebispo de Nova York e ao presidente da Conferência Episcopal nacional para ficar longe da sua diocese. Bobagem. Foi iniciativa de Dolan aceitar. Ao contrário, ele ganhou o palco principal.

Dolan, estudante de história, deve entender que a polarização na Igreja e na cultura cívica atingiu níveis que se aproximam de um caso único, ao menos nos últimos 100 anos. As complexidades dessas situações são agravadas, é claro, pelo entrelaçamento sem precedentes da religião na nossa política.

Por isso, não é mais apenas de interesse momentâneo que o cardeal arcebispo católico de Nova York fará uma aparição na convenção republicana.

Dolan irá aparecer na noite da nomeação de Mitt Romney, o ápice de um encontro tão estritamente roteirizado e coreografado que nada no palco principal será deixado ao acaso ou à possibilidade de um significado neutro. Por toda a boa vontade e as melhores intenções de Dolan – e nós acreditamos na sua palavra de que ele percebe isso simplesmente como um padre em oração –, o resto do mundo sabe que ele está sendo usado.

Isso simplesmente faz parte de um jogo sob o holofote político, e fingir o contrário é ingenuidade. Há razões em abundância para explicar por que o Partido Republicano não procurou uma autoridade mórmon para rezar, ou um rabino, ou um ministro gay unitariano, ou uma bispa da Igreja Episcopal.

Há mais do que uma oração em jogo.

A sua aparição também ocorre sob o pano de fundo da forte oposição da Conferência dos Bispos dos EUA, com base no que acaba de se revelar como falsas premissas, à assinatura de Obama à lei Affordable Care Act.

Ela também ocorre sob o pano de fundo de uma campanha intensa e essencialmente ineficaz que acusa o governo Obama de ter colocado em risco a liberdade religiosa. Dolan, como presidente da Conferência, não fez nada para conter os pronunciamentos violentos e bastante imprudentes (e a aparição cômica no Capitol Hill) de Dom William Lori, bispo de Baltimore.

Ainda pior, Dolan deixou intocados os desvarios atordoados de Dom Daniel Jenky, bispo de Peoria, Illinois, que comparou Obama a Adolf Hitler e a Joseph Stalin.

Dolan lidera uma diocese que iniciou um processo conjunto com outras instituições católicas contra o governo a respeito do seu mandato dos cuidados de saúde, que limita a definição do que faz uma entidade religiosa e exige que todas as outras instituições forneçam serviços de contracepção segundo a lei dos cuidados de saúde.

Finalmente, Dolan sabe que tanto ele quanto o bispo Robert Morlino esbanjaram elogios ao candidato à vice-presidência do GOP [Grand Old Party] Paul Ryan, de Wisconsin. Eles são todos amigos, e embora Dolan tenha observado que é maravilhoso ter dois católicos nas chapas – o vice-presidente Joe Biden e Ryan – o arroubo de Morlino em uma coluna de jornal dirigida à sua diocese é equivalente a um endosso do candidato republicano.

Dado tudo isso, seria difícil para qualquer um construir a sua aparição como algo além de um endosso.

Na verdade, o governo tem sido desajeitado e até mesmo dúplice ao lidar com Dolan acerca do mandato dos cuidados de saúde. Várias tentativas têm sido feitas para firmar um compromisso sobre a questão, mas o governo aparentemente decidiu que nenhum acordo seria suficiente para satisfazer a todos os bispos. O cálculo político foi de que, como o governo provavelmente enfrentaria a ira episcopal independentemente do que fizesse, a melhor estratégia seria resolver a questão no tribunal algum tempo depois da eleição.

Dolan disse que se ofereceu para rezar na convenção democrata, mas não ouviu nada da parte deles. Talvez ele será um visitante surpresa.

O cenário mais provável é que o público continuará percebendo a sua presença na convenção republicana como um endosso. E não são apenas aqueles que se opõem à visita que estão tirando essa conclusão. William Donohue, da Catholic League, reconhecidamente uma das vozes católicas mais ásperas da praça pública, disse ao jornal New York Post: "Os republicanos são inteligentes o suficiente para conseguir o 'papa dos EUA', e os democratas são estúpidos o suficiente para não convidá-lo".

Donahue, é claro, não faz nenhum favor a Dolan. Ele é um partidário que rapidamente retratou o cardeal em um lado partidário.

O ex-prefeito de Nova York, Ed Koch, que apoia Obama, disse ao Post: "Os republicanos são muito inteligentes para convidá-lo".

Às vezes, os cálculos políticos funcionam. Os bispos conseguiram os candidatos que eles queriam para os governos de Ronald Reagan e de George W. Bush.

Às vezes, o tiro sai pela culatra. Durante esses mesmos 12 anos, os bispos não obtiveram nenhuma das iniciativas tão prometidas acerca do aborto feitas durante as campanhas. Eles também obtiveram pouco, a não ser uma reversão em sua agenda social, e nada, apesar das promessas de campanha, para reforçar a educação católica.

Durante esses 12 anos – e desde então – as pesquisas mostram consistentemente que os bispos conseguiram pouco no sentido de mover a agulha da opinião pública sobre a questão do aborto, seja na cultura em geral ou dentro da Igreja.

Dolan está jogando um jogo antigo, mas um jogo incrivelmente perigoso, também. As convenções não têm nada a ver com a religião, que normalmente sobe ao palco para preencher uma obrigação menor, e têm tudo a ver com a política. Ao aceitar o convite para a convenção republicana deste ano, onde a religião foi elevada a um importante papel de apoio, Dolan está arrastando a Igreja e os seus inestimáveis eleitores indecisos para o meio da disputa, ao mesmo tempo em que permite que a religião seja usada como uma ferramenta de divisão.

Seus protestos de que a sua aparição é apartidária e de que ele é apenas um padre em oração já foram submersos pela torcida partidária.

E Dolan precisa saber disso.

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