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21 Março 2011

"Assim, pois, o horror que representou para Günther Anders a metamorfose que a condição humana havia sofrido na primeira metade do século XX com o aparecimento das armas atômicas, e que pode ser caracterizada com suas teses sobre a obsolescência do ser humano, sobre a desproporção entre a nossa limitada capacidade de nos representar as consequências de nossas ilimitadas conquistas técnicas e sobre a natureza maquinal de nosso mundo atual que funciona sobre o princípio do máximo rendimento (o capitalismo), tornou-se ainda mais evidente no começo dos anos 70. Pode ser sintetizado com o título de um de seus livros Tempos do fim e fim dos tempos (1972), ou seja, a possibilidade de destruição da humanidade", escreve César de Vicente Hernando, no prólogo ao livro Estado de necesidad y legítima defensa. Madrid: Centro de Documentación Crítica, 2007.

Os fragmentos do prólogo à edição de artigos de Günther Anders, de César de Vicente Hernando, estão publicados no sítio Rebelión, 12-03-2011. A tradução é do Cepat.

Seguem extratos do prólogo.

Um artigo introdutório à obra de Günther Anders, publicado na revista italiana Comunità por Pier Paolo Portinaro (depois editado em livro), caracterizava nestes termos a razão de ser de seu trabalho crítico. Com o mesmo se colocava em relação o pensamento do filósofo alemão com os ensaios de outros dois compatriotas que, no entanto, transitavam caminhos muito diferentes: O Princípio Esperança de Ernst Bloch, que considerava a projeção utópica como ponto inicial da transformação do mundo, e O Princípio Responsabilidade de Hans Jonas, onde se apela ao temor como forma de conscientização sobre as possibilidades de escapar do perigo atômico em que a humanidade estava imersa desde 1945. Provavelmente, o termo "desesperança" se mostre mais exato se tratamos de explicar as ideias de Anders nos últimos anos de sua vida, e sempre que não o consideremos como uma questão psicológica, mas como uma atitude vital.

Acabada a Guerra no Vietnã no começo dos anos 70, os Estados Unidos, entretanto, retornaram a uma política de rearmamento com o projeto de Iniciativa de Defesa Estratégica (1983), mais conhecido como "Guerra das Galáxias"; os governos da França e da Inglaterra aumentaram suas pesquisas em armas nucleares (já de quinta geração), e vários países do mundo (Paquistão, Índia, Israel, entre outros) aderiram à produção de armas atômicas e à construção de centrais nucleares (cujo número chegou a quase 400 em 2006).

O triunfo nos principais países do chamado "bloco ocidental" de políticas liberais radicais (chamadas habitualmente "neoliberais’) favoreceu a despolitização e a desmobilização da sociedade que havia caracterizado os anos 60. De nada serviram as moratórias, os acordos assinados para limitar o tipo de armas, as grandes mobilizações cidadãs, etc. Tudo isso veio acompanhado de um processo de acumulação ideológica (a pós-modernidade) que pode ser interpretado como uma lógica cultural do capitalismo tardio (segundo ensinou Jameson), e cujas consequências Anders definia precisamente em uma entrevista de 1989, intitulada "Se estou sem esperança, não me importa": "Nem sequer cabe dizer, como se costumava dizer nos anos 50, que as pessoas aprenderam a "viver com a bomba’. As pessoas simplesmente esqueceram a bomba" (Anders, 1995: 88).

Assim, pois, o horror que representou para Anders a metamorfose que a condição humana havia sofrido na primeira metade do século XX com o aparecimento das armas atômicas, e que pode ser caracterizada com suas teses sobre a obsolescência do ser humano, sobre a desproporção entre a nossa limitada capacidade de nos representar as consequências de nossas ilimitadas conquistas técnicas e sobre a natureza maquinal de nosso mundo atual que funciona sobre o princípio do máximo rendimento (o capitalismo), tornou-se ainda mais evidente no começo dos anos 70. Pode ser sintetizado com o título de um de seus livros Tempos do fim e fim dos tempos (1972), ou seja, a possibilidade de destruição da humanidade.

A tudo isso se somaram numerosos acidentes nucleares em diferentes países. Um deles, o da central soviética de Chernobil, em 1986, constituiu um acontecimento histórico. A posição de Anders se radicalizava diante da gravidade desta situação. Em suas Dez teses sobre Chernobil afirma: "Estamos em perigo de morte em decorrência de atos de terrorismo perpetrados por homens sem imaginação e analfabetos sentimentais que são hoje onipotentes" (Anders, 2007: 160). Trata-se, pois, de uma condição preliminar para definir a relação que liga o ser humano ao direito. Anders o chama "estado de necessidade e legítima defesa", isto é, um conceito legal que exime de pena a quem age movido por tal necessidade, ou seja, por uma ação que busca salvar um determinado bem (a vida da humanidade) sacrificando outro bem de igual valor (a vida individual dos potenciais assassinos, os onipotentes).

O problema que, contudo, a tese de Anders coloca, a de ameaçar a vida dos responsáveis por essa potencial destruição como modo de defesa é, precisamente, que este estado de necessidade requer ser compreendido intelectualmente e não deriva de nenhuma situação de fato (por exemplo, quando alguém tem que repelir uma agressão que lhe pode custar a vida). Mais claramente, que existe uma "desproporção", poderíamos dizer, entre um perigo e outro.

Anders nunca renunciou a três ideias fundamentais: a primeira, a máxima socrática de que uma vida sem exame não merece ser vivida, que impulsionou justamente sua análise sobre a conduta humana. A segunda, a ideia nietzscheana de que o sistema de juízos de valor que é a moral está em relação com as condições de existência de um ser. A terceira, procedente de Kant, que sustenta que um ser racional deve pensar suas máximas, isto é, os princípios práticos de sua vontade, como leis práticas universais. É indubitável que para Anders é a situação (categoria fundamental de sua filosofia) que define esses marcos referenciais nos quais se constitui a identidade (Taylor), essa estrutura social de juízos de valor solidificada em forma de princípios objetivos (moral) e de princípios objetivados (leis), e não alguma fórmula de caráter obrigatório recebida por uma autoridade transcendente ao modo daquelas definidas pelas religiões.

Anders também distingue responsabilidades. Na mencionada entrevista de 1979, Anders dissuade o seu interlocutor, Mathias Greffrath, de considerar qualquer outra origem que não sejam os fatos para dar conta da mesma; "não me parece – disse – que os homens de hoje, que cometem tamanhas monstruosidades genocidas, sejam "piores’ que os homens de gerações anteriores. As qualidades morais do homem médio, do meu vizinho, por exemplo, que é um homem muito bondoso, seguramente não são menores que a de seus pais e avós, enquanto se trata de agir dentro de um âmbito humano que se pode abarcar à primeira vista. As consequências do que os homens de hoje podem provocar com a ajuda de nossa aperfeiçoadíssima técnica, em certo sentido, são culpa nossa". Em Além dos limites da consciência (1961), chamou o piloto de avião que jogou a bomba atômica sobre Hiroshima "culpado sem culpa". Mas em um livro posterior, Os filhos de Eichmann, de 1964, considerou que esta "condição" não era aplicável àqueles que, como o oficial nazista, puderam imaginar, e até ver, as consequências desta capacidade técnica.

Esta distinção é básica nos escritos de Estado de necessidade e legítima defesa, onde se inverte a perspectiva a partir da qual Anders começou a analisar a nossa época atômica passando de uma consideração da constituição de um sujeito moral cego que se produz nas décadas seguintes à explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki, e à qual dedica numerosos escritos e ensaios; a uma consideração da constituição de um sujeito moral consciente na década de 70 e 80, que segue o mesmo esquema da tese 11 sobre Feuerbach de Marx e que poderíamos refazer da seguinte maneira: os indivíduos se limitaram a tentar compreender o mundo atômico de diferentes modos, agora trata-se de transformá-lo até fazer desaparecer seu potencial destruidor.

Se em Mandamentos sobre a energia atômica (1957) concluía com o princípio "não podemos não poder" e a interpelação de ensinar à humanidade que "nenhuma medida que tomarmos, nenhuma destruição material destas coisas [dos artefatos e armas nucleares], jamais constituirá uma garantia absoluta; que a nossa tarefa é antes renunciar decididamente a dar o passo, ainda que sempre seja possível dá-lo" (Anders, 2007: 86), em Teses sobre Chernobil considera que "os nossos deveres são mais sérios" porque "devemos incomodar verdadeiramente esses obtusos onipotentes que podem decidir sobre o ser ou não ser da humanidade, temos que amarrar-lhes as mãos de verdade" (Anders, 2007: 160).

Esta passagem de uma consideração do sujeito moral a outra vem alimentada pela inutilidade dos atos de desobediência civil e luta pacífica organizados ao longo dos anos 50 e 60. Como alternativa, e nas precisas condições descritas nos diferentes artigos que publica na década de 80, isto é, em condições de estado de necessidade, Anders concebe a "contra-violência, cujo nome é legítima defesa".

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