''O papa chega a uma Colômbia que está pondo tudo em jogo.'' Entrevista com Laura Restrepo

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09 Setembro 2017

A atualidade de um país onde a vida é uma luta pelo mínimo necessário, a fratura que divide as classes pobres das elites que as desprezam, a literatura, a arte como lugar de encontro.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 07-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A violência, crônica há quase dois séculos, é o húmus do qual se alimentaram algumas das páginas mais sublimes da literatura colombiana. A “paz nascente”, no entanto, custa a esculpir uma linguagem própria. “Porque, por enquanto, é ação e drama. Ainda não se tornou um estado de ânimo. Espero que, mais cedo ou mais tarde, aconteça”, diz Laura Restrepo, uma das escritoras mais conhecidas da nação latino-americana.

Muitos dos seus títulos foram traduzidos na Itália, onde o seu Delirio (Ed. Feltrinelli) ganhou o prestigiado Prêmio Grinzane Cavour. Nos romances de Restrepo, ressoam o eco do realismo mágico, o gênero lançado há 50 anos por Gabriel García Márquez, com a obra-prima “Cem anos de solidão”. Macondo – o vilarejo imaginário onde ocorre a saga dos Buendía – tornou-se sinônimo da Colômbia e da sua dolorosa caminhada. “O realismo mágico é a nossa benção e maldição.”

Eis a entrevista.

Por quê?

Por um lado, nós, colombianos, temos a extraordinária capacidade de manter vivos os velhos mitos e de inventar novos. No meu país, a matéria-prima de lendas, presságios e revelações cresce como pão no forno. A Colômbia é a nação com mais loterias e “milagres” por quilômetro quadrado. Por outro lado, no entanto, o conceito de mágico aplicado à realidade pode criar perigosas distorções. O mágico é independente da vontade, chega de repente, não tem causas nem consequências. Tanto que as pessoas chamam os mafiosos de “mágicos”, capazes de acumular, de repente e sem aparentes explicações, enormes fortunas. A vida cotidiana da maioria dos colombianos, porém, está longe de ser mágica. Ao contrário, é uma luta inclemente e muito real para conquistar o mínimo indispensável: um teto, um remédio, o direito de não morrer assassinado aos 20 anos.

Você citou a violência. Um tema muito presente também nos seus romances.

De algum modo, devemos também digerir tanta barbaridade... Toda forma de civilização parte de um simples pressuposto: a vida é melhor do que a morte. Na Colômbia, séculos de ferocidade erigida a sistema abalaram esse conceito. Gerações inteiras escolheram caminhos de morte – criminalidade, narcotráfico, paramilitarismo, guerrilha – porque a vida, própria e alheia, não tem valor. Uma vez, entrevistei um dos adolescentes mercenários de Pablo Escobar. Ele se fazia chamar de El Arcángel e tinha 16 anos. Ele me perguntou: “Você não tem medo de que eu lhe mate?”. Eu lhe respondi: “Por que você deveria fazer isso?”. E ele disse: “Porque, se eu não tivesse uma pistola carregada, você nem sequer se viraria para me olhar”. A violência era o seu grito de existência. A única maneira para não ser socialmente invisível.

Como a literatura pode contribuir para construir um novo imaginário não violento para a Colômbia em vias de reconciliação?

A literatura, como toda forma de arte, é, por definição, terreno de encontro e vocação de paz. Até mesmo quando fala de guerra.

Você acha que a viagem do Papa Francisco pode ter um impacto nesse sentido?

Um forte impacto, eu diria. Em primeiro lugar, a grande maioria dos colombianos são católicos. Incluindo aqueles setores que tentam sabotar a recente paz. Espero que as palavras de Francisco consigam abrir uma brecha nas suas consciências. E acendam a confiança nos corações daqueles que estão indecisos, duvidosos, indiferentes. O acordo entre governo e guerrilha, além disso, sanou uma fratura social. Mas outra permanece em aberto. Se não a tratarmos, não poderemos ter uma paz duradoura: o abismo de desprezo das elites em relação aos compatriotas pobres. O papa, portanto, chegou a uma Colômbia que está pondo tudo em jogo. O país está em equilíbrio entre paz e guerra. O carisma de Bergoglio, a sua mensagem forte pode ajudar a fazer com que a balança penda para o “lado certo”. Eu sei que estou pedindo muito para Francisco. Mas ele sempre faz coisas grandes.

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