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08 Setembro 2017

Eram jovens de classe média, mas capazes, como nenhum outro, de falar com os camponeses. Estavam apaixonados pela Cuba de Castro, mas alérgicos ao dogmatismo soviético. Também eram padres, monges e freiras, que se alistaram às centenas. O ELN, o Exército de Libertação Nacional, desde 1964 é algo único na América do Sul. Não por acaso é a última guerrilha a resistir. E não por acaso é tão difícil negociar com seus comandantes, como vem fazendo há meses o Estado colombiano em Quito, no Equador.

É do dia 3 de setembro o tão aguardado anúncio: a partir de outubro começará o cessar-fogo bilateral. Pela primeira vez, haverá uma trégua real, apesar de temporária, de três meses: nada mais de ataques, sequestros e recrutamentos. Nada é aleatório no país de Macondo. Nem mesmo que o acordo ocorra por ocasião da chegada do Papa.

A reportagem é de Fabio Bozzato, publicada por La Stampa, 06-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A história do ELN e da Igreja são tão entrelaçadas que alguém já o chamou de "convento armado". A teologia da libertação vingou ali, como em nenhum outro lugar.

"Naqueles anos em que eu fazia parte do comando geral, havia mais de 500 religiosos apenas na estrutura interna e centenas nas organizações civis", explica León Valencia Agudelo. Cientista político, presidente da Fundação Paz y Reconciliación, fundador do jornal digital Las2orillas, Valencia foi um ativista estudantil quando foi convencido a se juntar ao ELN precisamente por um padre, Dom Ignacio Betancur. Fora da clandestinidade desde 1993, é hoje uma das vozes mais respeitadas da sociedade civil colombiana.

Um ano após a assinatura da paz com as FARC, o Papa Francisco chega à Colômbia para canonizar dois símbolos religiosos. O primeiro é Pedro María Ramirez, um pároco assassinado em 1948, no fogo inicial da feroz "violência" entre conservadores e liberais após o assassinato do presidente Jorge Eliecer Gaitán. Foi o batismo de um longo conflito que dura até hoje.

O segundo a subir aos altares é monsenhor Jesús Emilio Jaramillo, bispo de Arauca: um assassinato assinado, em 1989, justamente por uma frente do ELN, a "Domingo Laín", aliás, nome de um padre-guerrilheiro. "Tínhamos mergulhado em um abismo do qual seria difícil sair", lembra León Valencia. Os líderes do ELN assumiram a responsabilidade mesmo sabendo que era um ato covarde: "eu não queria acreditar que uma força de guerrilha que contava entre suas fileiras centenas de padres, freiras e leigos vacilasse no momento de condenar o sacrifício de um pastor da Igreja". A decisão de abandonar o ELN, para Valencia, também começou a partir daí.

Também foi um sacerdote o mais famoso dos "Elenos" (os milicianos do ELN), Camilo Torres, nascido em 1929 e morto em ação em 1966. Até hoje seu nome é respeitado em todo o país, mesmo por seus mais acirrados inimigos. Por muitos anos, outro sacerdote, Manuel Pérez, liderou militarmente a guerrilha financiando-a com sequestros, chantageando as companhias de petróleo, explodindo oleodutos e plataformas. Sua companheira era uma freira, Monica.

Fala-se que o ELN conta com cerca de 2.000 militantes. Mas a sua força são os ativistas no campo e nas cidades, nas associações sindicais, de bairro e das paróquias. "Quantos são os elenos? Poderiam ser vinte mil", afirma sorrindo Olimpo Cardenas, que dirige o jornal Periferia, claramente simpatizante do ELN: "Por isso em Quito, em primeiro lugar, a sociedade civil desempenha seu papel. Na "mesa social", a mesa de negociação das questões sociais, há porta-vozes de 83 organizações. Poderíamos dizer que em Quito estamos na mesa das negociações sem estar lá".

O topo e as bases do ELN sempre foram próximos. "Camilo Torres foi um sacerdote da elite desse país - explica León Valencia. Seu aval religioso continua a pesar sobre essa guerrilha".

Também Leonor Esguerra Rojas estava destinada a uma vida muito confortável, mas em 1949 escolheu se juntar às Irmãs do Sagrado Coração, em Nova York. Durante décadas dirigiu os prestigiados colégios Marymount reservados às meninas da alta sociedade de Bogotá e Medellín. A aproximação com o ELN veio na esteira do Concílio e das turbulências de 1968. Em sua autobiografia, "La búsqueda”, conta isso já idosa e afastada há tempo da guerrilha. De Madre Maria del Consuelo havia se tornado a companheira Socorro, de irrepreensível diretora a uma ativista armada e amante de Fabio Vásquez, o comandante do ELN, que mais tarde foi expulso e fugiu para Cuba.

Bergoglio conhece todas as nuances da idiossincrasia latino-americana. Ele não vai ficar surpreso. Certamente sua visita à pátria do "convento armado" não será fria como aquela de Paulo VI, que em 1968, em Bogotá, tinha deixado "certo sabor amargo", como recorda Leonor Esguerra, então freira e, em breve, guerrilheira.

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