Comissão pontifícia antipedofilia estuda reestruturação, e sobreviventes podem perder participação direta

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24 Agosto 2017

A comissão pontifícia que trata de abusos sexuais clericais está estudando a possibilidade de se reestruturar de uma forma que não mais inclua a participação direta de sobreviventes de abuso. O grupo está avaliando a criação de um painel consultivo em separado composto de pessoas que sofreram abuso sexual por parte do clero.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 23-08-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em entrevista ao National Catholic Reporter em 14 de agosto, uma participante da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores revelou esta informação, dizendo que um dos grupos de trabalho da comissão ficou encarregado de ponderar os prós e contras advindo de uma tal mudança.

A comissão parece que irá discutir a possível reestruturação em sua próxima reunião plenária em Roma, em meados de setembro, quando deverá expirar o mandato original de três anos dos atuais membros.

“Eu acho que a ideia pode ser um jeito mais produtivo de garantir a representação dos sobreviventes no trabalho da comissão”, disse Krysten Winter-Green, participante da comissão, sobre a potencial mudança na formação do grupo. “Não sei se é de fundamental importância que um sobrevivente precise estar, de fato, na comissão”.

“Nenhuma decisão foi tomada nesse sentido”, destacou ela, acrescentando: “Penso que as vozes dos sobreviventes precisam ser ouvidas por esta comissão. Estas pessoas precisam participar em todas as facetas do trabalho desenvolvido. Resta saber como isso se realizará. O certo é que será realizado”.

Essa consideração de uma mudança na estrutura da comissão pontifícia ocorre no momento em que o grupo vem sofrendo, nesses últimos meses, um questionamento público sobre a sua eficácia em impedir casos de abuso sexual futuros contra crianças e adultos vulneráveis dentro da Igreja. Hoje, o grupo está em meio a uma fase significativa de transição.

Seis meses atrás, a comissão perdeu a sua última participante ativa e que era sobrevivente de abusos. Marie Collins renunciou em 1º de março, citando uma frustração com a relutância demonstrada por funcionários e autoridades do Vaticano em cooperar com o trabalho desenvolvido.

Embora pareça certo que Francisco confirme a renovação das nomeações dos membros da comissão após o término dos mandatos de três anos em setembro, o membro jesuíta do grupo, o Pe. Hans Zollner, disse em junho achar que a composição do grupo passe por mudanças.

Collins, irlandesa, era uma das duas pessoas sobreviventes originalmente nomeadas para a comissão. O outro era o inglês Peter Saunders, posto em licença do grupo em fevereiro de 2016 por causa de atritos entre ele e os demais membros da comissão.

“Reconhecimento do próprio fracasso”

Winter-Green, natural da Nova Zelândia e residente nos EUA, onde trabalha prestando assessoria a dioceses e congregações religiosas, não detalhou exatamente como a comissão papal e um possível painel de assessores funcionariam juntos.

Várias conferências dos bispos já criaram entidades dedicadas à proteção de crianças e pessoas vulneráveis bem como painéis com sobreviventes que poderiam ser usados como modelos para uma possível reestruturação. A conferência episcopal da Inglaterra e País de Gales, por exemplo, tem uma Comissão Católica Nacional de Salvaguarda que conta com a assessoria de um Painel Consultivo de Sobreviventes.

O sítio eletrônico deste painel descreve a sua função como sendo a de “garantir que a Comissão Católica Nacional de Salvaguarda receba a informação apropriada e no devido tempo e assessorar a partir de uma perspectiva dos sobreviventes”.

Os sobreviventes e defensores dos sobreviventes criticaram a ideia de pôr as vítimas fora da comissão papal em favor de um painel consultivo em separado.

Peter Isely, um dos fundadores da Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres e ex-diretor do grupo nos EUA, disse que veria uma tal alteração como parte de um desejo de manter a comissão papal livre de conflitos.

“Existem milhares e milhares de sobreviventes e muitos deles são públicos”, disse Isely. “Se não se consegue trabalhar diretamente com os sobreviventes (...) na comissão, então simplesmente põem-se a discussão e o conflito de lado”.

Isely observou que a comissão em si não tem poderes de estabelecer regras, já que fica a cargo do papa aceitar ou não as suas recomendações. Disse que isso faz com que a comissão fique um passo longe do poder de criar regras, o que, consequentemente, faz qualquer painel consultivo ficar a dois passos longe deste mesmo poder.

“Deixar o painel a dos passos de distância, fazê-lo assessor de assessores, é simplesmente o reconhecimento do próprio fracasso”, disse.

“Estão apenas se desfazendo dos problemas que não foram resolvidos durante estes três anos”, completou Isely. “Não é uma solução. A meu ver, vai ficar mais difícil encontrar uma solução”.

O padre dominicano Thomas Doyle, especialista na resposta da Igreja aos casos de abusos sexuais, também comentou a ideia estudada.

“O que os participantes fariam?”, perguntou Doyle sobre a possibilidade de um novo painel consultivo. “Eles teriam algum poder? Teriam alguma influência? Alguém os escutaria? Seria apenas um painel que existe no nome simplesmente?”

“Para mim, parece que a ideia foi lançada para parecer que se está levando a sério a questão dos abusos na Igreja e que se está fazendo algo, enquanto, na realidade, trata-se simplesmente de mais uma fachada”, disse Doyle.

Francisco criou a comissão pontifícia antiabuso clerical em dezembro de 2013 por recomendação do Conselho de Cardeais. Ele nomeou os primeiros membros para a nova comissão, inclusive o seu presidente, o cardeal-arcebispo Sean O’Malley, em 22-03-2014.

O estatuto da comissão foi aprovado em abril de 2015 pelo secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin. O texto afirma que o grupo deve continuar ad experimentum por três anos, tempo depois do qual deverá apresentar possíveis modificações aos seus procedimentos operacionais a Francisco para posterior aprovação.
Doyle e Isely criticaram o trabalho como um todo da comissão e o que foi realizado desde que Francisco criou o grupo.

Doyle disse sem rodeios: “Após três anos, não tenho certeza de que fizeram algo realmente significativo”.

O padre disse que a renúncia de Collins e a declaração que ela escreveu ao National Catholic Reporter, explicando a decisão de deixar a comissão, foi a “ação mais efetiva” que resultou do grupo.

“Uma coisa que eu acho ter ficado bastante clara a esta altura é a falta de um comprometimento da Santa Sé em realmente lidar com o problema dos abusos sexuais infantis clericais”, disse ele.

Collins afirmou que a sua renúncia se seguiu imediatamente a uma recusa, de uma autoridade vaticana, em cumprir a solicitação feita pela comissão, aprovada pelo papa, de que recebessem uma resposta todas as cartas enviadas ao Vaticano pelos sobreviventes de abuso.

Isely disse que “o mais angustiante” era saber que os dois sobreviventes originalmente nomeados para a comissão haviam deixado de participar ativamente do grupo.

“Não se poderia ter alguém mais qualificado, razoável, inteligente e experiente para essa comissão do que Marie Collins”, disse. “Ela perder as esperanças (...) é uma declaração extremamente significativa a respeito da comissão”.

Ao mencionar a revelação de Collins sobre a dificuldade de fazer com que as autoridades vaticanas respondessem às cartas dos sobreviventes, Isely perguntou: “Se nem isso o papa consegue obter, o que mais ele poderá conseguir?”

“Simplesmente não há recursos suficientes”

Winter-Green, que possui doutorado em psicologia pastoral e três mestrados em teologia, desenvolvimento humano e serviço social, apontou para as outras áreas onde a comissão vem tendo sucesso. Disse que o grupo fez um grande trabalho no sentido de formar os líderes eclesiásticos em diferentes partes do mundo sobre como melhor prevenir casos de abuso.

Ela citou números que indicam que, entre 2015 e julho de 2017, os participantes da comissão ou as suas equipes fizeram 110 apresentações sobre a prevenção de abusos em 45 países.

“Um dos principais objetivos que decidimos quando nos reunimos pela primeira vez era a necessidade fundamental de formação”, disse Winter-Green.

“Continua havendo uma tremenda incompreensão, ignorância a respeito dos danos morais e psicológicos graves feitos às crianças e aos adultos vulneráveis”, disse ela. “Existe a necessidade de uma mudança de atitude, principalmente entre a hierarquia”.

A participante da comissão igualmente citou o sucesso que o grupo teve ao sugerir que Francisco criasse um dia de oração na Igreja para os sobreviventes de abuso, o que o papa aprovou.

Winter-Green declarou que o grupo de trabalho voltado à teologia e espiritualidade está atualmente trabalhando em uma liturgia da cura que pode ser usada no mundo todo. “Creio que é extremamente importante isso acontecer e que aconteça no nível local”, disse.

“Na maioria das vezes, a Igreja olhou para os casos de abusos sexuais do passado a partir de uma perspectiva jurídica e financeira (...), mas as vítimas e os sobreviventes em sua maioria querem ser ouvidos, querem que a Igreja ouça suas histórias”, continuou Winter-Green.

“A minha opinião pessoal é que a Igreja precisa fazer frente a isso”, disse. “Precisa fazer este reconhecimento em um sentido especialmente pastoral e espiritual. É o modo como se pode curar as feridas”.

Apontando para alguns dos sucessos alcançados pela comissão, Winter-Green também reforçou algumas das críticas que Collins apresentou em sua declaração de 1º de março sobre o trabalho com as autoridades vaticanas e a falta de recursos e de pessoal disponíveis para a pontifícia comissão.

Winter-Green disse que parte da dificuldade em tornar eficiente a comissão é aprender a lidar com processos lentos e, às vezes, ineficientes empregados no Vaticano.

Na origem do problema, disse ela, está aprender como trabalhar de forma eficaz dentro desse sistema.

“O Vaticano não funciona à velocidade da luz”, disse ela. Na comissão, “há pessoas altamente qualificadas, profissionalmente treinadas, inteligentes, sensatas e eloquentes. E é fácil entender a frustração que é ver as coisas acontecerem de forma lenta”.

Segundo Winter-Gree, “as coisas não ocorrem do dia para a noite. Talvez ao longo de alguns meses, se tivermos sorte. É assim que acontecem”.

“É preciso estar ciente disso e aprender a trabalhar dentro do sistema”, acrescentou. “Porque, caso contrário, não chegamos a lugar algum”.

O seu grupo está com escassez de pessoal e encontra-se sobrecarregado de trabalho, segundo informou, dizendo que passa aproximadamente quatro a 5 horas por dia nos trabalhos da comissão para uma média de cinco a 6 dias por semana.

“Temos um enorme trabalho e um orçamento muito limitado”, disse Winter-Green. “A falta de informações transparentes relativas aos recursos orçamentários” é um “dos grandes desafios” que a comissão enfrenta.

“Estamos com recursos insuficientes para termos pessoas preparadas profissionalmente e que possam lidar com as várias complexidades do trabalho”, disse. “Simplesmente não há recursos suficientes”.

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