Parolin e as tramas do novo poder vaticano

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03 Agosto 2017

Como demonstram as nomeações no Hospital Bambin Gesù e no Istituto Dermopatico dell’Immacolata, o secretário de Estado é cada vez mais influente. Embora sem se exibir. Ele encerra os conflitos internos e acompanha de perto os dossiês diplomáticos.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada por Lettera 43, 31-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal manso é também um pouco Richelieu quando necessário, mas não evidencia muito isso. Pietro Parolin, secretário de Estado do Papa Francisco desde setembro de 2013, está se tornando, com o passar do tempo, o homem forte do Vaticano.

Diplomata de longo curso, o purpurado de origens vênetas, 62 anos, interpretou a seu modo o modelo Francisco: afável, acessível, desprovido de pose e afetação, disponível à imprensa, mas atento a não deixar escapar uma palavra a mais e, quando o faz, em geral, é por uma boa razão.

Neste verão romano muito quente, o cardeal continua montando pacientemente as peças do quebra-cabeça do novo poder vaticano, mas sem se destacar demais. Começando pelos novos conselhos administrativos de dois célebres, assim como discutidos, hospitais.

Trata-se de duas excelências da saúde católica, nas quais, porém, nos últimos anos, explodiram escândalos a ponto de pôr em risco o seu porte financeiro e a sua credibilidade. O primeiro é o Bambin Gesù, o célebre hospital pediátrico vaticano, no centro de um escândalo ligado ao financiamento (750 mil euros) para a reforma da famosa cobertura do cardeal Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado de Bento XVI.

Para esclarecer o que realmente aconteceu – entre a utilização dos fundos do Bambin Gesù para objetivos diferentes dos ligados à saúde, trabalhos financiados duas vezes (até mesmo pelo Governatorado) empresas falidas que, porém, embolsaram os pagamentos duplos – iniciou um processo no Vaticano que aponta como imputados o ex-presidente da fundação do hospital, Giuseppe Profiti, fidelíssimo de Bertone, e o ex-tesoureiro da fundação, além de diretor administrativo do hospital, Massimo Spina.

O outro caso é o do IDI, o famoso Istituto Dermopatico dell’Immacolata, também em Roma, administrado pelos padres concepcionistas (Filhos da Imaculada Conceição), estrutura de vanguarda para o tratamento das doenças da pele, mas também no centro de um colapso financeiro (um déficit de 845 milhões de euros, evasão fiscal de 450 milhões de euros, desvio de fundos), de um processo por falência fraudulenta e lavagem de dinheiro, que afetou tanto religiosos da congregação, quanto vários empregados, pondo em risco centenas de postos de trabalho (os empregados manifestaram várias vezes na Praça de São Pedro por ocasião do Ângelus papal).

Para salvar o IDI, intervieram o governo italiano e a Região do Lácio, além do Vaticano. O caso, porém, não está encerrado, e, em novembro deste ano, iniciará um processo importante: 24 indiciamentos decididos em maio passado pelo Tribunal de Roma, dentre eles o padre Franco Decaminada, responsável sanitário da congregação do hospital até 2011; em 2013, os responsáveis pela crise, depois, foram presos.

A Secretaria de Estado, enquanto isso, passou a nomear homens e mulheres de confiança em ambas as estruturas, e, nas últimas semanas, as substituições na cúpula foram concluídas. À frente do Bambin Gesù, há algum tempo, já está Mariella Enoc, recentemente renovada no seu cargo, chamada há dois anos por Parolin no lugar de Profiti.

Enoc, especialista em gestão de sistemas de saúde, com um passado na Confindustria, é ligada à Fundação Cariplo, da qual é vice-presidente, órgão que tem na sua missão o financiamento de projetos sociais sem fins lucrativos.

O outro vice-presidente da fundação é Carlo Sangalli, chefe da Confcommercio (no passado, deputado pela Democracia Cristã), enquanto o presidente é o idoso Giuseppe Guzzetti, “considerado – afirma o site da Fundação Cariplo – o pai das fundações de origem bancária, com um papel fundamental no crescimento das entidades, sujeitos filantrópicos que operam com base no princípio de subsidiariedade, em apoio ao Terceiro Setor, para a realização de projetos de utilidade social”.

Nos anos 1980, o presidente da Região da Lombardia iniciou uma história de militância na Democracia Cristã. Enoc representa um retorno às origens: catolicismo social de matriz democrática-cristã, mais sistema empresarial e, principalmente, financeiro do Norte, se é verdade que a Fundação Cariplo está entre as 10 maiores fundações do mundo em termos de patrimônio.

O fim do sistema Bertone

A própria Enoc, em 2015, recém-nomeada, enquanto a história da cobertura de Bertone agitava a mídia, afirmava: “Se algo foi tirado do hospital, nós vamos exigir indenização e restituição, não só dos danos econômicos, mas também dos morais, e eu vou lutar como uma leoa que protege os seus filhotes”.

No conselho de administração da Fundação Bambin Gesù, entravam – por vontade de Parolin – personagens como Ferruccio De Bortoli, ex-editor do Corriere della Sera, e Anna Maria Tarantola, ex-Bankitalia e ex-presidente da Rai. O sistema Bertone, assim, era desmontado, peça por peça.

Nos últimos dias, tomou posse o novo conselho administrativo do Bambin Gesù, e, entre as confirmações e os novos, a geografia da governança vaticana sob a direção do secretário de Estado toma forma.

No órgão, encontramos Bianca Maria Farina, recentemente eleita presidente dos Correios italianos, ex-membro do conselho administrativo da fundação do hospital vaticano. Mas também encontramos Farina no conselho diretivo da AIF, a autoridade de informação financeira, o órgão vaticano contra a lavagem de dinheiro que supervisiona o IOR e as movimentações suspeitas no Vaticano. Não só: ela também está no conselho administrativo da Save the Children, uma das ONGs que operam no Mediterrâneo.

Depois, está o Mons. Luigi Mistò, número dois da Secretaria para a Economia vaticana, que ficou sem chefe, porque o cardeal George Pell, desde o dia 26 de julho, terá que responder às acusações de pedofilia ao tribunal australiano de Melbourne, Estado de Victoria.

Mistò também é chefe da Pontifícia Comissão para os Hospitais Católicos, o órgão ad hoc criado pelo papa e posto sob a supervisão do secretário de Estado, para pôr em ordem a complexa rede das estruturas de saúde católicas na Itália e no mundo. Na comissão vaticana, também encontramos Enoc.

No conselho administrativo do Bambin Gesù, também figura o nome de Mauro Rivella, número dois da APSA, o outro dicastério econômico da Santa Sé (Administração do Patrimônio da Sé Apostólica), que controla os investimentos financeiros e imobiliários do Vaticano. E, se houve conflitos entre alguns desses órgãos, a saída de cena de Pell e do auditor geral da Santa Sé, Libero Milone, posto ainda vago, limpou o campo de muitos contrastes. Consequentemente, a rivalidade entre a Secretaria de Estado e a Secretaria para a Economia está destinada a se concluir rapidamente, e parece evidente que o cardeal Parolin agora tem em mãos o controle da situação.

É interessante notar como membros do conselho administrativo Giuseppe Dalla Torre, presidente do Tribunal Vaticano, e Carlo Salvatori, ex-membro do conselho do IOR e ex-presidente da Allianz Itália, membro do conselho administrativo da Universidade Católica de Milão, com laços com o importante grupo industrial Chiesi Farmaceutici (ele foi membro do conselho administrativo) e um papel no Hospital San Raffaele de Milão.

Mas é especialmente interessante a introdução da figura do diretor sanitário do hospital na pessoa de Ruggero Parrotto. Encontramo-lo – e não por acaso – no recém-empossado e novo conselho administrativo do IDI, o outro hospital no centro de escândalos financeiros, tanto que o Vaticano tinha procedido à sua supervisão.

A Santa Sé também nomeou um novo presidente, o advogado da Cassação, especialista em direito comercial e em falência de empresas, Antonio Maria Lozappa. Ele tomou o lugar de Maria Pia Garavaglia, que parece não ter engatado a marcha certa para tirar o hospital da crise gravíssima em que se encontrava.

Por fim, no conselho administrativo do IDI também está Enrico Zampedri, desde 2015 diretor geral da Fundação Policlinico Gemelli e membro também da comissão vaticana sobre os hospitais católicos.

O círculo se fecha

Como se pode notar é um retículo muito estreito de órgãos e nomes que remetem todos aos dicastério-chave da Cúria. Nada é deixado ao acaso. O IDI, supervisionado pelo Vaticano, tinha sido liderado, em um primeiro momento, para sair da crise, pelo cardeal Giuseppe Versaldi, bertoniano de carteirinha, cuja nomeação à frente do Istituto Dermopatico foi oficialmente decidida por um Bento XVI já renunciatário em fevereiro de 2013, mas obviamente havia a mão do cardeal Bertone.

Não por acaso, Versaldi nomearia Giuseppe Profiti como seu vice para a gestão extraordinária do IDI e, como subdelegado, Massimo Spina, ambos agora sob investigação no Vaticano.

Com isso, de certo modo, o círculo se fecha. O sistema entre saúde e finanças, no Vaticano, portanto, é um spoil system lento e implacável, com alguns passos em falso, mas claro nas intenções.

Quem move as cordas é o cardeal secretário de Estado, que, um pouco de cada vez, está assumindo as rédeas dos órgãos vitais do Vaticano, tende a encerrar os conflitos internos, restitui a uma parte das finanças e do mundo católico italiano um pouco do seu poder (ficando atento, porém, para não truncar as partes mais infectadas e opacas).

Enquanto isso, ele acompanha de perto muitos dos dossiês diplomáticos mais delicados: da China à Colômbia, passando pela Venezuela. Em agosto, ele irá à Rússia, onde se encontrará com o Patriarca Ortodoxo Kirill e com Vladimir Putin, e talvez, mais cedo ou mais tarde, o Papa Francisco também vai a Moscou.

Para ser secretário de Estado, aliás, ele foi chamado por Bergoglio, enquanto, durante o pontificado anterior, o cardeal Bertone o afastou do Vaticano – onde ele estava acompanhando as delicadas relações entre Santa Sé, China e Vietnã – para enviá-lo para ser núncio em Caracas, no período de máximo esplendor de Hugo Chávez.

O seu posto – era subsecretário para as Relações com os Estados – foi assumido por Dom Ettore Balestrero, que também teve entre as mãos importantes dossiês financeiros da Santa Sé. Hoje, quando o secretário de Estado é Parolin, Balestrero é núncio apostólico na Colômbia. Sic transeat gloria mundi.

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