Cardeal Cupich, arcebispo de Chicago, aponta para uma ética solidária nova e consistente

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01 Junho 2017

Depois de analisar o discurso do Papa Francisco para trabalhadores em Gênova na semana passada e como esse discurso claramente desafia os católicos conservadores que argumentam que o mercado livre pode ser batizado ou, pelo menos, que é moralmente neutro. Hoje, eu gostaria de analisar outro texto recente, a palestra do Cardeal de Chicago Blase Cupich sobre a palestra da causa comum do Cardeal Bernardin, na Loyola University Chicago, no mês passado, que foi recentemente publicada na Commonweal.

A reportagem é publicada por National Catholic Reporter, 31-05-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Vamos nos concentrar em três passagens da palestra do Cardeal. Primeiro, Cupich tenta persuadir em seus argumentos que o discurso de "ética coerente da vida" do Cardeal Joseph Bernardin, em 1983, não apenas era preciso, mas que a oposição a sua abordagem tinha raízes políticas, e não teológicas. Cupich afirma:

“Ele também sabia que a integridade da doutrina social católica fez com que ela se adequasse singularmente a uma estrutura que une essas questões sob um princípio comum. Como é que os bispos católicos, perguntou ele, praticamente sozinhos entre os grupos de liderança na sociedade norte-americana, testemunham tão ardentemente contra o aborto e as políticas de guerra nuclear dos Estados Unidos? Foi a integridade de seu dogma - isto é, uma ética coerente da vida — que separou a Igreja.

Consequentemente, a doutrina social católica não seria e nem poderia ser adequada ao quadro político partidário que governa a vida pública estadunidense, na época ou agora”.

Porém, isso também explica a hostilidade à abordagem da ética coerente com a vida. Ela declara que a integridade da doutrina social católica não pode ser modificada devido a divisões políticas. Ela declara que os católicos são chamados a serem fiéis à sua fé antes de serem fiéis à sua visão de mundo partidária. E afirma que a integridade da doutrina Católica não pode se prejudicar diminuindo a importância dos ensinamentos sociais chaves na vida política, mesmo para avançar em objetivos políticos importantes.

O discurso de Bernardin veio em um momento em que algumas das principais figuras na Igreja e na política queriam alinhar a Igreja Católica com o partido republicano e com o enfraquecimento da Conferência Episcopal, em sua estrutura anterior. Alguns anos atrás, um bispo me disse que quando ele era auxiliar, ele usou a expressão "traje sem costura", utilizada por Bernardin para explicar a ética coerente da vida. No dia seguinte, ele recebeu uma ligação do Arcebispo dizendo: "Nós não usamos essa linguagem nesta arquidiocese", como se fosse um palavrão.

A oposição a Bernardin não se referia ao que ele disse. Se é que houve algum efeito, a clareza e o discernimento do que ele disse tornou ainda mais lamentável a situação dos que queriam tornar obsoleto o estilo de liderança de Bernardin.

Os leitores assíduos deste blog devem se lembrar de uma coluna de George Weigel publicada na First Things há alguns anos, intitulada "O fim da era Bernardin". O discurso de Cupich aponta a prematuridade do veredicto de Weigel.

Em segundo lugar, Cupich ironiza a expressão de Bernardin, alterando-a de ética coerente da vida para ética coerente da solidariedade. Ele explica as circunstâncias sociais e culturais que favorecem essa mudança e por que ela aponta para esta nova ética da solidariedade:

“Sem ser simplista, o desafio para nós hoje não é apenas que as questões estejam separadas umas das outras; mas, também, que as pessoas, em suas redes sociais e através das mídias que consultam, estão separadas, sem qualquer desafio ou debate, isoladas por diferenças de opinião, política, raça ou classe social, de uma forma que obscurece nossa humanidade compartilhada e os laços que historicamente nos uniram como nação de imigrantes. Também não é demais dizer que este sentimento de desconexão é legitimado não só pelas vozes nas ruas, mas também por aquelas nos corredores do governo, aqui e no mundo todo, aumentando a xenofobia, o nacionalismo, o populismo e a intolerância racial. Tudo isso faz com que populações inteiras fiquem mais vulneráveis a influências perturbadoras que não apenas separam ainda mais, fingindo oferecer como soluções visões distorcidas do papel da economia e da política, da maneira como nos relacionamos com outras nações e como lidamos com conflitos globais.”

Estou convencido de que assim como Cardeal Bernardin propôs uma ética de vida que deveria ser aplicada de maneira coerente unindo todas as questões da vida, atualmente precisamos explorar a doutrina social da Igreja quanto à solidariedade, para unir a humanidade através de um despertar de nossa interdependência enquanto família humana, que o Papa João Paulo II pediu em sua encíclica inovadora Sollicitudo rei socialis e que o Papa Francisco defende em seus escritos. A solidariedade deve ser aplicada de maneira consistente em todas as nossas interações humanas, escreveu João Paulo II três décadas atrás, convidando-nos a "ver o 'outro' — seja pessoa, povo ou nação... como nosso 'vizinho','colaborador'... alguém com quem podemos compartilhar, de igual para igual, no banquete da vida a que todos são igualmente convidados por Deus".

"Líderes mundiais", continuou ele, também precisam "reconhecer que a própria interdependência exige o abandono da política de blocos, o sacrifício de todas as formas de imperialismo econômico, militar e político e a transformação da desconfiança em colaboração recíproca. É exatamente esta a atitude adequada para a solidariedade entre indivíduos e nações."

Esta posição fundamental em direção ao outro não é uma posição partidária. Se a oposição a Bernardin levou os sacerdotes a dizerem aos seus paroquianos que é pecado votar em democrata, que o único jeito de ser um "católico de verdade" é ser católico do jeito deles, a abordagem de Cupich não atravessa nenhum partidarismo desse tipo.

Temos aqui um desequilíbrio. Os chamados bispos "liberais", como Cupich, não insistem que todos votem nos Democratas ou pensem como os liberais. Eles querem que todos os católicos confluam. Cupich pede que os católicos se concentrem no que têm de comum para compartilhar uns com os outros e com todas as pessoas, e não comecem destacando as diferenças ou observando o cisco no olho do irmão.

Nem é uma questão de encontrar um "centro" arbitrário entre duas ideologias. O "centro" a que somos chamados a visar equivale, como um centro de oração, a algo mais profundo em nossa fé, é o equivalente litúrgico e teológico a uma rocha.

A terceira passagem que eu gostaria de destacar é a que Cupich exemplifica como uma ética coerente de solidariedade desafiaria alguns interesses e modos de pensar enraizados. Ele afirma:

O princípio da solidariedade criticaria uma abordagem limitada da economia que usa uma medida unidimensional do crescimento econômico de uma nação, unicamente definida pelos lucros, que promove políticas que maximizam a liberdade dos mercados e a escolha individual e que acredita que as forças do mercado, atuando sozinhas, são os melhores - na verdade, os únicos - juízes do progresso econômico. Essa abordagem limitada produziu "uma economia que mata", como afirmou o Papa Francisco.

Em seu lugar, uma ética coerente de solidariedade argumentaria que a inclusão e a segurança econômica para todos são as medidas de saúde econômica e os critérios para a tomada de decisões econômicas. A solidariedade produz o tipo de economia de mercado social que João Paulo II defendeu, que envolve, como observou o Papa Francisco, passar de uma economia líquida, "direcionada ao lucro a partir da especulação e o empréstimo a juros, para uma economia social que investe em pessoas, criando empregos e proporcionando formação".

Acredito que os outros exemplos que ele usa são igualmente importantes, especialmente a seção sobre o nacionalismo e o quanto ele pode ser perverso. Mas esta passagem conecta o discurso de Cupich ao do Santo Padre sobre o qual escrevi ontem. Na sociedade e na cultura estadunidenses, o poder econômico e os paradigmas econômicos que formam nossos modos de pensar são tão dominantes que é óbvio para todos que se a Igreja pretende ser um "sinal de contradição", ela deve começar daqui, ou seu testemunho não é credível.

Sugiro a todos que leiam o texto completo da palestra de Cupich e, além disso, assumam seu desafio explícito, como membros da Igreja, para definir as questões agora, na nossa sociedade e na nossa cultura. Ambos os discurso de Bernardin, em 1983, e de Cupich, no mês passado, alcançam justamente uma forma de estruturar o debate público que está profundamente enraizado nos mananciais da nossa fé católica.

Muitas vezes, os discursos públicos tornam-se fracos devido a críticas partidárias, reduzem-se a alguns pontos ou são terrivelmente superficiais. A Igreja não se encaixa nos padrões da nossa cultura e, portanto, pode desafiar todos nós a pensarmos de maneira mais profunda e mais clara. Cupich está fazendo justamente o que o Papa pediu a todos nós: mexer com as estruturas!

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