Encontro dos bispos americanos carece de paixão, liderança

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18 Novembro 2014

Uma falta de paixão e liderança marcou o encontro da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos – USCCB (na sigla em inglês) ocorrido nesta semana em Baltimore. A sua pauta era velha e não refletiu o entusiasmo que o papado de Francisco tem gerado.

O papa capturou a atenção do mundo com sua ênfase no amor de Deus, em sua compaixão e misericórdia para conosco e na necessidade de respondermos a ele amando-nos uns aos outros, em particular os pobres. Porém a maior parte do encontro dos bispos esteve devotada a ações voltadas para si próprio e a relatórios.

A reportagem é de Thomas Reese, jornalista e jesuíta, publicada pelo National Catholic Reporter, 14-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Os pontos de ação da pauta tiveram a ver com as traduções litúrgicas, as quais chegaram a animar alguns bispos, e só. Será que deveria ser “filhos e filhas de Adão”, como a comissão recomendou, ou “filhos e filhas dos homens” ou simplesmente “filhos dos homens”? A comissão venceu. E os bispos realmente têm que pregar sentados com uma mitra e um báculo na dedicação de uma igreja, como as rubricas exigem?

Enquanto isso, nada se disse sobre a situação econômica do povo americano, do impasse em Washington, ou sobre as guerras nas quais os EUA estão envolvidos. Eles praticamente ignoraram a questão da imigração e somente dedicaram uns poucos minutos ao assunto porque a imprensa ficou perguntando por que os bispos estavam quietos sobre o assunto político mais presente no momento.

Há um grupo significativo entre os bispos e funcionários da conferência episcopal do país que não querem ver estes assuntos em destaque, pois assim não vão tirar a atenção da agenda principal: a oposição ao casamento gay, ao aborto e ao uso de métodos contraceptivos.

Os bispos ouviram relatórios sobre o casamento homoafetivo e a liberdade religiosa, mas até mesmo estes relatórios careceram da paixão que marcou estes assuntos no passado. Está claro, até mesmo para os bispos, que eles irão perder a batalha contra o casamento gay, a menos que o Supremo Tribunal intervenha.

E, embora houve algumas poucas histórias novas de horror sobre a liberdade religiosa (um pastor tendo os seus sermões questionados e uma capela sendo ameaçada de levar multa por não realizar casamentos gays), reconheceu-se que, em ambos os exemplos, as autoridades locais rapidamente recuaram. Enquanto isso, a administração e os bispos conduzem uma guerra de trincheiras contra a legislação que garante assistência a métodos contraceptivos a trabalhadores no país.

Os relatórios dos bispos americanos que participaram no Sínodo sobre a família foram breves e desanimadores, exceto o do cardeal Timothy Dolan, quem aproveitou a oportunidade para atacar a imprensa pela cobertura que fizeram. Segundo Dolan, tudo esteve ótimo no Sínodo, sem haver nenhum desacordo expresso. A cobertura da mídia não foi nada parecido com o encontro em que participou, declarou.

Parece ser um pecado mortal admitir, em público, que os bispos poderiam discordar entre si e discutir sobre os ensinamentos e a prática da Igreja. Nem é preciso dizer que atitudes assim não ajudam para aumentar a credibilidade dos bispos. Dolan recebeu uma generosa rodada de aplausos após sua apresentação e foi eleito presidente da comissão pró-vida da USCCB.

Estamos a mais de um ano de meio do papado de Francisco, e os bispos americanos ainda parecem não saber para onde ir. Não há líderes na tradição de Joseph Bernardin, John Roach, John Quinn, ou James Malone, que poderiam articular uma visão para a Conferência à luz do novo papado.

Não há progressistas entre os bispos, e os moderados são uma minoria. A maioria conservadora divide-se em dois grupos: os ideólogos e os pastores.

Os conservadores ideológicos compõem de 10 a 20% da Conferência. Estes estão convencidos de que Francisco está semeando confusão na Igreja, onde certeza e estabilidade deveriam ser as marcas da instituição. A declaração do papa de que “os fatos são mais importantes do que as ideias” não é compreensível a eles; eles acreditam que a realidade deve se dobrar a suas ideias teológicas.

Os pastores conservadores, por outro lado, estão simplesmente confusos. Eles foram criados dentro de famílias conservadores, foram para seminários conservadores, não fingem ser intelectuais, mas são religiosos leais que nunca questionaram coisa alguma durante os últimos dois papados. Eles gostam do Papa Francisco, mas não têm certeza do que ele está fazendo. Estes estão precisando de um líder que possa tranquilizá-los e apontar-lhes a direção certa.

A eleição dos delegados para o Sínodo dos Bispos do próximo ano refletiu a composição da USCCB.

Como era esperado, foram eleitos Dom Joseph Kurtz e Dom Daniel Dinardo (presidente e vice-presidente da USCCB). Também eleitos foram Dom Charles Chaput (da Arquidiocese da Filadélfia) e Dom Jose Gomez (da Arquidiocese Los Angeles). Chaput tem se mostrado crítico quanto à confusão relacionada ao Sínodo. Ele também irá receber o encontro internacional sobre a família no ano que vem. Os suplentes eleitos foram Blaise Cupich, recentemente nomeado pelo Papa Francisco para a Chicago, e Salvatore Cordilone, de San Francisco, Califórnia, o principal assessor dos bispos sobre casamento homoafetivo.

Se os bispos estivessem totalmente em sintonia com o Papa Francisco, teriam eleito como delegados o seu melhor amigo na hierarquia americana, o cardeal Sean O’Malley, e o arcebispo designado Cupich, a sua principal nomeação.

Uma dos grandes problemas com a hierarquia americana é que os bispos não têm ninguém para consultar. Os teólogos conservadores, que estiveram assessorando-os durante os últimos dois papados, estão tão chateados quanto os bispos ideologicamente conservadores. Visto que os teólogos progressistas foram rotulados de hereges, chutados para fora dos seminários e isolados como pacientes do vírus ebola, os bispos não têm ninguém que lhes explique como avançar na discussão e no debate que está sendo fomentado por Francisco.

Infelizmente, poucos bispos se sentiriam bem ao convidar teólogos do colégio católico local para um jantar ou diálogo. No entanto, isso é exatamente o que se faz necessário.

O Concílio Vaticano II foi um programa de educação continuada para os bispos que durou quatro anos. A maioria deles veio a Roma sem nenhuma pauta, mas escutaram os bispos e teólogos progressistas. Se o abismo entre os teólogos americanos e os bispos não for desfeito, estes últimos continuarão numa situação confusa, e o papado de Francisco irá fracassar.

Houve alguns poucos pontos brilhantes nos dois dias de sessões públicas. Talvez tenha havido outros na sessão executiva, mas não foi isso o que ouvi dizer.

Aprendemos que os presidentes das duas entidades da USCCB escreveram para o secretário do Departamento de Segurança Interna, pedindo-lhe que use a sua autoridade para “proteger as pessoas e famílias sem documentos, o mais rapidamente possível”.

A carta foi enviada em 9 de setembro por Dom Eusebio Elizondo, presidente da Comissão sobre Imigração, e Dom Kevin Vann, presidente da Rede Legal Católica para a Imigração, porém a Conferência não divulgou nota para anunciar o envio.

Esta carta coloca os bispos em forte sintonia com o presidente Barack Obama, em sua disputa com os republicanos no Congresso, representantes que se opõem a qualquer ação do Executivo a favor da imigração.

Outro relatório que deveria ter causado fogos de artifício no encontro veio de Oscar Cantu a respeito da peregrinação orante dos bispos pela paz na Terra Santa. Na coletiva de imprensa de terça-feira pela manhã, os jornalistas se surpreenderam quando ele tomou partido, ficando ao lado dos palestinos e contra os israelenses.

Embora reconhecendo que há injustiças em ambos os lados do conflito entre israelenses e palestinos, a “realidade que vimos quando visitamos os israelenses e os palestinos era que as injustiças estavam, principalmente, [sendo feitas] pelo lado israelense”. Na guerra recente em Gaza, Cantu disse que acreditava “haver muito mais injustiças por parte dos israelenses” do que por parte dos palestinos. Ele criticou a imprensa americana como sendo “grandemente a favor de Israel”.

Não tenho certeza de que a Conferência como um todo iria endossar estes seus comentários, mas Cantu não economizou nas palavras.

A última pérola no encontro dos bispos foi a missa no domingo pela manhã, em que se celebrou o 225º aniversário de fundação da Arquidiocese de Baltimore. O coro esteve espetacular, mesmo se a música estivesse mais apropriada para a década de 1950. Os bispos celebrantes ocuparam quase a metade da basílica do Santuário Nacional da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, que foi belamente restaurada.

O ponto alto da missa, porém, foi a primeira leitura da Carta a Tito (1,1-9), a qual disse aos bispos reunidos para que “nomeasse em cada cidade os presbíteros das igrejas, conforme as instruções que lhe dei: o candidato deve ser irrepreensível, esposo de uma única mulher, e seus filhos devem ter fé e não ser acusados de maus costumes nem de desobediência”.

Agora há um item na agenda para o próximo encontro.

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