Cardeal defende o Papa com firmeza das críticas ao capitalismo

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06 Junho 2014

Na terça-feira um cardeal assessor do Papa Francisco defendeu, sem hesitar, as contínuas críticas do pontífice sobre o sistema de livre mercado, dizendo que o sistema econômico mundial se baseia numa “nova idolatria”.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 03-06-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O cardeal hondurenho Oscar Rodriguez Maradiaga, líder do grupo de oito cardeais que assessoram Francisco na reforma da Igreja Católica, criticou sem rodeios a inação global em face da crescente desigualdade de renda e das condições contínuas de pobreza ao redor do mundo.

“Atualmente construiu-se um sistema como uma nova idolatria e somente ao verdadeiro Deus é que se deve servir, e não adorar ídolos, mesmo se estes forem chamados de economia de mercado (...) ou de ídolo do libertarismo”, disse Rodriguez ao discursar num evento em Washington apresentando as opiniões católicas contra as ideologias libertárias.

“A desregulamentação libertária do mercado acontece em detrimento dos pobres”, continuou. “Esta economia mata. É isso o que o papa está dizendo".

Rodriguez estava discursando num evento organizado pelo Instituto de Pesquisa Política e de Estudos Católicos, da Universidade Católica da América, intitulado “Autonomia errônea: o caso católico contra o liberalismo”.

Realizado bem próximo do edifício do Capitólio, o evento viu Rodriguez e uma série de teólogos e economistas lançarem um ataque fulminante contra o libertarismo baseados nos valores da Doutrina Social Católica.

De sua parte, Rodriguez citou repetidas vezes a exortação apostólica do Papa Francisco “Evangelii Gaudium” (“A Alegria do Evangelho”), dizendo que o pontífice “analisa a economia a partir do ponto de vista dos pobres, que está em conformidade com a perspectiva de Jesus”.

Rodriguez disse que Francisco “não se deixa enganar pela economia de gotejamento”.

“Como alguém que viveu com os pobres, Francisco rejeita esta teoria uma vez que os fatos falam uma outra linguagem e nunca confirmaram” que a economia de gotejamento leva a beneficiar os pobres”.

Com 870 milhões de pessoas ao redor do mundo famintas e com dois bilhões sem acesso a tratamento médico necessário, Rodriguez disse que o “principal ponto” do papa em sua exortação apostólica é o de que “uma antropologia errada está gerando esta destruição errada da riqueza”.

Ao dizer que a idolatria do mercado “igualmente desconsidera o meio ambiente”, Rodriguez também confirmou que Francisco está escrevendo uma carta encíclica sobre questões ambientais.

“O Santo Padre está escrevendo uma carta encíclica sobre isso, mas não apenas a partir da perspectiva do aquecimento global”, falou o cardeal. “Os problemas são mais profundos. Os problemas vão desde a justiça ao meio ambiente”.

Rodriguez também disse que Francisco vê a questão da pobreza ao redor do mundo como algo que deve ser abordado rapidamente.

“Eliminar as causas estruturais da pobreza é uma questão de urgência que não pode mais ser adiada”, declarou. “Não devemos mais confiar nas forças cegas e invisíveis do mercado (...) que se tornaram o ladrão” dos pobres do mundo.

“Há uma instabilidade na democracia, hoje, porque a economia mundial sequestrou a política mundial”, acrescentou. “Atualmente, as políticas estão sendo subservientes ao dinheiro e não estão atuando para o bem comum”.

Para resolver os problemas da pobreza e da desigualdade, Rodriguez convidou os católicos a “responsabilizarem os governos nos anos entre as eleições”.

“Muito embora a política seja frequentemente considerada um jogo sujo, quem mais se não os cristãos comprometidos poderá limpá-la?’, perguntou.

O cardeal igualmente convidou os católicos para educarem seus filhos no princípio das doutrinas sociais católicas ainda em tenra idade, e não esperar até a idade escolar do ensino médio ou mesmo universitária.

“Temos que começar desde cedo, porque senão a doutrina social será tomada como uma outra ideologia, e ela não é uma outra ideologia”, disse.

Dom Blase Cupich, bispo de Spokane, Washington, deu uma resposta ao cardeal Rodriguez no evento de terça-feira, dizendo que este sublinhou como Francisco e os defensores do libertarianismo fornecem “dois caminhos diferentes para a humanidade neste momento da história”.

Enquanto os liberais argumentam em favor da liberdade individual, disse Cupich, eles “não conseguem sustentar a ideia (...), uma vez quem, se esta dignidade pertence a todos os seres humanos em comum, então isso implica uma solidariedade a todas as pessoas, a todos os povos”.

“Ao desassociar a dignidade humana da solidariedade que ela implica, os defensores do libertarianismo se movem numa direção que não só tem consequências enormes para o significado da vida econômica e do objetivo da política num mundo de globalização, mas também numa direção que não está de acordo com a Doutrina Social Católica, especialmente na forma como esta é desenvolvida pelo Papa Francisco”, declarou.

O evento de terça-feira também contou com vários outros palestrantes, bem como dois painéis de debate sobre a economia libertarista e como o libertarismo influencia na cultura americana.

Meghan Clark, professora de estudos religiosos na Universidade de St. John, em Nova York, falou no primeiro painel e criticou as visões libertaristas das relações entre os indivíduos.

Os católicos, disse ela, não se veem apenas como indivíduos, mas membros de uma comunidade, tal como vemos Deus como um ser trinitário.

“Cremos que Deus seja trino”, disse Clark. “Se somos feitos à ‘imago dei’, devemos também ser ‘imago trinitatis’”.

Também falando neste painel estava o monsenhor Stuart Swetland, da Universidade de St. Mary e famoso apresentador de rádio.

Ao responder a uma pergunta da plateia no final do painel a respeito do porquê não havia nenhum libertarista apresentando seu ponto de vista, Swetland disse que seria difícil ter um diálogo produtivo entre este e um católico.

“Como Igreja não quisemos dialogar com o comunismo a fim de mostrar que este tinha uma ideologia inadequada”, falou Swetland. “Há falhas fundamentais na maioria das teorias libertaristas (...) que tornam simplesmente difícil o diálogo”.

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