Tensões políticas sobre a Igreja: o que o Papa Francisco quis indicar ao dizer que não sabia de onde vem Emmanuel Macron? Entrevista com Christophe Dickès

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03 Maio 2017

Dada a natureza do caráter universal da Igreja, o Papa não está em condições de se pronunciar a favor de um candidato no contexto de uma eleição, para evitar colocar os católicos em uma situação constrangedora.

Christophe Dickès é historiador e jornalista, especialista em catolicismo. Ele dirigiu o Dictionnaire du Vatican et du Saint-Siège (Robert Laffont) e é autor de Ces 12 papes qui ont bouleversé le monde (Tallandier).

A entrevista é publicada por Atlantico, 01-05-2017. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

No seu retorno do Egito nesse domingo, o Papa Francisco declarou em relação a Emmanuel Macron: “Eu não sei de onde ele vem”. E acrescentou: “Eu não estou a par da política interna francesa”. Podemos considerar essas declarações como verdadeiramente intencionais?

Até certo ponto é verdade que o Papa Francisco não “está a par da política interna francesa”. E de maneira geral, existe uma lacuna entre suas percepções e o mundo europeu. Com efeito, como todos os papas, Francisco só pode ser compreendido pelo prisma das suas origens. Ora, suas origens são sul-americanas, o que cria uma lacuna na aproximação da realidade e da complexidade europeia. Por exemplo, ele nunca mencionou as classes médias. Seus discursos são fortemente marcados por uma concepção binária das sociedades, herdeira do movimento da Teologia do Povo.

Isso não significa que ele seja marxista, como dizem alguns conservadores americanos. A Teologia do Povo não é a Teologia da Libertação, embora nasça dela. Como escreveu a jornalista Bernadette Sauvaget, esta teologia é marcada pelo imperativo evangélico da opção preferencial pelos pobres. Assim, todos os católicos das classes médias europeias estão praticamente ausentes de seus discursos. Com algumas exceções: sua mensagem à juventude reunida em Cracóvia para a Jornada Mundial da Juventude no ano passado é um dos poucos exemplos.

A França é uma preocupação para a Santa Sé?

Bem menos que no pontificado anterior, é óbvio: Bento XVI veio à França em 2008 e Nicolas Sarkozy foi recebido duas vezes no Vaticano. Francisco testemunhou sua proximidade na época dos atentados. Ele a mostrou, naturalmente, por meio de mensagens de compaixão dirigidas ao Presidente da República, especialmente e sobretudo após o assassinato do padre Hamel pelos islamistas. Mesmo assim, a posição da França parece declinar no Vaticano.

A tradição diplomática francesa em Roma vai se apagando pouco a pouco. O idioma francês fazia parte da diplomacia da Santa Sé. Desde a eleição de Francisco, que não fala francês, e a nomeação do britânico Gallagher para os serviços diplomáticos da Santa Sé, o inglês é favorecido. Durante muito tempo, o posto desse último era ocupado por um francês, o cardeal Jean-Louis Tauran (1991-2003), hoje muito doente, mas também pelo cardeal Dominique Mamberti (2006-2014). Sabemos também que João Paulo II utilizava os serviços do cardeal Roger Etchegaray para manter uma diplomacia informal. Finalmente, dom André Dupuy, um dos grandes diplomatas da Santa Sé, aposentou-se em 2015. Além disso, dos 53 cardeais criados sob o pontificado de Francisco, apenas um é francês! Assim, para o Papa Francisco, a França parece bem distante. No entanto, gostaria de nuançar a minha declaração, porque se a votação da Marine Le Pen no próximo domingo for significativa ou mesmo se ela for eleita, penso que isso provocará um rebuliço no Vaticano. Na verdade, o Vaticano sempre foi pró-europeu.

Com essas observações, a Igreja não vai comentar a eleição presidencial francesa para não culpar os eleitores católicos tentados a se absterem de votar?

O papa nunca dá instruções de voto. Da mesma forma que a Santa Sé nunca toma parte nas eleições em instituições como a Organização das Nações Unidas, da qual participa como observadora. Ela também recusa toda audiência a um chefe de Estado em exercício ou a um candidato que estejam concorrendo a cargo político. Apesar do caráter pró-europeu do Vaticano que eu mencionei, o Papa nunca poderá se manifestar a favor ou contra um candidato.

Além disso, Francisco fez um apelo à Europa para recuperar seus valores humanistas. O que significa que ela os perdeu, como disse em Estrasburgo em 2014: “No centro deste ambicioso projeto político, estava a confiança no homem, não tanto como cidadão ou como sujeito econômico, mas no homem como pessoa dotada de uma dignidade transcendente”. Ele também recordou as raízes religiosas da Europa. Para os três últimos papas, a Europa perdeu sua alma, porque ela nega suas raízes. Aos seus olhos, o nosso continente está como que desencarnado.

O Papa Francisco também fez seguidas menções aos extremismos como um perigo. O termo foi utilizado no Egito em sua homilia do último sábado, ou seja, perante os cristãos: “O único extremismo permitido a um crente é o extremismo da caridade! Qualquer outra forma de extremismo não vem de Deus e não lhe agrada”. Aqui, ele está em uma dimensão religiosa, não política. Ele também acrescentou uma nuance importante sobre o termo populismo, que tem um sentido diferente no seu país e na Europa. Ele não fez esta nuance na entrevista que concedeu ao jornal El País em janeiro passado explicando que os populismos geraram crises. Ele igualou o termo ao de nazismo. Finalmente, nós conhecemos muito bem suas posições sobre a imigração, que também estão em continuidade com vários de seus predecessores: será que os católicos franceses as ouvem? Nada é mais duvidoso. Parece-me que existe uma lacuna entre uma maioria de católicos franceses e essas posições a favor da imigração, enquanto a França se encontra em plena crise de identidade diante da questão do Islã.

Não é um pouco surpreendente o fato de que o Papa não emita nenhuma opinião sobre os dois pretendentes ao Palácio do Eliseu, ao passo que criticou abertamente Donald Trump durante a campanha presidencial estadunidense?

Sim, você tem razão. Mas o Papa é imprevisível e ele foge de se manifestar sobre a eleição francesa seguramente por prudência. Ele realmente criticou Donald Trump, mas não devemos esquecer, mais uma vez, que Francisco é o primeiro papa originário do continente americano. Além do mais, houve uma forte ligação – às vezes inclusive muito forte – entre a administração americana do ex-presidente Barack Obama e o Papa Francisco. O discurso social de Obama era apreciado pelo papa argentino, e vice-versa. Além disso, a Santa Sé não pode agir na cena diplomática sem os Estados Unidos. Por outro lado, anteontem, o Papa disse que estava prestes a se encontrar com Donald Trump em Roma... O Papa pode discordar dele, mas não pode fazer como se ele não existisse. A França, infelizmente para nós, não tem a influência no cenário internacional, dominado também pela Rússia.

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