Os principais cargos no Vaticano: O “efeito Francisco” na Cúria Romana

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14 Novembro 2014

A última rodada de importantes nomeações para cargos “top” na hierarquia vaticana mostra que uma mudança está acontecendo, enquanto o Papa Francisco imprime o seu carimbo na Cúria Romana.

A reportagem é de Andrea Gagliarducci, publicada pelo Catholic News Agency/EWTN News, 10-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Estas transições estão claramente projetadas para fazer acontecer uma mudança de mentalidade, antes que uma simples reestruturação dos departamentos vaticanos.

No dia 8 de novembro, o Papa Francisco realizou uma série de nomeações que parecem ser um prelúdio a uma remodelagem completa da Cúria.

O pontífice nomeou o arcebispo inglês Paul Gallagher para a secretaria das Relações com os Estados, substituindo o arcebispo franco-marroquino Dominique Mamberti.

Mamberti, por sua vez, vai para o mais alto tribunal da Igreja, a Assinatura Apostólica, de onde o cardeal americano Raymond Leo Burke está saindo para assumir como capelão da Ordem dos Cavaleiros de Malta.

Cada um destes movimentos revela aspectos novos da visão que o Papa Francisco tem para a Igreja.

Uma mudança na diplomacia

A nomeação de Gallagher como o secretário para as Relações com os Estados sinaliza que um novo curso diplomático está em andamento no atual papado.

Gallagher é diplomata de longa data, quem já serviu na nunciatura do Conselho da Europa e que atuou como embaixador papal – ou núncio [apostólico] – em Burundi e na Guatemala. Mais recentemente estava trabalhando como núncio na Austrália. Gallagher é considerado um trabalhador perspicaz, mente aberta e humilde.

Ele foi também escolhido por causa de sua capacidade em cumprir os novos critérios diplomáticos: sob o comando do Papa Francisco, os diplomatas da Igreja estão sendo urgidos a reduzir a distância entre eles e a sociedade em geral, envolvendo mais o mundo secular no diálogo.

Um membro do corpo diplomático do papa contou ao sítio Catholic News Agency no último dia 9 que a eles foi pedido que “procurassem compreender as situações e tentassem se adaptar a elas no intuito de levar, a elas, a luz do Evangelho”.

Fontes dizem que Gallagher era a primeira escolha do cardeal Pietro Parolin como secretário de Estado.

A sua nomeação vem num momento crucial do Vaticano, quando a nova Secretaria para a Economia, do novo cardeal George Pell, e a Secretaria de Estado estão definindo as suas competências recíprocas.

No final deste mês, um encontro dos chefes de departamentos vaticanos com o Papa Francisco irá, provavelmente, dar uma configuração final para a reforma da Cúria que, entre outras coisas, levou à criação da Secretaria para a Economia.

Fontes informam que a agenda do encontro não inclui um debate aberto. O que se espera é a apresentação do plano para uma simplificação da Cúria Romana, a qual entraria em vigor na próxima reunião do Conselho dos Cardeais, marcada para os dias 9 a 11 de dezembro.

Uma mudança no tribunal

Dominique Mamberti foi retirado de seu posto como secretário para as Relações com os Estados para assumir a Assinatura Apostólica, frequentemente chamada de “o Supremo Tribunal” da Igreja.

Mamberti foi nomeado como “ministro do Exterior” em 2006. Foi uma das primeiras escolhas da Secretaria liderada pelo ex-secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone. Era esperado que Mamberti fosse transferido para um novo cargo sob a liderança do cardeal Parolin. A Assinatura Apostólica é uma saída suave.

Mamberti chega à posição no momento em que o Vaticano reanalisa os passos que levam às decisões das anulações matrimoniais. Em agosto deste ano, o Papa Francisco criou uma comissão para propor uma simplificação procedimental, enquanto também salvaguardando o princípio da indissolubilidade do matrimônio.

Numa reunião, ocorrida no dia 5 de novembro com canonistas, o Papa Francisco disse que alguns dos procedimentos são, atualmente, tão demorados e financeiramente onerosos que algumas pessoas “desistem” dos processos de anulação.

Em seu novo cargo, Mamberti será o responsável – entre outras competências – pelas apelações finais para os casos de anulações matrimoniais bem como para os casos de conflito de competências entre os dicastérios do Vaticano.

Fontes dizem que as apelações para a nulidade aumentaram nos últimos anos e que o papa quis um prefeito de sua própria nomeação para decidir sobre elas.

O cargo à frente da mais alta corte vaticana tradicionalmente tem o mérito de usar a “berretta rossa”, o chapéu vermelho dos cardeais. Mamberti deverá se tornar cardeal no próximo consistório.

O cardeal Raymond Leo Burke, de 66 anos, foi nomeado como patrono da Ordem dos Cavalheiros de Malta, uma responsabilidade honorífica que normalmente é atribuída aos cardeais que estão no final da carreira eclesiástica.

Ao longo do curso dos primeiros 18 meses deste pontificado, Burke tem expressado a sua preocupação com algumas das escolhas que vêm sendo feita na governança da Igreja. No entanto, como um cardeal ativo e vivendo em Roma, a sua capacidade de opinar vai continuar sendo a mesma se não maior ainda, visto que nenhum escritório importante estará ao seu comando, dando-lhe maior liberdade.

Logo após a conclusão do Sínodo dos Bispos em outubro, Burke concedeu entrevista à revista católica espanhola “Vida Nueva”, dizendo que durante o Sínodo “muitos manifestaram as suas inquietações a mim. Neste momento extremamente crítico, há uma forte sensação de que a Igreja se parece como um navio sem leme”.

Burke respondeu que a publicação Vida Nueva – um meio de comunicação de centro-esquerda – “distorceu seriamente” as suas afirmações.

A sua nomeação para a Ordem de Malta não é surpresa. O próprio cardeal afirmou publicamente ter sido informado sobre o caso. Esta nomeação à Ordem de Malta é a última num distanciamento gradual da vida da Cúria.

O Papa Francisco está em busca de uma abordagem mais suave para aplicar o direito canônico por parte da Assinatura Apostólica, e pensa que encontrou esta abordagem na pessoa de Dom Dominique Mamberti.

Espera-se uma outra rodada de nomeações em breve no Vaticano, todas na intenção de reconfigurar a “alta administração” da Igreja para se encaixar na visão do Papa Francisco de uma missão no mundo com mais ênfase no Evangelho.

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