Como ponderar os paralelos entre Paulo VI e Francisco

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09 Agosto 2016

"Francisco canonizar Paulo VI, veremos algo completamente apropriado de sua parte, pois em muitos sentidos os papados de Paulo VI e de Francisco são assustadoramente parecidos. Digo “papados” e não “papas” porque, em termos de personalidade, Montini e Jorge Mario Bergoglio são contrastantes: Montini era um sujeito de elegância e cultura profundas, por vezes um tanto remoto e impalpável, enquanto Bergoglio, embora não sendo fraco em termos culturais, é não obstante mais pé no chão e populista. Com certeza, poucos dirão que Montini irradiava tanto calor humano assim como o faz Bergoglio", escreve John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicado por Crux, 06-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

Embora o Beato Papa Paulo VI e o Papa Francisco representem tipos diferentes de personalidade, os paralelos em seus papados são impressionantes, inclusive na forma como a abordagem moderada deles por vezes deixa infelizes os ativistas de ambos os lados do debate católico.

Este sábado, marcou o 38º aniversário da morte do Beato Papa Paulo VI, em 6 de agosto de 1978. Para marcar a ocasião, o sítio eletrônico de notícias da Arquidiocese de Milão, jurisdição eclesiástica que entre 1954 a 1963 foi liderada pelo então Cardeal Giovanni Battista Montini, publicou um discurso dado por ele logo após a morte de São Papa João XXIII, em que previa a eleição de um pontífice não italiano.

“Nunca houve tanta probabilidade como nesta hora da Igreja de que o papa não seja italiano”, disse Montini. “E não seria nada de estranho. O ecumenismo leva a isso, não é verdade?”

“E, talvez, a hora está madura, porque nos sentimos irmãos com alguém que não é da nossa língua e da nossa nação”, disse.

Um papa não italiano não aconteceu em 1963, evidentemente. Em vez disso, os cardeais elegeram o italiano que emitira esta própria profecia. Quinze anos mais tarde, no entanto, a previsão de Montini realizaria -se com a escolha de um papa polonês, seguido de um papa alemão e, agora, um argentino.

O Papa Francisco aprovou a beatificação de Paulo VI em outubro de 2014. Desde então há a especulação de que ele dispensará a exigência de um segundo milagre para declarar santo este beato, o que tecnicamente é conhecido como uma canonização “equipolente”, conforme ele fez com João XXIII, o outro papa do Concílio Vaticano II (1962-1965).

Até o momento esta dispensa não aconteceu. Enquanto isso um suposto milagre está sob investigação e envolve a cura de um jovem professor de música e instrumentista que sofria de tumor cerebral, cujo pai colocara uma foto do filho adoecido nos braços de uma estátua de Paulo VI no Santuário de Santa Maria delle Grazie, em Milão.

Se Francisco canonizar Paulo VI, veremos algo completamente apropriado de sua parte, pois em muitos sentidos os papados de Paulo VI e de Francisco são assustadoramente parecidos.

Digo “papados” e não “papas” porque, em termos de personalidade, Montini e Jorge Mario Bergoglio são contrastantes: Montini era um sujeito de elegância e cultura profundas, por vezes um tanto remoto e impalpável, enquanto Bergoglio, embora não sendo fraco em termos culturais, é não obstante mais pé no chão e populista.

Com certeza, poucos dirão que Montini irradiava tanto calor humano assim como o faz Bergoglio.

Todavia, tanto Paulo VI como Francisco são vistos como reformadores; os dois presidiram encontros difíceis com os bispos; ambos são em geral percebidos como favoráveis ao eleitorado de centro-esquerda na Igreja; e ambos parecem ver nas figuras mais progressistas da Igreja os seus principais aliados.

Poder-se-ia dizer que aquilo que representavam os cardeais Giacomo Lercaro (de Bolonha), Franz König (de Viena) e Leo Joseph Suenens (de Bruxelas) para o Papa Paulo VI, hoje representam para o Papa Francisco figuras tais como os cardeais Reinhard Marx (de Munique), Christoph Schönborn (de Viena) e Oscar Rodriguez Maradiaga (de Tegucigalpa, Honduras).

Assim como Lercaro, König e Suenens foram vistos como a base de apoio de Paulo VI no Vaticano II, particularmente na pressão feita no sentido de se ter uma pauta reformista, Marx, Schönborn e Rodriguez, juntamente com outros prelados como o arcebispo italiano Bruno Forte, foram percebidos como tendo o apoio de Francisco para fazer a mesma coisa nos dois Sínodos dos Bispos sobre a família.

É claro que a percepção convencional é a de que o esforço reformista moderado de Paulo VI lhe rendeu muita dor, em grande parte porque conseguia, frequentemente, chatear prelados de opiniões as mais diversas.

A direita católica nunca o perdoou por ele não manter o Vaticano II sob um controle mais rígido, especialmente no tocante às mudanças litúrgicas, enquanto a esquerda católica jamais se esquece do “não” firme dado ao controle artificial de natalidade expresso na encíclica Humanae Vitae, de 1968.

Até certo ponto, Francisco enfrenta uma situação análoga, quer dizer: ele atrai críticas de ambos os lados.

No começo deste mês, por exemplo, no mesmo momento em que muitos progressistas católicos aplaudiram quando ele nomeou um defensor da ordenação feminina ao diaconato para participar da nova comissão que irá estudar o assunto, o grupo pró-LGBT DignityUSA denunciava a sua recente alocução a respeito da identidade de gênero proferida aos bispos poloneses, por fomentar “mais violência e opressão a pessoas transgêneras”. 

(Em uma sessão de perguntas e respostas junto aos bispos em sua visita à Polônia, Francisco denunciou aquilo que considera uma “colonização ideológica” por parte dos países ricos, que tentam forçar os demais a ensinarem às crianças que “cada um pode escolher o seu gênero”, descrevendo esta prática como “terrível”.)

Entretanto, no geral a esquerda católica se mostra entusiasmada com o atual papa.

Será que teremos um momento em que o Papa Francisco atuará da mesma forma como Paulo VI fez na encíclica Humanae Vitae, ficando numa situação embaraçosa como aquela ocupada por seu predecessor?

Alguns achavam que este momento viria com a sua decisão a respeito da Comunhão para os fiéis divorciados e recasados na conclusão dos Sínodos sobre a família. Porém, neste caso Francisco conseguiu habilmente contornar a situação: com certeza ele não emitiu um “não”, mas fez o seu “talvez” nuançado e qualificado o suficiente para que cada um interprete à sua maneira.

Dito de modo mais genérico, Francisco conta com um jeito de se isolar que Paulo VI não tinha, que é uma vasta popularidade. Como disse um amigo meu e experiente vaticanista: “Ele só faz as pessoas se sentirem bem”.

Independentemente de como as coisas se desenvolverem, a questão essencial é que há mais de Paulo VI em Francisco.

Talvez o atual papa não italiano predito por Montini décadas atrás possa empregar algumas horas hoje, no aniversário da morte de Paulo VI, para ponderar as vicissitudes de seu notável, e às vezes criticado, antecessor.

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