Beatificação de Dom Oscar Romero: um ponto de inflexão para o catolicismo

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19 Maio 2015

"Quarto, Romero simboliza a Igreja socialmente engajada que o Papa Francisco quer ver...Agora que ele está prestes a se tornar um santo padroeiro de um papa popular latino-americano, talvez Romero recupere a fama que a sua história merece.", escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado pelo Crux, 16-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

No próximo sábado, será celebrada em San Salvador aquela que, com razão, pode ser considerada a beatificação mais importante do século XXI, onde Dom Oscar Romero alcançará o estágio final antes da santidade na Igreja Católica.

Trata-se de um evento que remonta uma história ocorrida 35 anos atrás, sendo difícil imaginar alguém com uma trajetória mais marcante.

No estágio inicial de uma guerra civil sangrenta em El Salvador, no final da década de 1970, Oscar Romero era o representante mais importante dos pobres e das vítimas de abusos dos direitos humanos no país. Esta sua postura obviamente ameaçava as estruturas de poder, pois, numa cena tirada diretamente da obra “Crime na Catedral”, de T.S. Eliot, Romero fora atingido enquanto rezava uma missa no dia 24 de março de 1980.

Ninguém foi processado pelo assassinato, embora seja amplamente aceito que os assassinos eram ligados a um esquadrão da morte da direita salvadorenha. Homens armados também atacaram uma multidão seis dias depois, no funeral do sacerdote, deixando dezenas de mortos.

Na sequência de um golpe apoiado pelos Estados Unidos em outubro de 1979, um regime militar assumiu o poder no país. Um mês antes de morrer, o religioso escreveu ao presidente americano Jimmy Carter pedindo-lhe que suspendesse a ajuda militar e econômica ao governo de seu país, insistindo que os novos governantes “só sabem reprimir o povo e defender os interesses da oligarquia salvadorenha”.

Um dia antes de ser morto, Romero implorou, até mesmo ordenou, que os soldados e membros das forças de segurança não atirassem contra os cidadãos.

Desde o dia em que morreu, Romero vem sendo popularmente reverenciado como um mártir e um santo. O processo formal de canonização, no entanto, foi mantido parado por décadas. Em parte, este bloqueio deveu-se a prelados latino-americanos conservadores que achavam que condecorar Romero com uma auréola poderia ser visto como uma aprovação da política marxista de esquerda.

O Papa Bento XVI reabriu o caso de Dom Oscar Romero, e o Papa Francisco parece determinado a finalizá-lo. Ainda em 2007, o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio teria dito a um sacerdote salvadorenho que “[Romero], para mim, é um santo e um mártir (...) Se eu fosse papa, já o teria canonizado”.

Há quatro motivos por que a beatificação de Romero é um ponto de inflexão na Igreja Católica.

Primeiro, ela marca uma cura nas tensões envolvendo a “Teologia da Libertação”, movimento no catolicismo latino-americano de promoção da justiça social. A ideia nuclear desta teologia é a “opção pelos pobres”, ou seja: que a Igreja deve ter uma preocupação especial, assim como teve Cristo, pelos oprimidos e marginalizados.

Batalhas enormes foram travadas em torno da Teologia da Libertação nas décadas de 1980 e 1990. Um consenso moderado entrou em seu lugar, e ele se expressa assim: se “Teologia da Libertação” significa lutar contra a pobreza e buscar a justiça social, então a resposta é sim; se significar rebelião marxista armada e luta de classes, a resposta é não.

Beatificar Romero, um herói para este movimento teológico, equivale a um endosso desta paz.

Segundo, Romero torna-se um santo padroeiro dos cristãos perseguidos em outros lugares num momento em que a violência contra os cristãos se tornou um desafio central para os defensores dos direitos humanos.

No começo do século XXI, as estimativas para o número de cristãos mártires anualmente vão de 100 mil a alguns poucos milhares. Isso representa 1 vítima a cada cinco minutos, e 1 em uma hora. Dada a ascensão do Estado Islâmico, os cristãos hoje são, provavelmente, o grupo religioso mais vulnerável do mundo.

Nesse contexto, a beatificação de Romero não só dá ao mundo um padroeiro como também faz um chamado à ação.

Terceiro, esta beatificação ratifica um novo padrão para o que conta como “martírio” no catolicismo. Não mais é necessário morrer explicitamente in odium fidei, nas mãos daqueles que odeiam a fé – o que era o critério tradicional. Pode-se ser reconhecido como mártir por morrer in odium caritatis, como uma vítima na mão de pessoas motivadas por um ódio à caridade.

O teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, um dos fundadores da Teologia da Libertação, disse recentemente: “Este é o martírio latino-americano: dar a própria vida pela justiça, pelo amor às pessoas (...) Acho que o testemunho de buscar a justiça, o respeito pela dignidade humana, é uma afirmação da doutrina”.

Quarto, Romero simboliza a Igreja socialmente engajada que o Papa Francisco quer ver.

O bispo auxiliar Gregorio Rosa Chávez, de San Salvador, que trabalhou em estreita colaboração com Dom Oscar Romero, recentemente disse à Rádio Vaticano que o arcebispo assassinado é um “ícone do tipo de pastor que Francisco quer, o ícone da Igreja que Francisco deseja (...) uma Igreja para os pobres”.

Para o pontífice, beatificar Romero não tem a ver somente com honrar a sua memória. Como a escolha do nome “Francisco”, em referência ao grande amante da “Senhora Pobreza”, beatificá-lo também expressa um programa de governo.

Os organizadores têm manifestado a esperança de que a cerimônia de beatificação – que deve ser um dos maiores eventos públicos na história de El Salvador – irá dar início a uma redescoberta do legado de Romero, que corre o risco de ser negligenciado com o passar dos tempos.

Quando Francisco visitou uma favela no Rio de Janeiro, em 2013, os organizadores levantaram uma grande imagem de Romero num campo de futebol onde o pontífice se encontrou com os mais pobres dos pobres. Curioso em saber até que ponto os latino-americanos de fora de El Salvador sabem a respeito do famoso mártir, me pus a conversar com várias pessoas aleatoriamente.

A resposta mais comum, quando perguntei o que sabiam sobre Romero, era: “Em qual time de futebol ele joga?”

Agora que ele está prestes a se tornar um santo padroeiro de um papa popular latino-americano, talvez Romero recupere a fama que a sua história merece.

Pressão vaticana à África mostra por que a soberania é importante

De vez em quando, há pedidos para se pôr fim no status do Vaticano como um Estado soberano, principalmente quando ele parece dar a Roma um habeas corpus para as consequências de um escândalo.

Por exemplo, o Vaticano invocou a sua soberania como um escudo contra processos judiciais nos EUA que buscavam indenização para as vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero. Tal movimento irritou algumas vítimas e os seus advogados, e muitas vezes aquele os debates sobre se se deveria eliminar uma convenção jurídica que os críticos entendem como sendo um anacronismo medieval.

Por outro lado, ser um Estado soberano também permite que o Vaticano promova justiça social e causas humanitárias de uma forma que, é bem provável, nenhuma outra força no planeta poderia fazer.

Exemplo disso foi o caso desta semana, quando o Vaticano anunciou um novo fórum para os diplomatas africanos apresentarem soluções para a crise crescente de imigração.

Mais de 3 mil migrantes africanos morreram no Mar Mediterrâneo tentando chegar à Europa na primeira metade de 2015, segundo um funcionário da Caritas em declaração recente. Este número equivale a duas embarcações do tamanho do Titanic.

No começo de maio, o número de mortes já era maior do que o total de 2014.

Nesta semana, a União Europeia apresentou um novo plano para lidar com a crise, que traz um sistema de quotas para distribuir os migrantes ao longo de uma série de Estados, e intensificou os esforços navais para impedir o trabalho de contrabandistas que atuam no litoral da Líbia e destruir as suas embarcações.

Embora a grande maioria das pessoas que arriscam suas vidas para chegar à Europa sejam africanas, representantes africanos têm estado ausentes de grande parte do debate.

Na quinta-feira (14), o Cardeal Peter Turkson, de Gana, prefeito do Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, anunciou a criação de um novo fórum para os embaixadores africanos à Santa Sé. O grupo irá desenvolver soluções concretas para a crise imigratória, as quais serão apresentadas aos seus governos. O objetivo é que estas propostas se tornam parte da discussão internacional.

(“Santa Sé” é o termo técnico para estado jurídico do papado como uma entidade soberana no Direito Internacional.)

“Por que todos estão falando sobre isso e nada está vindo da África?”, perguntou-se Turkson em entrevista à Rádio Vaticano. “Não estamos ouvindo os chefes de Estado africanos. Não estamos ouvindo a União Africana”.

Reconhecendo que o poder dos embaixadores é limitado, “nós ainda pensamos que podemos uni-los e criar (...) uma plataforma para que eles troquem ideias”, disse Turkson.

Entre outras coisas, os embaixadores podem exercer uma pressão contra a militarização da resposta europeia à crise imigratória, já que a população primária posta em risco pelos ataques aos navios no Mediterrâneo não são os contrabandistas, mas africanos pobres que, tragicamente, são tratados como cargas dispensáveis.

Por três motivos, esta soberania dá ao Vaticano uma capacidade única de garantir uma plataforma pública para que os representantes no vaticanos sejam ouvidos.

Em primeiro lugar, existe uma concentração maior de diplomatas africanos em Roma do que praticamente em qualquer outro lugar da Europa. Dada a religiosidade intensa da maioria das sociedades africanas, os seus enviados à Santa Sé tendem a ser pessoas muito capazes, com uma capacidade acima da média em mexer os pauzinhos para coisas sobre as quais eles se preocupam.

Em segundo lugar, a Igreja Católica é vista como um ator político e social sério na África. Em parte, isso se deve ao rápido crescimento da Igreja aí. No século XX, a população católica da África subsaariana foi de 1,9 milhão para 130 milhões, uma taxa de crescimento impressionante de 6,708%. Em parte também por causa do trabalho social da Igreja. A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, estima que grupos religiosos fornecem entre 30 e 70% de toda a assistência médica na África, sendo grande parte deste trabalho mantido pela Igreja Católica.

Consequentemente, os governos africanos, diplomatas, jornalistas e ativistas levam a sério as iniciativas encabeçadas pelo Vaticano.

Em terceiro lugar, quando o Vaticano auxilia os líderes africanos, ele não o faz como uma força estrangeira.

Hoje, uma faixa crescente das estruturas de poder da Igreja se compõe de africanos influentes, com Turkson sendo um dos principais entre eles. A ideia de que o futuro da Igreja reside na África se tornou moeda corrente, com muitos analistas falando sobre um “momento africano” no catolicismo.

Um líder africano visitando Bruxelas ou Washington não pode contar com membros de gabinete peso pesados africanos em tais lugares para apoiá-los, mas em Roma pode-se recorrer a Turkson, ao Cardeal Robert Sarah (da Guiné), ao Cardeal Francis Arinze (da Nigéria), ou talvez ainda ao Cardeal Laurent Monsengwo Pasinya (do Congo) – que não mora em Roma, mas que frequentemente se encontra na cidade como participante do importante “G9”, conselho de cardeais assessores do papa.

Os bispos africanos estão também intensificando a sua presença dentro da União Africana, requisitando o status de observador para o SECAM – conjunto de todos os prelados católicos do continente.

Como resultado, as parcerias com o Vaticano soam mais naturais para muitos africanos do que aquelas firmadas com outras instituições ocidentais.

Embora o Vaticano possa criar um fórum sem ser um Estado soberano, é pouco provável que os governos africanos investiriam os mesmos recursos sem este estado jurídico. Entre outras coisas, não haveria embaixadores africanos para se organizarem, se o Vaticano não tivesse relações diplomáticas com os países que eles representam.

É igualmente improvável que a União Europeia, a ONU, a Casa Branca e outros centros do poder mundial ficariam tão atentos ao Vaticano sem esta sua reputação internacional única.

A soberania vaticana, em outras palavras, não é apenas uma relíquia. É uma ferramenta poderosa no aqui e agora, uma ferramenta pela qual os líderes africanos podem ser gratos.

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