Apresentação da Amoris Laetitia feita pelo cardeal Christoph Schönborn

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Por: André | 20 Abril 2016

Na entrevista coletiva concedida pelo Papa Francisco, no retorno de Lesbos, no sábado, dia 16 de abril, ele afirmou: "Recomendo-lhes que leiam a apresentação do documento feita pelo cardeal Schönborn, que é um grande teólogo e que trabalhou na Congregação para a Doutrina da Fé".

A seguir publicamos a íntegra do texto apresentado pelo cardeal Christoph Schönborn, O.P., arcebispo de Viena, no dia 08-04-2016,  por ocasião da apresentação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia. O texto foi publicado pela Sala de Imprensa do Vaticano, em inglês, italiano e espanhol.

Eis o texto.

Na noite de 13 de março de 2013, as primeiras palavras que o Papa recém eleito, Francisco, dirigiu às pessoas na Praça São Pedro e a todo o mundo foram: “Boa noite”. Tão simples como esta saudação são a linguagem e o estilo do novo documento do Papa Francisco. A exortação não é tão breve como esta simples saudação, mas muito realista. Nestas 200 páginas o Papa Francisco fala de “amor na família” e o faz de forma tão concreta, tão simples, com palavras que aquecem o coração como aquele “boa-noite” de 13 de março de 2013. Este é o seu estilo, e ele espera que se fale das coisas da vida da maneira mais concreta possível, sobretudo quando se trata da família, uma das realidades mais elementares da vida.

Digo-o de antemão: os documentos da Igreja muitas vezes não pertencem a um gênero literário dos mais acessíveis. Este texto do Papa é legível. E quem não se deixar assustar pelo comprimento, encontrará alegria na objetividade e no realismo deste documento. O Papa Francisco fala das famílias com uma clareza que dificilmente se encontra em outros documentos do magistério da Igreja.

Antes de entrar propriamente no texto, gostaria de dizer, de uma maneira muito pessoal, por que o li com alegria, com gratidão e sempre com grande emoção. No ensino eclesial sobre o matrimônio e a família muitas vezes há uma tendência, talvez inconsciente, de abordar com um duplo enfoque estas duas realidades da vida. Por um lado, há os matrimônios e as famílias “normais”, que obedecem à regra, nos quais tudo está “bem” e está “em ordem”, e, depois, existem as situações “irregulares”, que representam um problema. Já o próprio termo “irregular” sugere que há uma clara distinção.

Portanto, quem se encontra no lado dos “irregulares” tem que dar como certo que os “regulares” estão do outro lado. Sei pessoalmente, devido à minha própria família, o quanto isso é difícil para quem vem de uma família “patchwork”. Nestas situações, os ensinamentos da Igreja podem ser danosos, podem dar a sensação de estar excluídos.

O Papa Francisco colocou sua exortação sob o lema: “Trata-se de integrar a todos” (AL 297), porque se trata de uma compreensão fundamental do Evangelho: todos necessitam misericórdia! “Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). Todos nós, independentemente do matrimônio e da situação familiar na qual nos encontramos, estamos a caminho. Mesmo um casamento no qual tudo “vai bem” está a caminho. Deve crescer, aprender, superar novas etapas. Conhece o pecado e o fracasso, necessita de reconciliação e novos começos, e isto até idade avançada (AL 297).

O Papa Francisco conseguiu falar de todas as situações sem classificar, sem categorizar, com esse olhar fundamental de benevolência que tem algo a ver com o coração de Deus, com os olhos de Jesus, que não excluem a ninguém (AL 297), que acolhem a todos e a todos concedem a “alegria do Evangelho”. Por isso, a leitura da Amoris laetitia é tão reconfortante. Ninguém deve se sentir condenado ou desprezado. Neste clima de acolhida, o ensinamento da visão cristã do matrimônio e da família converte-se em convite, estímulo, alegria do amor na qual podemos acreditar e que não exclui, verdadeira e sinceramente, ninguém.

Por isso, para mim, a Amoris laetitia, sobretudo e em primeiro lugar, é um “acontecimento linguístico”, como o foi a Evangelii gaudium. Algo mudou no ensino eclesial. Esta mudança de linguagem já era perceptível no caminho sinodal. Entre as duas sessões sinodais de outubro de 2014 e outubro de 2015 pode-se ver claramente como o tom se enriqueceu em estima, como se tivessem aceitado simplesmente as diversas situações da vida, sem julgá-las nem condená-las imediatamente.

Na Amoris laetitia passou a ser o tom linguístico constante. Por trás disso não há, evidentemente uma opção linguística, mas um profundo respeito por cada pessoa que nunca é, em primeiro lugar, um “caso problemático”, uma “categoria”, mas um ser humano inconfundível, com sua história e seu caminho com e para Deus.

Na Evangelii gaudium o Papa Francisco dizia que deveríamos tirar os calçados diante da terra sagrada do outro (EG 36). Esta atitude fundamental atravessa a exortação inteira. E é também a razão mais profunda para as outras duas palavras chaves: discernir e acompanhar. Estas palavras não se aplicam unicamente às “situações chamadas irregulares” (Francisco insiste neste “chamadas”!), mas que valem para todas as pessoas, para cada casal, para cada família. Todas, de fato, estão a caminho e todas necessitam de “discernimento” e de “acompanhamento”.

Minha grande alegria diante deste documento reside no fato de que, coerentemente, supera a artificial, externa e clara divisão entre “regular” e “irregular” e coloca todos sob a instância comum do Evangelho, seguindo as palavras de São Paulo: “Pois Deus encerrou a todos na rebeldia para com todos usar de misericórdia” (Rm 11, 32). Obviamente, este princípio contínuo de “inclusão” preocupa a alguns. Não se fala aqui a favor do relativismo? Não se converte em permissivismo a tão evocada misericórdia? Acabou-se a clareza dos limites que não devem ser ultrapassados, das situações que objetivamente são definidas como irregulares, pecaminosas? Esta exortação não favorece uma certa lassidão, um “anything goes”? A misericórdia própria de Jesus não é, muitas vezes, ao contrário, uma misericórdia severa, exigente?

Para esclarecer isto o Papa Francisco não deixa dúvida alguma sobre suas intenções e nossa tarefa: “Como cristãos, não podemos renunciar a propor o matrimônio, para não contradizer a sensibilidade atual, para estar na moda, ou por sentimentos de inferioridade face ao descalabro moral e humano; estaríamos privando o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer. É verdade que não tem sentido limitar-nos a uma denúncia retórica dos males atuais, como se isso pudesse mudar qualquer coisa. De nada serve também querer impor normas pela força da autoridade. É-nos pedido um esforço mais responsável e generoso, que consiste em apresentar as razões e os motivos para se optar pelo matrimônio e a família, de modo que as pessoas estejam melhor preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece” (AL 35).

O Papa Francisco está convencido de que a visão cristã do matrimônio e da família tem, também hoje, uma força de atração imutável. Mas exige “Uma saudável reação de autocrítica": “Devemos ser humildes e realistas, para reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos” (AL 36). “Apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário” (Al 36).

Permitam-me contar-lhes uma experiência do Sínodo de outubro passado: pelo que eu sei, dois dos treze “circuli minori” começaram o seu trabalho pedindo que cada participante contasse a sua própria situação familiar. Rapidamente se descobriu que quase todos os bispos ou os outros participantes do “circulus minor” enfrentavam, nas suas famílias, os assuntos, as preocupações, as “irregularidades” das quais, nós, no Sínodo, tínhamos falado de modo algo abstrato. O Papa Francisco convida-nos a falar das nossas famílias “tal como são”.

E, agora, o maravilhoso do caminho sinodal e da sua continuação com o Papa Francisco: este sóbrio realismo sobre as famílias “tal como são” não nos afasta absolutamente nada do ideal! Pelo contrário: o Papa Francisco consegue, com o trabalho dos dois Sínodos, situar as famílias numa perspectiva positiva, profundamente rica de esperanças. Mas, esta perspectiva animadora sobre as famílias exige essa “conversão pastoral” de que fala a Evangelii Gaudium, de um modo tão emocionante. O seguinte parágrafo de Amoris Laetitia enfatiza as linhas diretrizes dessa “conversão pastoral”.

“Durante muito tempo pensamos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimônio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37).

O Papa Francisco fala de uma profunda confiança nos corações e na nostalgia dos seres humanos. Percebe-se aqui a grande tradição educativa da Companhia de Jesus, a responsabilidade pessoal. Fala de dois perigos contrários: o “laissez-faire” e a obsessão de querer controlar e dominar tudo. Por um lado, é certo que: “A família não pode renunciar a ser lugar de apoio, acompanhamento, guia, embora tenha de reinventar os seus métodos e encontrar novos recursos… Sempre faz falta vigilância; o abandono nunca é sadio” (AL 260).

Mas, a vigilância pode, também ela, tornar-se exagerada: “A obsessão, porém, não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (…) Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261). Acho muito iluminador pôr em relação este pensamento sobre a educação com aqueles relacionados com a práxis pastoral da Igreja.

De fato, neste sentido, o Papa Francisco fala seguidamente da confiança na consciência dos fiéis: “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). A grande questão, obviamente é esta: como se forma a consciência? Como chegar àquilo que é o conceito chave de todo este grande documento, a chave para compreender corretamente a intenção do Papa Francisco: “o discernimento pessoal”, sobretudo em situações difíceis e complexas?

O discernimento é um conceito central dos exercícios inacianos. Estes, de fato, devem ajudar a discernir a vontade de Deus nas situações concretas da vida. É o discernimento que faz da pessoa uma personalidade madura, e o caminho cristão quer ser de ajuda para se alcançar esta maturidade pessoal: não para formar autômatas condicionados do exterior, telecomandados, mas pessoas maduras na amizade com Cristo. Só ali onde amadureceu este “discernimento” pessoal é também possível alcançar um “discernimento pastoral”, que é importante sobretudo diante de “situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor nos propõe” (AL 6). Deste discernimento pastoral fala o capítulo oitavo, um capítulo provavelmente de grande interesse para a opinião pública eclesial, mas também para a imprensa em geral.

Devo ainda recordar que o Papa Francisco definiu como central os capítulos 4 e 5 (“os dois capítulos centrais”), não somente no sentido geográfico, mas por seu conteúdo: “não poderemos encorajar um caminho de fidelidade e doação recíproca, se não estimularmos o crescimento, a consolidação e o aprofundamento do amor conjugal e familiar” (AL 89).

Estes dois capítulos centrais da Amoris laetitia serão provavelmente pulados por muitos para chegar imediatamente às “batatas quentes”, aos pontos críticos. De experto pedagogo o Papa Francisco sabe bem que nada atrai e motiva tão fortemente como a experiência positiva do amor. “Falar do amor” (AL 89) – isto dá claramente uma grande alegria ao Papa Francisco, e ele fala do amor com grande vivacidade, compreensibilidade e empatia.

O quarto capítulo é um amplo comentário ao Hino da Caridade do capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios. Recomendo a todos a meditação destas páginas. Elas nos animam a crer no amor (cf. 1 Jo 4, 16) e a confiar em sua força. É aqui que “crescer”, outra palavra chave da Amoris laetitia, tem sua principal sede: em nenhum outro lugar manifesta-se tão claramente como no amor, que se trata de um processo dinâmico no qual o amor pode crescer, mas também pode se esfriar. Posso somente convidar para ler e degustar deste delicioso capítulo.

É importante notar um aspecto: o Papa Francisco fala aqui com uma clareza rara, do papel que também as paixões, as emoções, o Eros, a sexualidade têm na vida matrimonial e familiar. Não é casual que o Papa Francisco cite aqui de modo particular Santo Tomás de Aquino que atribui às paixões um papel muito importante, enquanto que a moral moderna, muitas vezes puritana, desacreditou-as ou descuidou-as.

É aqui que o título da exortação do Papa encontra sua plena expressão: Amoris laetitia! Aqui se entende como é possível chegar “a descobrir o valor e a riqueza do matrimônio” (AL 205). Mas aqui se faz também dolorosamente visível quanto mal fazem as feridas de amor. Como são lancinantes as experiências de fracasso das relações. Por isto, não me maravilha que seja, sobretudo, o oitavo capítulo que chama a atenção e o interesse. De fato, a questão de como a Igreja trata estas feridas, de como trata os fracassos do amor se tornou para muitos uma questão-teste para entender se a Igreja é verdadeiramente o lugar no qual se pode experimentar a misericórdia de Deus.

Este capítulo deve muito ao intenso trabalho dos dois Sínodos, às amplas discussões na opinião pública e eclesial. Aqui se manifesta a fecundidade do modo de proceder do Papa Francisco. Ele desejava expressamente uma discussão aberta sobre o acompanhamento pastoral de situações complexas e pôde fundamentar-se amplamente nos textos que os dois Sínodos lhe apresentaram para mostrar como se pode “acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” (AL 291).

O Papa Francisco faz explicitamente suas as declarações que ambos os Sínodos lhe apresentaram: “os Padres sinodais chegaram a um consenso geral que eu apoio” (AL 297). No que diz respeito aos divorciados recasados pelo rito civil, ele sustenta: “Acolho as considerações de muitos Padres sinodais que quiseram afirmar que (...) a lógica da integração é a chave do seu acompanhamento pastoral (...) Eles não só não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e amadurecer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que sempre os acolhe” (AL 299).

Mas, o que significa isto concretamente? Muitos se fazem, e com razão, esta pergunta. As respostas decisivas encontram-se na Amoris laetitia n. 300. Estas oferecem certamente ainda matéria para posteriores discussões. Mas estas são também um importante esclarecimento e uma indicação para o caminho a seguir: “Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (...) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos”. Muitos esperavam tal norma. Ficarão decepcionados. O que é possível?

O Papa diz isso claramente: “É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares”. E de como pode e deve ser este discernimento pessoal e pastoral, é o tema da seção inteira da Amoris laetitia n. 300-312. Já no Sínodo de 2015, no apêndice aos enunciados do círculus germanicus foi proposto um Itinerarium do discernimento, do exame de consciência que o Papa Francisco fez seu.

“Trata-se de um itinerário de acompanhamento e discernimento que orienta estes fiéis na tomada de consciência da sua situação diante de Deus”. Mas o Papa Francisco recorda também que “este discernimento não poderá jamais prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade propostas pela Igreja” (AL 300).

O Papa Francisco menciona duas posições errôneas. Uma é aquela do rigorismo: “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos da Igreja” (AL 305). Por outro lado, a Igreja não deve absolutamente “renunciar a propor o ideal pleno do matrimônio, o projeto de Deus em toda a sua grandeza” (AL 307).

Surge, naturalmente, a pergunta: o que o Papa diz sobre o acesso aos sacramentos das pessoas que vivem em situações “irregulares”? Já o Papa Bento disse que não existem “receitas simples” (AL 298, nota 333). E o Papa Francisco recorda a necessidade de discernir bem as situações, seguindo a linha da Familiaris consortio (n. 84) de São João Paulo II (AL 298). “O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites. Por pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus” (AL 305).

O Papa Francisco nos recorda uma frase importante escrita na Evangelii gaudium n. 44: “um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades” (AL 305). No sentido desta via caritatis (AL 306), o Papa afirma, de maneira humilde e simples, em uma nota (351), que se pode dar também a ajuda dos sacramentos “em certos casos”.

Mas para este propósito ele não nos oferece uma casuística de receitas, mas simplesmente nos recorda duas de suas famosas frases: “recordo aos sacerdotes que o confessionário não deve ser uma sala de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor” (EG 44) e a Eucaristia “não é um prêmio para os perfeitos, mas um generoso remédio e um alimento para os fracos” (EG 44).

Não é um desafio excessivo para os pastores, para os guias espirituais, para as comunidades, se o “discernimento das situações” não está regulado de modo mais preciso? O Papa Francisco conhece esta preocupação: “Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma” (AL 308). A esta preocupação ele objeta dizendo: “Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho” (AL 311).

O Papa Francisco confia na “alegria do amor”. O amor deve encontrar o caminho. É a bússola que nos indica o caminho. É a meta e o caminho mesmo. Porque Deus é amor e porque o amor é de Deus. Nada é tão exigente como o amor. O amor não se pode comprar. Por isso, ninguém deve temer o fato de que o Papa Francisco nos convide, com a Amoris laetitia, a um caminho muito fácil. “O caminho não é fácil, mas é cheio de alegria”.

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