O que diz a Amoris laetitia. Palavras de dois cardeais

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Por: André | 11 Abril 2016

“Unidade doutrinal na pluralidade pastoral”. Este é o “autêntico espírito” da exortação pós-sinodal Amoris laetitia que foi publicada na última sexta-feira, segundo antecipou o jornal Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana (CEI).

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 07-04-2016. A tradução é de André Langer.

A fórmula é muito clássica, e será curioso ver como ela irá se concretizar nos 325 parágrafos do quilométrico documento e, sobretudo, na prática multiforme que se desenvolverá no conjunto da Igreja mundial.

Para proporcionar a chave de leitura oficial da exortação, o Papa Francisco escolheu dois cardeais: o secretário-geral do Sínodo, Lorenzo Baldisseri, e o arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, ambos partidários de uma prática pastoral nova nos pontos mais controversos, em particular na comunhão aos divorciados recasados.

* * *

Baldisseri apoiou esta mudança de orientação na carta que enviou dias atrás aos bispos de todo o mundo, uma carta de duas páginas cujo texto foi divulgado quase em sua totalidade no dia 02 de abril pela ACI Stampa.

Nela ele diz, entre outras coisas: “O problema não é mudar a doutrina, mas inculturar os princípios gerais, a fim de que possam ser compreendidos e colocados em prática. A nossa linguagem deve animar e convalidar cada passo de cada família real”.

E também: “É preciso recontextualizar a doutrina a serviço da missão pastoral da Igreja. A doutrina é interpretada em relação com o núcleo do kerigma cristão e à luz do contexto pastoral no qual se aplicará, recordando sempre que a ‘suprema lex’ deve ser a ‘salus animarum’”.

Esta é a renovação – explica Baldisseri na carta – que Francisco solicita incessantemente, quando insiste na necessidade de um “discernimento inaciano”, de uma “mentalidade dialógica”, de um pensamento deliberadamente “incompleto” para dar lugar a outro.

* * *

O cardeal Schönborn, pelo contrário, esteve em silêncio na vigília da publicação da Amoris laetitia. Mas seu pensamento é conhecido e o manifestou muitas vezes, durante o período sinodal.

A exposição mais elaborada e “autorizada” encontra-se na entrevista que o cardeal concedeu à La Civiltà Cattolica, publicada no dia 26 de setembro de 2015, feita pelo Pe. Antonio Spadaro, diretor da revista e íntimo do Papa Francisco.

O texto, na íntegra, da entrevista está entre os poucos artigos que a La Civiltà Cattolica permite ler on line, também disponível para os não assinantes, sinal do papel de guia que lhe atribui.

Na sequência, será reproduzida e traduzida para vários idiomas a passagem em que Schönborn enfrenta a questão da comunhão aos divorciados recasados.

Sua argumentação em apoio à mudança na prática pastoral é ampla e articulada. Schönborn, que pertence à Ordem dos Dominicanos, se faz forte não apenas por sua competência teológica, mas também por sua experiência de filho de pais divorciados que se casaram novamente.

Ele também insiste na salvaguarda da doutrina, mas sem excluir decisões pastorais que admitem à comunhão aqueles que até hoje estão impedidos.

Em um determinado ponto diz, efetivamente: “Há também situações em que o padre, como acompanhante que conhece as pessoas no foro interno, pode dizer: ‘Sua situação é tal que, em consciência, em sua consciência e na minha de pastor, vejo o lugar de vocês na vida sacramental da Igreja”.

Mais adiante, na entrevista, Schönborn apóia uma nova aproximação também sobre a questão da homossexualidade, dizendo entre outras coisas, sobre a convivência entre pessoas do mesmo sexo: “O juízo sobre os atos homossexuais como tais é necessário, mas a Igreja não deve olhar primeiro o quarto, mas a sala! É necessário acompanhar!”

Mas, voltemos aos divorciados recasados. A partir de hoje, todos poderão verificar quantas destas posições do cardeal encontram-se na exortação do Papa Francisco.

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“Há situações em que o padre, pode chegar a dizer...”, por Christoph Schönborn

[...] Por um lado, é necessário e justo ter critérios objetivos, nós temos necessidade disso, mas, por outro lado, esses critérios não esgotam toda a realidade...

Dou um exemplo muito simples que se refere a um homem e a uma mulher. Seu primeiro casamento foi no civil, porque ele já estava divorciado, por isso eles se casam no civil. Este casamento fracassou e eles se separam. A mulher contrai um segundo casamento. Neste caso, o esposo não havia se casado pela Igreja e ela somente no civil. Por isso puderam celebrar sacramentalmente o casamento. Objetivamente, é justificável e correto. Mas, o que teria acontecido se o primeiro esposo da mulher não tivesse se divorciado? Se o primeiro casamento tivesse sido no religioso, aquele que fracassou por diversos motivos e levou a uma segunda união seria irregular.

Isto deve nos tornar dóceis à ordem objetiva, mas também atentos à complexidade da vida. Há casos em que só em uma segunda ou mesmo em uma terceira união as pessoas descobrem realmente a fé. Conheço uma pessoa que sendo muito jovem viveu um primeiro casamento religioso, aparentemente sem fé. Este casamento fracassou, e a ele se seguiu um segundo e depois também um terceiro casamento civil. Somente agora, pela primeira vez, esta pessoa descobriu a fé e converteu-se em crente. Então, não se trata de abandonar os critérios objetivos, mas de que, pelo acompanhamento, devo estar ao lado da pessoa em seu caminho.

Então, o que se pode fazer nestas circunstâncias?

Os critérios objetivos nos dizem claramente que uma determinada pessoa ainda com um vínculo por um matrimônio sacramental, não pode participar plenamente da vida sacramental da Igreja. Subjetivamente, ela vive esta situação como uma conversão, como uma verdadeira descoberta na própria vida, a tal ponto que se poderia dizer, de alguma maneira – de maneira diferente, mas análoga ao ‘privilégio paulino’ –, que pelo bem da fé pode-se dar um passo que vai além do que objetivamente diria a regra. Penso que nos encontramos diante de um elemento que terá muita importância no próximo Sínodo. Neste sentido, não escondo que me surpreendeu como uma forma de argumentar puramente formalista manipulou o conceito do ‘intrinsece malum’, isto é, do ato considerado sempre moralmente mau, independentemente das intenções e das circunstâncias.

Você está tocando em um ponto muito importante. Você poderia aprofundá-lo? Qual é o problema vinculado ao que se define ‘intrinsece malum’?

Na prática se exclui qualquer referência ao argumento de conveniência que, para Santo Tomás [de Aquino], é sempre um modo de expressar prudência. Não é nem um utilitarismo nem um pragmatismo fácil, mas um modo de expressar um sentido de justiça, de conveniência, de harmonia. Sobre a questão do divórcio, esta figura argumentativa foi sistematicamente excluída por nossos moralistas intransigentes. Mal compreendido, o ‘intrinsece malum’ suprime a discussão sobre as circunstâncias e as situações da vida, complexas por definição.

Um ato humano jamais é simples. O risco é “pegar” de maneira errada a verdadeira articulação entre objeto, circunstâncias e finalidade, que, pelo contrário, seriam lidos à luz da liberdade e da atração para o bem. Reduz-se o ato livro ao ato físico, de tal forma que a nitidez da lógica suprime qualquer discussão moral e qualquer circunstância. O paradoxal é que se focalizando no ‘intrinsece malum’ perde-se toda a riqueza, eu diria, quase a beleza de uma articulação moral, que é inevitavelmente aniquilada. Não se torna apenas uma análise moral unívoca das situações, mas também ficam separadas e excluídas de uma visão global as consequências dramáticas dos divórcios: os efeitos econômicos, pedagógicos, psicológicos, etc.

Isto é verdade para tudo o que diz respeito aos temas do matrimônio e da família. A obsessão do ‘intrisece malum’ empobreceu de tal maneira o debate que nos privamos de um amplo leque de argumentos a favor da unicidade, da indissolubilidade, da abertura à vida, do fundamento humano da doutrina da Igreja. Perdemos o gosto por um discurso sobre estas realidades humanas. Um dos elementos cardeais do Sínodo é a realidade da família cristã, não do ponto de vista excludente, mas includente. A família cristã é uma graça, um dom de Deus. É uma missão, e por sua natureza – quando vivido de modo cristão – é algo que deve ser acolhido.

Lembro de uma proposta de peregrinação para famílias, na qual os organizadores queriam convidar apenas aquelas famílias que praticavam o controle natural de natalidade. Durante um encontro da Conferência Episcopal [Austríaca], perguntamos a eles: ‘Vocês selecionam somente aqueles que praticam 100%, x%? Como vão fazer?’ A partir destas expressões um pouco caricaturais nos damos conta de que, quando se vive a família cristã a partir desta perspectiva, nos tornamos inevitavelmente sectários. Um mundo à parte. Se buscamos seguranças, não somos cristãos, nos concentramos apenas em nós mesmos!

Alguns querem ter critérios objetivos para poder permitir regularmente as pessoas que vivem em uma união irregular para que participem da vida sacramental da Igreja. Mas alguns padres sinodais fizeram referência à necessidade de um discernimento pastoral. Falou-se também de uma prática penitencial em relação aos casais divorciados que casaram novamente e que pedem o acesso aos sacramentos...

Se houve um casamento sacramental válido, uma segunda união fica como uma união irregular. Pelo contrário, existe toda uma dimensão de acompanhamento espiritual e pastoral das pessoas que caminham em uma situação de irregularidade, na qual será preciso discernir entre o tudo e o nada. Não se pode transformar uma situação irregular em regular, mas existem também caminhos de cura e de aprofundamento, caminhos nos quais a lei é vivida passo a passo.

Há também situações em que o padre, como acompanhante que conhece as pessoas no foro interno, pode dizer: ‘Sua situação é tal que, em consciência, em sua consciência e na minha de pastor, vejo o lugar de vocês na vida sacramental da Igreja’.

Como evitar decisões arbitrárias?

O problema já existe, porque alguns pastores fazem estas escolhas muito rapidamente. Mas o laissez-faire nunca foi um critério para rejeitar um bom acompanhamento pastoral. Será sempre um dever do pastor encontrar um caminho que corresponda à verdade e à vida das pessoas que ele acompanha, talvez sem poder explicar a todos por que eles tomam uma decisão em vez de outra. A Igreja é sacramento de salvação. Há muitos caminhos e muitas dimensões a explorar para benefício da ‘salus animarum’.

Trata-se, então, de recepção e acompanhamento...

O Papa Francisco disse aos bispos austríacos o que também disse a muitos outros: “Acompanhem, acompanhem”. Eu propus à nossa diocese um caminho de acompanhamento das pessoas que se encontram vivendo situações matrimoniais irregulares, para fugir desta problemática difundida pelos meios de comunicação de massa e que se converteu em uma espécie de teste para o pontificado do Papa Francisco: “No final das contas, será misericordioso com aqueles que vivem em situações irregulares?” O que esperamos são soluções gerais, ao passo que a atitude do bom pastor é, sobretudo, a de acompanhar as pessoas que vivem um divórcio e um novo casamento em suas situações pessoais.

O primeiro ponto sobre o qual queria deter-me são as feridas e os sofrimentos. Primeiramente, é necessário observar antes de julgar. Mas, sobretudo quando se fala de misericórdia, sempre recordo que a primeira misericórdia a pedir não é a da Igreja, mas é a misericórdia para os nossos próprios filhos. Eu sempre faço estas primeiras perguntas: “Vocês tiveram um fracasso matrimonial? Vocês fizeram pesar a carga deste fracasso, o peso de seu conflito sobre as costas dos seus filhos? Seus filhos foram tomados como reféns por causa dos conflitos existentes entre vocês? Porque se vocês dizem que a Igreja não tem misericórdia com as novas uniões, é necessário antes perguntar qual é a misericórdia de vocês para com os seus filhos. Com muita frequência, são os filhos que carregam o peso do conflito de vocês e do fracasso de vocês para toda a vida”.

E, além disso, existe a situação do cônjuge abandonado, além daquela dos filhos.

Fala-se muito pouco destas pessoas tão numerosas, que ficam sozinhas depois de um divórcio, ficam afastadas e sofrem por causa da solidão provocada pelo abandono de seu cônjuge. Há, na Igreja, uma atenção especial para estas pessoas? Procura-se acompanhá-las? Mas há outras perguntas: os divorciados recasados se esforçaram o suficiente para se reconciliar com o cônjuge que deixou para assumir uma nova união? Ou entraram na nova união com todo o peso de seus rancores, talvez também com o peso de seu ódio para com o cônjuge que os abandonou?

E por último, a questão mais delicada que ninguém responde em seu lugar: como se situa a consciência de vocês frente a Deus? Vocês se prometeram fidelidade recíproca para toda a vida, experimentaram um fracasso... o que isto diz às consciências de vocês? Não digo isso para pressioná-los com um sentimento de culpa, mas a questão continua em pé: prometi algo que não pude cumprir. A fidelidade é um grande valor. Não pude manter o que prometi, e não pudemos mantê-lo reciprocamente.

Mas estas perguntas abrem um caminho de penitência e de reconciliação, de outro modo não fariam sentido...

Tudo isto poderia e deveria preparar para um caminho de humildade e não para ver a questão do acesso à vida sacramental da Igreja unicamente sob a perspectiva de uma exigência, mas acima de tudo como um convite para um caminho de conversão que pode abrir novas dimensões de encontro com o Senhor rico em misericórdia.

Sempre é necessário ver também o que há de positivo nas situações de miséria, inclusive nas situações mais difíceis. Com frequência, nas famílias “patchwork” encontram-se exemplos de surpreendente generosidade. Sei que escandalizo alguns ao dizer isto... Mas sempre se pode aprender algo das pessoas que vivem objetivamente em situações irregulares. O Papa Francisco quer nos educar para isso.

Pode me contar algo da sua experiência pastoral? Há situações particulares que lhe vem à mente e que lhe parecem significativas?

Tenho uma recordação inesquecível da época em que eu era aluno em Saulchoir, com os dominicanos em Paris. Ainda não era padre. Sob a ponte do Sena que levava ao convento de Évry morava um casal de sem teto. Ela tinha sido prostituta, ele eu não sei o que havia feito na vida. Não estavam casados nem frequentavam a Igreja, mas cada vez que eu passava por ali me dizia: “Meu Deus, eles se ajudam mutuamente a caminhar em uma vida tão dura”. E quando via gestos de ternura entre eles, dizia para mim mesmo: “Meu Deus, é bonito estes dois pobres se ajudarem entre si, que formidável!” Deus está presente nesta pobreza, nesta ternura.

É necessário sair desta perspectiva tão limitada do acesso aos sacramentos para as situações irregulares. A pergunta é: “Qual é o lugar de Deus em suas vidas? E de que modo eu, como pastor, posso discernir a presença de Deus em suas vidas? E como eles podem me ajudar a discernir melhor a obra de Deus em uma vida?” Nós devemos saber ler a Palavra de Deus ‘in actu’ entre as linhas retas da vida e não apenas entre as linhas retas dos incunábulos!

Para a misericórdia de Deus existem situações irrecuperáveis a tal ponto que a Igreja só pode excluir definitivamente o acesso ao sacramento da reconciliação e da Eucaristia?

Certamente podem existir situações de auto-exclusão. Quando Jesus disse: ‘Mas vocês não quiseram’. Diante disso, de certo modo, Deus está desarmado, porque nos deu a liberdade... E a Igreja deve reconhecer e aceitar a liberdade de dizer não. É difícil querer conciliar a todo custo situações de vida complexas com uma plena participação na vida da Igreja. Isto não impedirá jamais nem de esperar nem de rezar, e será sempre um convite para confiar uma situação deste tipo à providência de Deus, que pode oferecer continuamente instrumentos de salvação. A porta jamais está fechada. [...]

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