Franz König: o passado futurível. Entrevista com Helmut Krältz

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07 Abril 2014

Há dez anos, morria em Viena o mítico cardeal Franz König, arcebispo de 1956 até 1985. Em letras garrafais, a revista da arquidiocese, Der Sonntag, afirma: Kardinal Franz König unvergessen (Cardeal Franz König, inesquecível). Prova do fato de que ele não é esquecido são os muitos testemunhos que a revista reporta: do cardeal Christoph Schönborn ao chanceler federal Werner Faymann, do bispo auxiliar emérito Helmut Krätzl, ao teólogo pastoralista Paul Zulehner, do presidente da Ação Católica, Walter Rijs, à preciosíssima secretária do cardeal, Annamaria Fenzl, que o assistiu até o fim, no dia 13 de março de 2004.

A reportagem é de Francesco Strazzari, publicada na revista Settimana, n. 13, 30-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Atrás da estupenda catedral, em estilo gótico do século XII, dedicada a Santo Estêvão, mora o bispo emérito Helmut Krätzl, que foi, primeiro, secretário do cardeal König e, depois, em 1977, bispo auxiliar até 2008.

Com diploma em teologia pela Universidade de Viena e em direito canônico pela Gregoriana de Roma, no tempo do Vaticano II, do qual participou como estenógrafo, no dia 13 de fevereiro de 1960, o seu carro, no qual estava se dirigindo ao funeral do arcebispo de Zagreb, o cardeal Alojzije Stepinac, colidiu com um caminhão. Morreu o motorista, e os dois, milagrosamente vivos, tiveram que se submeter a várias intervenções. O cardeal König me contava que foi no quarto do hospital de Varazdin que ele teve a intuição de se abrir ao Oriente. Ele falou a respeito com João XXIII e deu início à Ostpolitik, confiada posteriormente a Dom Agostino Casaroli e a Dom Achille Silvestrini.

Falar com Krätzl é realmente um prazer. Em alemão, com algumas palavras em italiano, você logo se encontra vontade, e o seu contínuo sorriso é envolvente. Começamos justamente da lembrança do "seu" cardeal König, como ele continua a chamá-lo. No seu livro de memórias, Mein Leben für eine Kirche, die den Menschen dient (A minha vida por uma Igreja que se põe a serviço dos homens), ele dedica um capítulo inteiro ao cardeal "vermelho", que o consagrou bispo no dia 20 de novembro de 1977 na catedral de Santo Estevão.

"Como posso me esquecer de König, que foi arcebispo por 30 anos? Mesmo que tenham se passado 30 anos desde a sua aposentadoria e dez da sua morte, posso lhe dizer e testemunhar que a arquidiocese de Viena ainda vive do seu magistério. Muitas paróquias, a capital, as cidades ainda estão ligadas a ele, ao seu pensamento, à sua capacidade de pôr em prática os ensinamentos conciliares. A propósito do Vaticano II, sou da opinião de que se tratou de um 'salto para a frente', como eu tentei demonstrar com o meu livro Das Konzil – ein Sprung vorwärts (O Concílio, um salto para a frente). Não acredito na teoria da continuidade. Foi um salto. Assim também pensava o cardeal König."

Eis a entrevista.

Dom Krätzl, ampliemos o discurso. Vamos a tempos mais recentes. Os bispos austríacos recentemente estiveram em Roma para a visita ad limina. Para eles, o papa fez um discurso interessante: eles devem ter coragem!

Eu não fui a Roma, já que sou emérito desde 2008. Devo dizer que o Papa Francisco me agrada muito. Ele me lembra de João XXIII, que eu encontrei unto com o cardeal König. Eu gosto do seu estilo. É muito humano. Quer uma Igreja simples e pobre, e se comprometeu para reformá-la. É necessário e urgente que ela seja reformada. João XXIII convocou o Concílio, Paulo VI o concluiu. Fez-se muito no pós-Concílio, mas depois a Igreja se bloqueou e talvez retrocedeu. Acredito que o Papa Francisco finalmente a está abrindo aos novos desafios. Eu gosto da sua mensagem centrada na misericórdia e que todo o seu programa tenha essa ideia de fundo. Espero que venham as consequências disso: a atenção aos divorciados em segunda união, o acesso à comunhão, a ordenação de homens casados.

Mas eu tenho uma dúvida: o que o cardeal Müller pensa? Eu não o conheço pessoalmente, mas tenho a impressão de que ele puxa o freio, se não até de que ele desliga o motor. Detenho-me um momento sobre a ordenação de homens casados. Faço votos de que ela chegue em breve. Na exortação Evangelii gaudium, o papa diz que a nova evangelização tem início a partir da reunião do domingo. Mas sabemos que, em muitas partes, a celebração da eucaristia não ocorre por falta de padres. O meu amigo bispo Kräutler, que está no Brasil, confirmou-me que a eucaristia é celebrada apenas três vezes por ano em algumas regiões. É incrível!

Mas os bispos austríacos, também eles lidando com problemas desse tipo, não falam a respeito?

Eles dizem que é uma questão da Igreja universal, que cabe à Roma intervir. Eles esperam. E, enquanto isso, constituíram, sobretudo na arquidiocese de Viena, o projeto Comunidades Paroquiais e Filiais. Em síntese, trata-se disto: da reorganização das paróquias, reduzindo o seu número. A eucaristia é celebrada nos centros maiores, aonde os fiéis dos centros menores deveriam confluir. Não faz sentido. Sou totalmente contrário.

Até mesmo o conhecido pastoralista, o teólogo Paul Zulehner, é claramente contrário. As longas distâncias para ir à igreja central levará os fiéis a se separarem da eucaristia, que deveria ser celebrada lá onde as pessoas vivem juntas como comunidade. Não é preciso perturbar o movimento Wir sind Kirche (Nós Somos Igreja) para dizer que a reorganização é imposta porque a Igreja não tem a coragem de resolver os problemas de maneira diferente.

Eu espero que o Papa Francisco tenha a coragem de abrir novos caminhos. Há outro problema e é muito sério. Em Viena, há muitos que estudam teologia, talvez mil, metade deles mulheres. O problema é que não pedem para se tornar padres, porque esse tipo de igreja não lhes agrada. Eles não se sentem em sintonia com os ensinamentos da Igreja: a Humanae vitae, a contracepção, o controle de natalidade, os divorciados e o acesso à comunhão, o celibato, o não categórico à ordenação de mulheres... Mas há também outro fenômeno. Há estudantes de teologia e padres que não se fazem essas questões. Mais de uma vez eu perguntei: como vocês percebem esses problemas? A resposta: mas que problemas? Devo confessar que a resposta é aterradora. Acima de tudo, são os membros do Caminho Neocatecumenal, que, em Viena, têm um seminário por vontade do cardeal Schönborn, que os protege e não se dá conta de que, nas paróquias onde eles atuam, eles estão na origem de profundas divisões. O cardeal é favorável, e eu sou claramente contrário.

Sucessão episcopal

Dom Krätzl, podemos repassar brevemente os bispos individuais?

À vontade, já que são eles que dão uma certa impressão à vida das dioceses. De Schönborn, 69 anos, bispo desde 1991, coadjutor e depois sucessor do cardeal Hans Hermann Groër, em 1995, do qual vou dizer algo mais adiante, eu tenho que dizer que é muito simpático, capaz como teólogo, atento às situações de pobreza, presidente da Conferência Episcopal, mas não é König. O bispo de Graz, Dom Egon Kapellari, 78 anos, espera o seu sucessor. Sempre o definiram como a "cabeça pensante" da Conferência Episcopal. Um homem excepcional. Para Salzburgo, foi enviado o seu auxiliar, Franz Lackner, 58 anos, espírito franciscano. Esperamos que ele defina a sua linha. Em Linz, há Ludwig Schwarz, 74 anos, que teve uma tarefa delicada e difícil, devido à sucessão de Maximilian Aichern, um beneditino de grande talento, dedicado à causa dos leigos. A Ação Católica na sua diocese é poderosa e florescente. Schwarz é amável, certamente não gosta dos confrontos. Quando há uma greve, chama os grevistas à oração.

Para Sankt Pölten, depois do escândalo sexual no seminário no tempo de Kurt Krenn, foi enviado Klaus Küng, de Feldkirch, hoje com 74 anos, do Opus Dei, que tem uma visão legalista das questões mais candentes. Em Klagenfurt, está Alois Schwarz, 62 anos, ex-bispo auxiliar de Viena, animador do famoso Diálogo pela Áustria de 1998, cujas conclusões e pedidos explosivos Roma nem sequer quis considerar. É favorável à ordenação de homens casados e de diaconisas. Em Innsbruck, está Dom Manfred Scheuer, 59 anos, ótimo teólogo, muito bom, um pouco tímido, sabe falar muito bem. É um homem muito aberto, digno de Reinhold Stecher. Mas a verdadeira estrela em ascensão é Benno Elbs, de Feldkirch, um homem como o Papa Francisco. É amado por todos. Em Eisenstadt, para suceder o simpático e corajoso Dom Paul Iby, que soube da nomeação do seu sucessor pelos jornais, foi enviado em 2010 o jesuíta Ägidius Johann Zsifkovics, 51 anos, ex-secretário da Conferência Episcopal. Depois de um início tumultuado, parece que as águas se acalmaram. Ele pretendia corrigir o rumo do seu antecessor, mas entendeu que não era o caminho certo. Por fim, o ordinário militar, Dom Christian Werner, 71 anos, que com toda a probabilidade será o último em tempo integral.

* * *

No seu livro, Helmut Krätzl fala do fim da era König. Em 1983, João Paulo II visitou a Áustria e se fixou na ideia de mudar o curso de König. Em 1984, Michele Cecchini foi enviado como núncio a Viena, fazendo de tudo para provocar uma reviravolta no episcopado presidido pelo cardeal König.

De fato, em 1986, Hans Hermann Groër foi chamado da Abadia de Göttweig para se tornar o sucessor de König. Clero e leigos queriam o auxiliar Helmut Krätzl como sucessor, mas Roma não cedeu às pressões.

Com Groër, ocorreu o início dos conflitos. Em março de 1987, os bispos foram a Roma para a visita ad limina. Um desastre. Dom Krätzl enviou ao papa, no dia 30 de setembro, uma longa carta na qual descrevia a difícil situação em que a Igreja Católica austríaca se encontrava por causa das nomeações equivocadas desejadas por Roma. A resposta chegou quatro meses depois, assinada pelo cardeal Casaroli, secretário de Estado vaticano. Poucas linhas: o papa tomou conhecimento da carta e envia a sua bênção.

Além disso, em 1987, embora não havendo a necessidade, Groër chamou Kurt Krenn, de Regensburg, onde ensinava teologia, de extrema-direita, conservador até os ossos, e fez dele o seu auxiliar. Em 1991, Krenn passou para Sankt Pölten e, em 2004, foi atingido por um escândalo ligado à pornografia no seminário diocesano. Renunciou no dia 7 outubro do mesmo ano e morreu esquecido, depois de uma grave e longa doença, no dia 25 de janeiro de 2014. Eu o visitei mais de uma vez em Sankt Pölten.

Groër, abalado pelas acusações de abusos sexuais, embora protegido pelo Papa João Paulo II, pelo seu secretário eminência parda, Stanislaw Dziwisz, e pelo secretário de Estado, o cardeal Angelo Sodano, no dia 13 de abril de 1995 teve que aceitar a nomeação de Schönborn como coadjutor, com direito de sucessão. Deixando a arquidiocese, Groer tornou-se prior do mosteiro de Roggendorf até 1998. Morreu no dia 24 de março de 2003, em Sankt Pölten, aos 83 anos de idade, esquecido e – ao que parece – sem ter admitido as suas culpas.

A "restauração" (a definição é de Krätzl) levou Georg Eder a Salzburgo e o opusdeísta Klaus Küng a Feldkirch. Tentou-se o caminho da reconciliação com o Diálogo pela Áustria, sob a presidência do bispo de Graz, Joahnn Weber, em 1998, porque Schönborn estava doente. Depois da assembleia, os bispos foram a Roma para encontrar a Cúria e João Paulo II, mas as discordâncias não chegaram a ser resolvidas.

Os anos escuros de Groër pesavam como pedras. Entre 2009 e 2010, a Igreja Católica sofreu uma hemorragia de notável magnitude. Quase 90 mil pessoas saíram da Igreja. Contestou-se a nomeação insensata de Dom Wagner em Linz, depois revogada, e, em junho de 2011, no domingo da Trindade, cerca de 300 párocos e 50 diáconos, que já se encontravam desde 2006 sob a sigla da Iniciativa dos Párocos, lançaram um manifesto com um título emblemático: Apelo à desobediência. Havia o medo de um cisma real. O cardeal Schönborn, com um Apelo à unidade, no dia 7 de julho de 2011, disse estar pronto para encontrar os promotores. A atmosfera mudou com o advento do Papa Francisco.

Diz Krätzl: "Chegou o tempo de falar abertamente. Até agora, a hierarquia se calou. Agora, portas e janelas estão abertas. É preciso ser corajoso. Eu sou crítico, mas a minha crítica é alegre. Quando vou às paróquias para as crismas, levo a alegria e digo que é preciso amar a Igreja, mesmo em tempos difíceis. A minha crítica é de um otimista – tenho 60 anos de sacerdócio nas costas – e me projeto para o futuro. Falo uma linguagem compreensível, e isso me enche de alegria. Aprendi muito com o 'meu' grande arcebispo, o cardeal König. Hoje à noite, haverá uma grande celebração na catedral para lembrá-lo".

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