Carta aos Gálatas: “Até que Cristo se forme em nós” (Gl 4,19)

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31 Agosto 2021

 

"Somos convocados a cultivar nosso itinerário de fé e questionar nosso agir cristão, nos perguntando: o fundamento de nossa vida está em nossos esforços pessoais (obras da lei) ou na experiência profunda da fé no Messias Jesus?",  escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Carta aos Gálatas: “Até que Cristo se forme em nós” (Gl 4,19) (Paulinas, 2021, 248 p.).

O livro é de autoria de Zuleica Aparecida Silvano, irmã paulina, mestra em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e doutora em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Teologia (FAJE) em Belo Horizonte, professora nesta instituição, assessora no Serviço de Animação Bíblica Paulinas (SAB). 

 

Eis o artigo.

 


Comemoramos e celebraremos neste ano de 2021, os cinquenta (50) anos da realização do Mês da Bíblia no Brasil. Na Igreja Católica o mês de setembro é conhecido como o “mês da Bíblia”. Esta é uma importante iniciativa da Igreja, com o objetivo e o esforço permanente de colocar a Palavra de Deus nas mãos do povo. Na esteira do Concílio Vaticano II (1962-1965), que recordou que os fiéis tivessem amplo acesso à Sagrada Escritura (Dei Verbum, n. 22), recentemente a Conferência Nacional dos Bispos no Brasil em sua 58ª Assembleia Geral (2021), considerou a Palavra de Deus como tema central, insistindo para que a Igreja no Brasil avance ainda mais na relação com a Palavra de Deus, alimentando pessoas, grupos, comunidades e demais associações, bem como estimulando o espírito missionário.

 

Resultado desta Conferência foi o Documento de Estudos da CNBB 114, intitulado: “E a Palavra habitou entre nós” (Jo 1,14). Animação Bíblica da Pastoral a partir das comunidades eclesiais missionárias. Dentre outros aspectos, salientou que a Igreja é constantemente interpelada a dar oportunidade de acesso à Sagrada Escritura a todos (cf. n. 36), tendo-se em contra que algumas comunidades, na prática, não colocam a Palavra de Deus como elemento central de sua ação pastoral e missionária, desembocando em devocionismos, dogmatismos e esfriamento do trabalho com a Sagrada Escritura (cf. n. 41). Para isso, convida os especialistas e servidores da Palavra a criativamente encontrarem formas de acesso a todos à Palavra de Deus (cf. n. 36), atentos para a necessidade de uma linguagem popular, afetiva e espiritual, utilizando muitos exemplos e comparações para a compreensão (cf. n. 41).

 

Umas das mais expressivas maneiras de colocar as Sagradas Escrituras nas mãos do Povo é o mês da Bíblia. O referido Documento salienta que o Mês da Bíblia é um “meio precioso em favor da Animação Bíblica da Pastoral” (n. 136). Acrescenta ainda que “já lançou raízes profundas na história recente da nossa Igreja no Brasil. Já se tornou tradição e tipificação da ação da Igreja. Seus textos-base, juntamente com os muitos subsídios produzidos pelo país afora, oferecem às comunidades eclesiais a experiência de fé daqueles que primeiramente acederam ao que Deus queria revelar de Si mesmo. É um criativo esforço de aproximar os crentes de hoje aos protagonistas da fé de ontem. É como se os de outrora e os de agora se reunissem para orar e conversar daquele Deus que se deixou conhecer na profundidade do seu amor” (n. 136).

 

 

A Carta de São Paulo aos Gálatas é o tema do Mês da Bíblia deste ano. E o lema: “Pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28). Para aprofundar os ensinamentos de Paulo contidos nesta carta temos o subsídio/livro elaborado por Dra. Zuleica Aparecida Silvano, irmã paulina, mestra em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e doutora em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Teologia (FAJE) em Belo Horizonte, professora nesta instituição, assessora no Serviço de Animação Bíblica Paulinas (SAB). É a responsável pelo subsídio intitulado: Carta aos Gálatas: “Até que Cristo se forme em nós” Gl 4,19 (Paulinas, 2021, 248 p., Coleção Palavra viva).

 

Capa do livro Carta aos Gálatas: “Até que Cristo se forme em nós” (Gl 4,19), de Zuleica Aperecida Silvano

 

A autora esclarece que ao mergulharmos no estudo da Carta aos Gálatas nos deparamos com a convicção paulina de que a fé consiste em se deixar envolver pela grandeza do amor de Deus revelado no Messias Jesus e que exige de nós uma adesão consciente, que é expressa pelo batismo, pelo qual fazemos a experiência de participarmos do mistério pascal e sermos unidos/as a Cristo. Pelo batismo recebemos também o Espírito Santo (Gl 4,6-7), que faz morada em nosso coração e constantemente pronuncia dentro de nós a oração do Filho Encarnado: “Abba, ó Pai”. É Ele que conscientiza de que somos filhos/as no Filho, pertencemos à família de Deus, e nos convoca a assumirmos nossa missão de proclamar o Evangelho (p. 9-10).

 

 

Sabedores que a Carta aos Gálatas é considerada autêntica de Paulo, isto é, uma epistola protopaulina (p. 11), o presente livro apresenta no primeiro capítulo os elementos introdutórios da Carta aos Gálatas, tais como: o interlocutor ao qual a carta é dirigida; a problemática subjacente (p. 11-13), as características específicas (p. 13-15), as formas literárias (p. 15), a estrutura (p. 16-20), e os destaques teológicos emergentes dos conteúdos abordados (p. 20-22).

 

Após a introdução, são analisados os textos conforme a estrutura da epístola, que basicamente se subdivide em quatro partes:

 

Na primeira parte (p. 23-38), temos o cabeçalho (p. 23-32) e a problemática central da carta (p. 32-38). A este respeito Silvano diz que no início dos escritos paulinos, há os elementos típicos das cartas antigas: remetente, destinatário e saudação. No cabeçalho, raramente, consta um só remetente, mas encontramos, além de Paulo, os nomes de seus colaboradores, como: Silvano, Timóteo, Sóstenes e outros/as. Mormente, a carta é dirigida a uma comunidade em uma cidade específica (Filipos, Tessalônica, Corinto). Além destes aspectos, Paulo acrescenta a saudação “graça e paz”, que provém de Deus Pai e de Jesus Cristo, e a “ação de graças”, que consiste em um agradecimento a Deus por uma determinada característica da comunidade.

 

Nota-se, contudo, em Gl, várias mudanças na estrutura comum dos escritos paulinos, acentuando o caráter polêmico dessa epistola. De fato, a fórmula introdutória com o cabeçalho e a saudação, não são identificados os colaboradores, há somente uma frase genérica: “todos os irmãos que estão comigo”; a carta não é destinada a uma comunidade específica em uma cidade, mas às comunidades da região da Galácia, e não contém o agradecimento habitual, mas, sim, a indicação da problemática da comunidade (p. 23). Paulo exprime a indignação diante da inconstância dos gálatas, por se deixarem levar pelos argumentos de pessoas que são chamados de “adversário”. Seu intuito é apresentar a gravidade do problema e convencê-los a retomarem o caminho iniciado conforme seus ensinamentos (p. 32). Desse modo, tenta defender o evangelho pregado por ele e luta contra a adesão dos gálatas a um evangelho diverso (p. 33).

 

 

Na segunda parte (p. 39-65), são desenvolvidos os primeiros argumentos que compõe o corpo da carta: o tema principal - Gl 1,11-12 (p. 41-42), a defesa do evangelho pregado por Paulo (p. 42-57), a narração da assembleia de Jerusalém e o incidente em Antioquia (p. 57-65). A autora faz notar que com o cabeçalho e a explicitação da problemática vivenciada pelas comunidades da Galácia, Paulo passa a delinear os argumentos sobre a justificação pela fé e não pela observância da lei, com o propósito de provar que seu evangelho provém de uma revelação divina e não de um ensinamento de determinada pessoa, ou da vontade própria. Isso também é corroborado ao narrar seu encontro com os notáveis em Jerusalém e, nessa ocasião, o reconhecimento oficial da autenticidade de seu evangelho. Por fim, relata a discussão que teve com Cefas por causa de leis dietéticas e da relação entre os seguidores de Jesus vindos das culturas judaicas e greco-romanas; isso para defender o conteúdo de sua pregação (2,11-21). Nesta seção há um dos argumentos fundamentais da carta: a justificação é concebida por meio da fé em Cristo e não pelas obras da Lei (p. 39).

 

No segundo bloco do corpo da carta, Paulo reflete sobre a justificação da e não pelas obras da lei (Gl 3,1- 4,31). A autora esclarece que em Gl 3,1-4-31, Paulo objetiva comprovar que os gentios são descendentes de Abraão e filhos adotivos de Deus, pela adesão de Cristo; por isso nessa seção, explica a função da lei, aborda a filiação em Cristo, ressalta a presença do Espírito na experiência batismal e retoma a crise dos gálatas. Para tal intento, não se serve mais de dados autobiográficos, mas da experiência da fé dos gálatas após o batismo e de textos do Antigo Testamento, sobretudo do ciclo das narrativas de Abraão para comprovar seus argumentos. Abraão é evocado como aquele que creu, que recebeu as promessas e são mencionados seus dois filhos Ismael, filho da escrava Agar, e Isaac, filho da mulher livre, Sara (p. 67).

 

Pela densidade do conteúdo e por questões didáticas a autora decidiu aprofundar essa temática em três momentos:

 

1) a análise do texto de Gl 3,1-29 (p. 67-109). Ao resumir esse bloco, a autora diz que podemos dizer que a redenção vem só pela fé em Cristo e é oferecida a todos os que creem. Desse modo, o Cristo crucificado, cumprindo a bênção feita a Abraão, une judeus e gentios, põe fim à maldição que a lei atraía sobre os pecadores e dá o Espírito que liberta o ser humano do jugo dos poderes deste mundo, fazendo-o filho e filha de Deus. Quanto à função de pedagoga da lei, ela atinge sua meta quando conduz os filhos ao Mestre. Esse momento não é estabelecido pela lei, mas pelo próprio Deus ao decidir enviar o seu Filho (p. 109);

 

2) a análise de Gl 4,1-20 (p. 111-167) – a autora explica que estruturalmente, Gl 4,1-31 faz parte da argumentação iniciada em Gl 3,1, contendo exemplos da experiência dos gálatas e das Escrituras para provar a justificação pela fé e não pelas obras da lei (p. 111). Na primeira, em Gl 4,1-7, Paulo, servindo-se do exemplo de um herdeiro que não pode usufruir a herança por ser menor de idade, faz uma releitura de toda a história da salvação, até o envio do Filho e do Espírito. Assim, ele comprova que a justificação se dá pela no Cristo crucificado e ressuscitado e que a participação da filiação em Cristo é possível para todos os destinatários do Evangelho mediante o dom do Espírito.

 

Na segunda demonstração, em Gl 4,8-20, Paulo recorda o acolhimento que recebeu dos gálatas quando permaneceu na Galácia, por causa de uma grave enfermidade; tenta, assim, convencê-los de que existe uma experiência profunda entre ele e a comunidade. Portanto, não compreende como os gálatas puderam se deixar influenciar pelos judaizantes, colocando em dúvida a estima de Paulo pelos gálatas e a sua pregação. Na última prova, em Gl 4,21-31, por meio de uma releitura tipológica das narrativas pertencentes ao ciclo de Abraão, Paulo comprova que Agar e Ismael representam a aliança no Sinai e a lei que não pode justificar, por não ser essa a sua função; em contrapartida, Sara e Isaac representam Cristo, a nova aliança, na qual todos os que n´Ele creem são justificados (p. 111-112);

 

3) a análise da perícope Gl 4,21-31 (p. 169-190). A autora esclarece que Gl 4,21-31 faz parte da segunda demonstração iniciada em Gl 3,1, estando estritamente unida com Gl 4,1-20, e serve-se de textos bíblicos do Antigo Testamento. Assim, a grande dificuldade dessa perícope é compreender qual seria a sua função nesse contexto de argumentação de Paulo. A autora salienta que alguns comentadores a avaliam como secundária, outros como uma exortação dirigida aos gálatas em continuidade com os versículos anteriores. Ela é relevante dado que apresenta outras provas da sagrada Escritura, sendo a segunda parte da demonstração iniciada em 3,1 e em paralelo com 3,6-25, retomando Gl 4,7, ao concluir com a temática da filiação do batizado e seu direito à herança. Seu papel é demonstrar que fiel é verdadeiramente filho de Abraão e livre, não escravo da lei; e, ao utilizar Is 54, reforça a dimensão universal da aliança e da redenção (p. 169).

 

A terceira parte da Carta aos Gálatas é exortativa, (p. 191-219), tendo como ponto de partida as implicações na prática cristã da adesão a Cristo, do ser filho/a de Deus no Filho, pelo batismo, e em que consiste ser guiado/a pelo Espírito. Nesta parte exortativa, segundo a autora é possível verificar três temáticas distintas, que, no entanto, giram em torno da ética cristã. Paulo começa admoestando os batizados/as a permanecerem firmes na liberdade concedida por Cristo (Gl 5,1-12). Em seguida estabelece uma relação entre o ser livre e a lei do amor, elenca as obras da carne e o fruto do Espírito (Gl 5, 13-26) e, por fim, traz em Gl 6, 1-10, conselhos específicos atinentes à correção fraterna, à partilha, à seriedade em viver a fé professada e à dedicação à prática do bem (p. 191).

 

Por fim, a autora analisa a conclusão da carta (p. 221-227), a quarta parte da Carta aos Gálatas, na qual o Apóstolo sintetiza os argumentos anteriores, retomando a problemática com os judaizantes e a crise das comunidades da Galácia, e se despede. A autora destaca que ao concluir a Carta aos Gálatas, Paulo sintetiza as ideias principais, pede a bênção de Deus para a comunidade e se despede. Nesse resumo, retoma a polêmica com os judaizantes e faz uma apologia pessoal. Essa seção se abre com a autobiografia paulina e fecha-se com a bênção final (p. 221).

 

Em suma, em toda a Carta aos Gálatas, Paulo manifesta a necessidade de uma total adesão à pessoa de Cristo, ao seu mistério de morte e ressurreição e à importância do batismo. Por isso, a sua preocupação é ajudar os gálatas a tomarem consciência da sua realidade e a perceberem as implicações teológicas existentes em um problema que parecia secundário. De fato, supunha decidir entre confiar na lei ou em Jesus Cristo, enviado pelo Pai; em ser conduzido por ela ou pelo Espírito Santo recebido no batismo; em depositar a confiança nos méritos da ação humana ou no dom da justificação por meio da fé. Paulo fez os gálatas compreenderem que somente uma vida baseada na fé no Filho de Deus encarnado e no amor de Deus manifestado no Messias Jesus é capaz de fazê-los encontrar a autêntica liberdade (p. 226-227).

 

 

Diante disso, a autora destaca que ao aprofundarmos a Carta aos Gálatas, somos convidados/as a intensificar nossa reflexão sobre o fundamento de nossa vida cristã. Somos convocados a cultivar nosso itinerário de fé e questionar nosso agir cristão, nos perguntando: o fundamento de nossa vida está em nossos esforços pessoais (obras da lei) ou na experiência profunda da fé no Messias Jesus? (p. 8). Assim, também nós, ao estudarmos essa carta, somos convidados/as a retomar a experiência do batismo, a compreender a grande novidade do messianismo de Jesus e a nos aprofundarmos em nossa experiência com Jesus crucificado-ressuscitado, a ponto de um dia podermos dizer: “fui crucificado com Cristo".

 

 

Portanto, não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim; e, enquanto vivo na carne, vivo na fidelidade do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. Contemplando esses desejos de Paulo, o possamos realizá-los também em nossa vida, nesse processo de humanização de nossas relações e de cristificação, nessa entrega ao amor de Deus e ao serviço de nossos irmãos e irmãs, até que Cristo se forme em todos nós (p. 227).

 

 

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