Festa da Ascensão - Ano B - Acolher a presença de Deus no cotidiano

Por: MpvM | 14 Mai 2021

 


“Várias vezes o Evangelho segundo Marcos se refere às resistências dos discípulos, por não acreditarem na manifestação do messianismo de Jesus. O que é interessante notar é que mesmo constatando que são lentos em mudarem de mentalidade, Jesus confia a missão de anunciar a Boa Nova a todas as criaturas aos discípulos. Ele continua acreditando na transformação do ser humano.

“Um elemento que algumas vezes esquecemos é que o cristianismo é uma religião de adesão, ou seja, nós não nascemos cristãos, mas é necessário aceitar e professar que Jesus crucificado e ressuscitado é o Messias e é o Filho de Deus.”

A reflexão é de Zuleica Aparecida Silvano, fsp, religiosa da Congregação das Irmãs Paulinas. Ela possui licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (1999), graduação em Teologia pelo Instituto Santo Inácio - ISI (2001), em Belo Horizonte, mestrado em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico - PIB (2009) de Roma e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE (2018), em Belo Horizonte. Pertence aos Grupos de Pesquisa: A Bíblia em Leitura Cristã (FAJE) e Bíblia e Interpretação: linguagens da Escritura (PUC-MG). É professora na FAJE, assessora no Serviço de Animação Bíblica (SAB/ Paulinas) e Centro Loyola (Belo Horizonte).

 

 

Leituras do Dia
1ª Leitura - At 1,1-11
Salmo - Sl 46,2-3.6-7.8-9 (R.6)
2ª Leitura - Ef 1,17-23
Evangelho - Mc 16,15-20

 

Hoje celebramos a festa da ascensão, quando fazemos memória da partida de Jesus para o Pai e de sua presença para sempre em nosso meio, como veremos nos textos bíblicos próprios dessa festa.

A primeira leitura (At 1,1-11) narra a longa trajetória de instrução que Jesus, após a sua ressurreição, deu aos apóstolos. Não é somente uma transmissão de conteúdos, mas essa instrução é dada na intimidade, por meio do convívio entre o Ressuscitado e os discípulos, por isso Lucas nos diz que se dá numa refeição. O conteúdo desse ensinamento é o Reino de Deus e é quando Jesus anuncia a vinda do Espírito Santo. O Espírito Santo é aquele que nos acompanhará após a ressurreição de Jesus, orientando as comunidades e nos configurando a Cristo, nos gestando conforme o Filho de Deus, nesse processo de humanização de nossas relações.

No v. 6, temos a pergunta dos apóstolos sobre a restauração do reino de Israel. É interessante, pois Jesus está falando sobre o Reino de Deus inaugurado por meio de seus gestos de solidariedade, de comunhão fraterna, do ir ao encontro dos pobres, dos marginalizados, do regaste da vida e da dignidade humana e os apóstolos perguntam sobre o Reino de Israel. Realmente não é fácil mudar de mentalidade e pensar conforme a lógica do reino de Deus. O reinado de Deus foi revelado em toda a vida de Jesus, e podemos sintetizá-lo como sendo a humanização das relações, começando com a recuperação da humanidade daqueles que são desrespeitados em sua dignidade: os doentes, os pobres excluídos, as pessoas que são discriminadas. Por isso, que como veremos no evangelho, os sinais que acompanham o cristão são exatamente aqueles que resgatam a dignidade humana, tão machucada, ferida. Assim o Reino é uma nova forma de organizar nossa vida no mundo, é o momento de avaliar nossas relações pessoais e sociais. O anúncio do Reino não se faz sem conflitos com as forças “deste mundo”, isso também será explicitado nos sinais apresentados no evangelho. Há uma relação intrínseca entre a vida de Jesus e sua morte. Nós que aderimos a Jesus, precisamos ter presente que não será diferente conosco!

 

 

Outro aspecto presente nesse texto é o de ser testemunha, quando somos convidadas/os a testemunhar sobre algo, é necessário ter feito a experiência daquilo que testemunharemos. Esse testemunho não é restrito, ele deve atingir até os confins do mundo. O termo testemunho tem afinidade com martírio.

Depois dessas instruções é narrada a ascensão de Jesus e, novamente, surpreende a atitude dos apóstolos, pois ficam aí parados, como expectadores. Nesse contexto surge essa duas pessoas vestidas de branco, que é a presença de Deus, que movimentam esse pessoal, pois não é para ficar aí parados, de braços cruzados, mas é necessário anunciar e vivenciar esse Reino proclamado por Jesus Cristo. É o momento do comprometimento dos discípulos, de não ficar olhando para o céu somente, mas olhar para as diferentes realidades, olhar para a presença de Deus no cotidiano, de serem e sermos afetadas, afetados, pela dor da humanidade, por suas alegrias e esperanças.

Esse texto de Atos retrata duas atitudes que podemos ter. A primeira é a de ser instruídas/os constantemente, de ouvirmos falar do Reino, de suas exigências e continuarmos com a mesma mentalidade, sem uma real conversão de nossa mente e do nosso coração. Ou seja, é necessário vivenciarmos aquilo que compreendemos, que aprofundamos. A segunda atitude é aquela sugerida pelas duas pessoas vestidas de brancos, ou seja, não adianta sermos meros expectadores, encantadas com a beleza do Reino, das palavras lindas do evangelho e ficarmos aí, olhando para o alto. É necessário sairmos de nossa acomodação, sermos um cristão, uma cristã em estado constante de saída.

Esses elementos são retomados no Evangelho (Mc 16,15-20). Ele faz parte do apêndice do Evangelho segundo Marcos. Antes desse v. 15, temos a lista de algumas aparições de Jesus: a discípula e apóstola Madalena, aos dois discípulos que caminham pelo campo e aos onze apóstolos. A menção as duas primeiras aparições tem a intenção de reprovar os onze discípulos, por não acreditarem no testemunho das pessoas que viram o ressuscitado. Várias vezes o Evangelho segundo Marcos se refere as resistências dos discípulos, por não acreditarem na manifestação do messianismo de Jesus. O que é interessante notar é que mesmo constatando que são lentos em mudarem de mentalidade, Jesus confia a missão de anunciar a Boa Nova a todas as criaturas aos discípulos. Ele continua acreditando na transformação do ser humano. Jesus diz: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho. Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado”. Um elemento que algumas vezes esquecemos é que o cristianismo é uma religião de adesão, ou seja, nós não nascemos cristãos, mas é necessário aceitar e professar que Jesus crucificado e ressuscitado é o Messias e é o Filho de Deus.

 

 

Após confiar a missão às discípulas/os de todo os tempos, temos um elenco dos sinais que acompanharam esse discípulo missionário e essa discípula missionária, que são os mesmos que Jesus realizou em sua vida. O primeiro é “expulsará demônios em meu nome”, isto é, combaterá a força do mal que destrói a vida. Os demônios, diferente de Satanás, podem ser interpretados como as doenças, que não tinham explicação para a medicina da época, isso significa promover a vida em todos os sentidos diante do mal.

O segundo é “falará novas línguas”, essa nova linguagem só pode ser do amor, do serviço, da doação, como em pentecostes.

O sinal expresso pela frase: “se beber algum veneno mortal, não lhe fará mal” não pode ser interpretada literalmente, mas beber algum veneno é estar num contexto de violência, de ódio, num ambiente que resiste aos valores evangélicos e manter-se fiel, firme, acreditando nos valores do Reino: na justiça, na verdade, na solidariedade, no cuidado para com a natureza e para com o outro/a. O curar as doenças, pode ser visto de várias formas. Pode ser assumir a atitude solidária promovendo a saúde para todos; o dar atenção aos pobres, aos marginalizados de nossa sociedade; o sermos os bons samaritanos, que tenta aliviar a dor com o óleo da esperança, do amor, da presença, do lutar à favor da vida. Dizia o papa, naquela oração na praça São Pedro: “Não nos detivemos perante os teus apelos constantes, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”. Assim, curar os doentes é ouvir os apelos da terra e dos pobres e mudar de atitude.

Depois desse elenco daquilo que caracteriza a/o verdadeira/o seguidor/a de Jesus, Ele é arrebatado aos céus, para junto do Pai. Porém estará sempre no meio dos seus discípulos e discípulas. O texto também nos convida a sermos testemunhas da ressurreição, sinais de vida no ambiente onde atuamos, sobretudo, onde a vida está em perigo pela estrutura de morte.

Isso é confirmado com a leitura da carta aos Efésios (Ef 1,17-23), que não é uma carta autêntica de Paulo, apesar de ser inserida em sua tradição. O autor diz que Deus constitui Cristo como cabeça da Igreja, como aquele que a orienta, e é apresentado o senhorio de Cristo: sua ressurreição, sua exaltação, estando à direita do Pai, instaurando dessa forma o Reinado de Deus. O texto continua afirmando que a presença de Cristo plenifica a Igreja e o Universo. Isso nos remete a Teologia da Presença, quando a glória de Deus preenchia todo o templo; agora é o próprio Jesus crucificado e ressuscitado que é o lugar onde nos encontramos com o próprio Deus. Deste modo, Jesus realiza as profecias, que defendiam a revelação da glória nos tempos messiânicos e escatológicos. Cristo é o único Senhor da Igreja e plenifica toda a Igreja, mas a Igreja não contém totalmente Cristo. A Igreja se torna o lugar da maturidade do encontro entre Deus e a humanidade, porém não há um exclusivismo eclesiológico, e sim cristológico na Igreja.

Mas, o que realmente celebramos na festa da ascensão? Em primeiro lugar celebramos a certeza de que Jesus realmente ressuscitou, ou seja, ele não simplesmente voltou a viver. A ressurreição insere definitivamente o eterno na história, por isso falamos na inauguração do Reino de Deus com Jesus. A ressurreição é um fato da fé, mas se realmente acreditamos que ressuscitaremos de forma integral, ou seja, que não há essa separação de corpo e alma; com a ascensão celebramos a humanidade de Jesus, que entra no seio da Trindade. A Trindade já não é mais a mesma. Isso nós verificamos por meio desses textos bíblicos da liturgia, mas também da oração após a comunhão, nessa festa da ascensão, quando rezamos: “Deus eterno que nos concedeis conviver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade”. Assim, essa festa nos convida a sermos anunciadoras/es do Reino, por meio do nosso testemunho, como diz o Papa Francisco “Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176). Mas, somos, sobretudo, convidadas/os nessa festa da ascensão a entender a grandeza do ser humano, a reconhecer o valor do ser humano sempre e em qualquer circunstância.

As perguntas que emergem diante dessas leituras são:

1) Na minha vida, na família, no trabalho, nos meios sociais e digitais, nesse tempo de pandemia, sou testemunha da ressurreição de Jesus gerando vida ao meu redor?

2) Como está nossa adesão a Jesus Cristo, que nos impulsiona a não ficar aí, olhando para o céu, mas sairmos de nós mesmas/os para tornar o Reino de Deus presente no mundo?

3) Somos conscientes da grandeza da humanidade, expressa nessa festa da Ascensão, que faz memória da humanidade de Jesus que é inserida no seio da Trindade?
Uma linda festa da ascensão do Senhor, a festa da dignidade humana!

 

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