Manifestações de 3 de julho ampliam engajamento contra o governo, mas impeachment ainda depende de conjugação de fatores. Entrevista especial com Ricardo Musse

Manifestantes na Avenida Paulista (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

Por: João Vitor Santos, Patricia Fachin | Edição: Ricardo Machado | 03 Julho 2021

 

A primeira vez este ano em que as ruas brasileiras foram tomadas por opositores ao governo de Jair Bolsonaro foi no dia 29 de maio. Três semanas depois, em 19 de junho, novamente houve grande mobilização, reunindo centenas de milhares de participantes, segundo os organizadores. A última mobilização de rua, prevista para o dia 19 de julho, acabou sendo adiantada para o sábado, 3 de julho, entre outras razões, em função do escândalo da Covaxin.

“A novidade foi o engajamento de (ainda poucos) militantes do PSDB e do Cidadania, em sintonia com o arco de apoio ao super pedido de impeachment protocolado na Câmara de deputados no dia 30 de junho”, avalia Ricardo Musse, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

As manifestações de rua estão conectadas aos desdobramentos da CPI da pandemia, que, embora não tenha chegado a uma conclusão, afinal está em andamento, tem produzido uma contranarrativa ao discurso oficial, não raro, falacioso. Além disso, a investigação parlamentar tem minado os setores que servem de apoio ao governo Bolsonaro.

“Foram convocados a prestar depoimentos: (a) militares (general Eduardo Pazzuelo e sua equipe no ministério da Saúde); (b) quadros do Centrão (inclusive o deputado líder do governo, Ricardo Barros) e (c) empresários que financiam as atividades de mobilização das milícias bolsonaristas nas ruas e nas redes sociais (os bilionários Carlos Wisard e Luciano Hang)”, frisa.

 

Ricardo Musse (Foto: Flicker CC)

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Qual sua análise das manifestações de rua do sábado 3 de julho?

Ricardo Musse – As manifestações de 3 de julho cumpriram a função de manter a mobilização iniciada em 29 de maio. Convocadas às pressas, por conta das denúncias de corrupção na compra de vacinas pelo governo federal, levaram às ruas um número expressivo de pessoas, em atos com dimensões semelhantes aos de 19 de junho. A novidade foi o engajamento de (ainda poucos) militantes do PSDB e do Cidadania, em sintonia com o arco de apoio ao super pedido de impeachment protocolado na Câmara de deputados no dia 30 de junho.

 

 

IHU On-Line – Institucionalmente, quais têm sido as implicações da CPI até agora e o que pode ocorrer daqui para a frente?

Ricardo Musse – Embora, à primeira vista, as convocações da CPI pareçam erráticas, seguindo denúncias repercutidas na imprensa e nas redes sociais, um balanço de seus dois meses de atividades revela a presença de um método e de uma estratégia precisa. As ações da CPI estão orientadas para minar as narrativas e as bases sociais do bolsonarismo.

Primeiro, a CPI concentrou as investigações nas recomendações de tratamento precoce, na criação de empecilhos para a compra das vacinas e no colapso médico da cidade de Manaus, com a falta de oxigênio hospitalar. Conseguiu assim construir uma contranarrativa que desmoralizou o discurso bolsonarista que sugeria uma condução eficaz no combate à pandemia. Reforçou a denúncia da conduta “genocida” do presidente e do governo.

 

 

Seguindo a trilha das tratativas referentes à compra de vacinas, a CPI deparou-se com supostas exigências de propinas por parte dos encarregados da logística no Ministério da Saúde. Quebrou-se assim a narrativa bolsonarista de um governo orientado pelo combate à corrupção.

O rol das pessoas investigadas inclui representantes significativos de três setores que podem ser considerados como a base principal da sustentação ideológica, política e administrativa de Jair M. Bolsonaro. Foram convocados a prestar depoimentos: (a) militares (general Eduardo Pazzuelo e sua equipe no ministério da Saúde); (b) quadros do Centrão (inclusive o deputado líder do governo, Ricardo Barros) e (c) empresários que financiam as atividades de mobilização das milícias bolsonaristas nas ruas e nas redes sociais (os bilionários Carlos Wisard e Luciano Hang).

 

 

 

 

IHU On-Line – O que tudo isso pode implicar para o futuro e quais as perspectivas para 2022?

Ricardo Musse – As revelações da CPI, com suas repercussões na grande imprensa, nas redes sociais e nas ruas, colocaram em cena, com força, a possibilidade do impeachment. Este depende, no entanto, de uma conjugação de fatores que ainda não se mostraram suficientes para demover Artur Lira – o presidente da Câmara – e a maioria qualificada dos deputados.

 

Neste cenário, intensifica-se a rejeição de Jair Bolsonaro, fato comprovado por pesquisas recentes. Discute-se já, nos meios políticos, se o presidente da República será um dos candidatos a ir para o segundo turno em 2022, caso este aconteça.

 

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