Do consumismo à fraternidade. A transição ecológica pressupõe um novo pacto social

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10 Junho 2021

 

"A transição ecológica pressupõe um novo pacto social, também na Itália. Para realizar essa transição, há muitos planos em que atuar simultaneamente. Por um lado, é necessário aprofundar a 'educação para a responsabilidade'", escrevem Comissão Episcopal para os Problemas Sociais e Trabalho, Justiça e Paz e a Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo, em mensagem reproduzida por Avvenire, 09-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a mensagem.

 

Na Mensagem da CEI (Conferência Episcopal Italiana) para o Dia Nacional do Cuidado da Criação, programado para 1º de setembro, a exigência de um modelo diferente de desenvolvimento. A transição ecológica pressupõe um novo pacto social. Mensagem para o 16º Dia Nacional da Custódia da Criação. Um encontro que será celebrado novamente este ano no dia 1º de setembro. Assinam o documento da Igreja italiana a Comissão Episcopal para os Problemas Sociais e Trabalho, Justiça e Paz e a Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo. O título, que retoma um trecho da Carta de São Paulo aos Romanos, é: "Andar em novidade de vida" (Rm 6,4). A transição ecológica para o cuidado da vida.

A época que vivemos está cheia de contradições e oportunidades. Na fé somos chamados a abandonar o que torna a nossa vida estéril: no encontro com Cristo renasce a esperança e nos tornamos capazes de uma fecundidade renovada. Na sua carta aos cristãos de Roma, São Paulo recorda o grande anúncio pascal que se realiza no batismo de cada um: em Cristo morremos para o pecado e “podemos andar em novidade de vida” (Rm 6,4). A vida nova de que se fala coloca o discípulo de Jesus em profunda comunhão com Deus. A partir dessa experiência podemos imaginar uma verdadeira fraternidade entre os homens, como sugere a Encíclica Fratelli tutti, e uma nova relação com a criação, segundo o desígnio da Encíclica Laudato si'.

 

A caminho da 49ª Semana Social

 

O 16º Dia Nacional do Cuidado da Criação vê a Igreja que na Itália está a caminho da 49ª Semana Social dos Católicos Italianos, que terá como título 'O planeta que esperamos. Ambiente, trabalho, futuro. #tuttoèconnsesso'. O caminho que leva a Taranto exige um suplemento do envolvimento de todos para que seja um percurso de Igreja que se propõe a caminhar junto e com estilo sinodal. A esperança que nos move a zelar pelo bem comum se alia - destaca o Instrumentum laboris - a um forte sentido de urgência: é preciso combater, com rapidez e eficácia, a degradação socioambiental que se entrelaça com os dramáticos fenômenos pandêmicos dos últimos anos. “As mudanças climáticas continuam a avançar com danos cada vez maiores e insustentáveis. Não há mais tempo para hesitar: o que é preciso é uma verdadeira transição ecológica que possa modificar alguns pressupostos básicos do nosso modelo de desenvolvimento” (IL, n. 20).

Estamos, portanto, vivendo uma mudança de época, se realmente soubermos ler os sinais dos tempos. Disso, o convite a uma transição que transforme em profundidade a nossa forma de vida, a realizar em muitos níveis aquela conversão ecológica a que convida o sexto capítulo da Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco. Trata-se de retomar com coragem o caminho, deixando para trás uma normalidade com elementos contraditórios e insustentáveis, para procurar um modo de ser diferente, animado pelo amor à terra e às criaturas que a habitam. Com essa transição damos expressão ao cuidado pela casa comum e, assim, correspondemos à imagem de Deus que, como Pai, cuida de cada um/a.

A transição como um processo gradual. A própria ideia do caminho remete ao paradigma bíblico do êxodo, que prevê a coragem de abandonar antigas lógicas erradas, a capacidade de enfrentar as crises no deserto e o desejo de alimentar a esperança de poder chegar à terra prometida. Fora da metáfora, é claro que todo caminho de conversão está sujeito a momentos de prova. A transição remete a uma série de etapas e à capacidade de discernimento para entender quais escolhas são adequadas. Como o povo de Israel nos quarenta anos de transição da escravidão para a terra prometida, um período de decisões importantes nos espera.

Há sempre o perigo de lamentar o passado, de fugir da temporada das mudanças e de não olhar com confiança para o futuro que nos espera. Na transição ecológica, se deve abandonar um modelo de desenvolvimento consumista que aumenta as injustiças e as desigualdades, para adotar um modelo centrado na fraternidade entre os povos. O grito da terra e o grito dos pobres nos desafiam, assim como o grito de Israel escravizado no Egito subiu aos céus (Ex 3,9). A riqueza que gerou desperdícios e descartes não deve dar origem a saudades. Entre velhas mentalidades, que contrapõem saúde, economia, trabalho, meio ambiente e cultura, e novas possibilidades de manter conectados esses valores, como também a ética da vida e a ética social (cf. Caritas in veritate, n.15), vivemos na temporada de transição. Uma gradualidade nos espera, que, no entanto, requer escolhas precisas. A nossa preocupação é iniciar processos e não ocupar espaço ou parar e lamentar um passado repleto de contradições e injustiças. Temos o compromisso de acompanhar e encorajar as mudanças necessárias, a partir do olhar contemplativo sobre a criação até as nossas escolhas cotidianas de vida.

 

A justa transição

 

A transição ecológica é “tanto social e econômica, cultural e institucional, individual e coletiva” (IL, n. 27), mas também ecumênica e inter-religiosa. É inspirada na ecologia integral e envolve os diferentes níveis de experiência social que são interdependentes entre si: organizações mundiais e Estados individuais, empresas e consumidores, ricos e pobres, empresários e trabalhadores, novas e velhas gerações, igrejas cristãs e confissões religiosas... Cada um deve se sentir envolvido em um projeto comum, pois percebemos como um fracasso a ideia de que a sociedade possa melhorar através da exclusiva busca do interesse individual ou de grupo.

A transição ecológica pressupõe um novo pacto social, também na Itália. Para realizar essa transição, há muitos planos em que atuar simultaneamente. Por um lado, é necessário aprofundar a "educação para a responsabilidade" (IL, n. 38), para um "novo humanismo que assuma também o cuidado da casa comum" (IL, n. 17), envolvendo os múltiplos sujeitos empenhados no desafio educacional. Em primeiro lugar, a antropologia precisa ser profundamente repensada, superando formas de antropocentrismo exclusivo e autorreferencial, para redescobrir aquele sentido de interconexão que encontra expressão na ecologia integral, na qual a ecologia humana se une à ecologia ambiental. O padre Primo Mazzolari, mestre de espiritualidade e de empenho social da Igreja do século XX, escreveu em 1945: “Talvez muitas das nossas infelicidades derivem desta falta de sintonia com a natureza, como se não participássemos dela. Tudo se liga, e aceitar viver em comunhão não é uma diminuição, mas uma plenitude” (Diario di una primavera).

Ao mesmo tempo, é necessário promover “uma sociedade resiliente e sustentável onde criação de valor econômico e criação de empregos sejam buscadas por meio de políticas e estratégias atentas à exposição aos riscos ambientais e sanitários” (IL, n. 26). Estas etapas complexas devem ser realizadas com atenção para evitar penalizar - especialmente ao plano do trabalho – os sujeitos que correm o risco de ser mais diretamente afetados pela mudança: a "transição ecológica" deve ser, ao mesmo tempo, uma "transição justa". Nesse sentido, são fundamentais o conhecimento e a difusão daquelas boas práticas que abrem o caminho para uma "resiliência transformadora" (IL, n. 39).

 

Buscar juntos

 

A mudança só se ativa se soubermos construí-la na esperança, se soubermos buscá-la juntos: “Juntos é a palavra-chave para construir o futuro: é o nós que supera o eu para compreendê-lo sem destruí-lo , é o pacto entre as gerações que é construído, é o bem comum que volta a ser realidade e não pregação, ação e não apenas pensamento” (IL, n. 29). O bem comum torna-se um bem comum global porque abraça também o cuidado da casa comum. É necessário um discernimento atento para buscarmos juntos como alcançá-lo, em um estilo sinodal que valorize a competência e a participação, que saiba estar atento às novas gerações. Abra-se para o futuro. Que o caminho rumo à Semana Social de Taranto seja acolhido por toda a Igreja na Itália, para que reforce o seu empenho educativo em fazer da Laudato si' a bússola de um serviço para a sociedade e para o país.

Ao mesmo tempo, é importante manter viva aquela atenção ecumênica que guiou as Igrejas a aprender a escutar juntas “o grito da terra e o grito dos pobres”, segundo a indicação da Laudato si' (cf. n. 49). Trinta anos atrás, em 1991, a Assembleia do Conselho Ecumênico de Igrejas foi realizada em Canberra sob o sinal da invocação: "Vem Espírito Santo: renova toda a criação". Façamos nossa esta oração, que já há vinte anos incentivou a Conferência das Igrejas Europeias (Kek) e o Conselho das Conferências Episcopais da Europa (Ccee) a assinarem conjuntamente a Charta Oecumenica com o compromisso de instituir um Dia Ecumênico dedicado à Criação. Hoje sentimos a necessidade de fortalecer o caráter ecumênico deste dia de 1º de setembro. Que o apoio das Igrejas e das comunidades cristãs aos processos iniciados ajude e fomente no diálogo os caminhos de transição e renovação. Será mais uma prova eloquente da fraternidade universal da qual todos são chamados a dar testemunho.

 

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