“A transição ecológica é a esperança. Ou ela é solidária ou não acontece”. Entrevista com Nicolas Hulot

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12 Fevereiro 2021

“Estou feliz porque agora vocês (italianos) têm duas grandes oportunidades pela frente. A primeira é que vocês escolheram o único caminho que pode permitir que superem as crises ecológica e econômica. E a segunda é que vocês podem tirar proveito dos erros que cometemos na França tentando atingir o mesmo objetivo”. Percebe-se um sorriso por trás da resposta de Nicolas Hulot, que atende o telefone depois de um longo dia, a maior parte tentando entender se a Itália poderia se tornar o cenário que ele desejava para sua França. Possibilidade a que renunciou com sua demissão no verão de 2018 como Ministro de Estado para a Transição ecológica e solidária.

A entrevista é de Antonio Cianciullo, publicada por Huffington Post, 11-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Parecia que na França existissem as condições para o salto em direção a uma visão moderna e dinâmica da ecologia. Um presidente jovem que ganhou as eleições com uma mensagem ligada à mudança. A escolha de um ecologista como ministro. Por que não funcionou?

O presidente Macron e eu tínhamos uma percepção diferente da urgência da crise ecológica. E também do modelo de produção que está dilapidando os recursos do planeta e nossas chances de sobrevivência. Quando me pediram para assumir as funções de ministro, aceitei com apenas uma condição: não ser deixado sozinho. Não por timidez. Mas porque a batalha contra os lobbies do antigo modelo de desenvolvimento não pode ser vencida por uma pessoa só, mesmo que seja um ministro de Estado, ou seja, um ministro com uma função central. O governo deve ser uma equipe. E o responsável pelo governo deve ser o fiador do caminho a ser seguido. Quando vi que essa garantia não existia e que prevalecia uma linha minimalista e a tendência de esperar para ver, sai porque com meias medidas você só realiza confusão.

Parece que os noticiários lhe deram razão. Os centavos conseguidos pelo Estado francês com os impostos sobre a gasolina acenderam o fogo do gilet jaunes.

Foi exatamente isso que aconteceu. A questão é que são necessárias medidas radicais, mas também de solidariedade. Se tivessem usado o produto dos impostos ecológicos para defender as pessoas que corriam o risco de serem penalizados por aqueles impostos, os gilet jaunes não teriam existido.

Mas quem tem menos é quem mais perde por causa dos desastres causados pela crise climática. É uma grande contradição.

E é por isso que a transição ecológica é solidária ou não acontece. Mas para transmitir essa mensagem, é preciso coerência nas ações, não nas palavras. É preciso trabalhar na aceitabilidade da transição ecológica. Através de uma análise honesta do que acontecerá na temporada de transição da economia dos combustíveis fósseis para a das energias renováveis e da eficiência. Haverá aqueles que perderão seus empregos e aqueles que os ganharão. E, portanto, é necessário criar um fundo de compensação por meio de uma tributação justa.

Em que sentido?

Acho que os recursos arrecadados com impostos que desestimulam o consumo de alto impacto ambiental devem ser destinados ao incentivo a outras atividades que recompensem o consumo de baixo impacto ambiental.

Dito assim, todos concordam. Na prática, o que isso significa?

Vou explicar isso logo. Vejamos a nova PAC, a reforma da política agrícola da UE que gere dezenas de bilhões de euros. Nesse ponto há um confronto muito forte. Esse dinheiro deve continuar a ir para o velho modelo agrícola que é um dos responsáveis pela poluição que nos assedia? Ou deve sustentar a transição para uma agricultura de baixo impacto ambiental, uma agricultura capaz de aliviar a pressão da crise climática armazenando carbono no solo, defendendo a fertilidade do solo, dando aos agricultores a oportunidade de ter uma renda adicional usando energias renováveis?

Então, se a gente fosse fazer um ranking das prioridades do novo Ministério da Transição ecológica, você vê um papel importante para a agricultura. Na Itália, fala-se pouco disso. E depois?

Há energia e eu já mencionei isso. A transição da energia fóssil para a energia renovável é um eixo central de qualquer política voltada para o futuro. Mas esse é um dos pontos que já surgiram com mais clareza. Talvez seja mais interessante focar na tributação, que é um tema mais controverso. Mensagens claras devem ser emitidas: aqueles que já são os mais afetados pelas enchentes e poluição hoje porque são economicamente mais fracos não podem ser atingidos uma segunda vez pela transição ecológica. Assim como quem produz bens e serviços à custa da justiça ambiental e social não pode ser recompensado. Precisamos de medidas que defendam a Europa da concorrência desleal de países que não aplicam as normas ecológicas e sociais da União Europeia.

Você acha que a Itália, com o novo Ministério de Transição Ecológica que se perfila, poderá atingir esses objetivos?

Acho que a ideia de concentrar as competências ambientais e energéticas em um único ministério é um passo fundamental à frente. As chances serão boas se for percebido que um desafio desse tipo não pode ser colocado nos ombros de uma pessoa. O chefe de governo deve ser o fiador do projeto, planejando e harmonizando as escolhas que conduzem nessa direção. É um experimento importante. Uma esperança para toda a Europa.

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