A esquerda diante do programa econômico de Biden

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03 Mai 2021

 

“Independentemente de seu desenvolvimento, e da tática parlamentar e institucional que a esquerda norte-americana assuma a curto prazo, o deslocamento do centro político que o plano econômico de Biden implica, exige hoje uma superação desse horizonte, e especialmente um desenvolvimento programático que se antecipe à reorientação política da globalização e as novas formas de capitalismo híbrido que esse plano parece antecipar”, analisa Pablo Bustinduy, professor adjunto no City College of New York e na School of Professional Studies da New York University, em artigo publicado por Público. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

O primeiro discurso de Biden diante do Congresso dos Estados Unidos, ao completar cem dias de sua presidência, intensificou o debate dos dois lados do Atlântico sobre as implicações de seu plano de política econômica. Em meu artigo anterior, busquei sintetizar alguns dos elementos principais desse plano, apresentado como uma iniciativa de conjunto para reconstruir, material e ideologicamente, a classe média norte-americana, preparar o país para uma reorientação política da globalização e enfrentar a fase de concorrência hegemônica com a China, que se antecipa de Washington.

Nas últimas semanas, multiplicaram-se as interpretações sobre a mudança de paradigma macroeconômico que supõe a “guinada social-democrata” de Biden, as análises da coerência e as limitações de suas propostas ou as comparações com o momento de desconcerto político-econômico que a Europa vive. É um debate que deve ser bem acolhido. O que está acontecendo nos Estados Unidos pode ter implicações de longo alcance, especialmente para a esquerda.

Um primeiro nível de análise, talvez mais superficial, tem a ver com a surpresa produzida pela guinada política de Biden. Após cinco décadas de carreira institucional marcada por uma constante defesa do centro ideológico do partido, Biden empreendeu uma agenda ambiciosa de reformas que significa romper com boa parte dos dogmas macroeconômicos que definem, até agora, sua identidade e sua trajetória política.

Há pouco mais de um ano, quando a campanha das primárias democratas se viu abruptamente interrompida pela deflagração da pandemia, Biden seguia defendendo abertamente esse ideário social-liberal frente à pujança da ala esquerda do partido. Nada parecia pressagiar então o rumo que iria tomar sua política econômica. A confissão de que até agora sua presidência superou as expectativas se tornou, por isso, um ritual e objeto de debate entre as principais vozes da esquerda norte-americana.

Com o tempo, há uma decisão que adquiriu relevância para explicar politicamente essa travessia: antes que as votações das primárias chegassem a seu fim, Bernie Sanders decidiu retirar sua candidatura, explicou seu apoio a Biden para as eleições presidenciais e anunciou a formação de uma série de grupos de trabalho programático conjuntos entre as equipes dos dois candidatos.

Naquele momento, o gesto de Sanders parecia pouco mais do que um piscar tático, orientado para manter a mobilização de seu eleitorado e, assim, dissipar o espectro abstencionista que, desde a derrota de Hillary Clinton para Trump, em 2016, tinha aterrorizado a direção do partido. Diante do ceticismo de uma parte de suas bases, que viram nesta estratégia uma rendição ao centrismo vitorioso nas primárias, Sanders decidiu apostar então em uma entente programática que, um ano depois, acabou formando a coluna vertebral das propostas de Biden em matéria de mudança climática, proteção social e renovação de infraestruturas.

Essa influência da esquerda no programa econômico de Biden levou um colunista do Financial Times a proclamar que “a esquerda está vencendo a batalha econômica das ideias”. Mas reivindicar para a esquerda a paternidade das principais ideias desse plano econômico – ou, ao menos, de suas propostas mais ambiciosas e transformadoras – não deixa de ser uma faca de dois gumes.

Sem dúvida, há um forte simbolismo na cena do senador Sanders aplaudindo de pé a declaração de um presidente que afirma que foi a classe média trabalhadora, e não Wall Street, que construiu a riqueza do país, e que essa classe média, por sua vez, é o resultado da luta organizada dos sindicatos.

De fato, para cada iniciativa em matéria social que Biden assume hoje, há uma extensa hemeroteca de discursos de Bernie Sanders que abrange ao menos os últimos trinta anos. Reconstruir o percurso que levou algumas dessas ideias da mobilização social e do extraparlamentar ao próprio centro do debate político e da agenda legislativa da Casa Branca é um exercício histórico notável.

Mas a reivindicação do trabalho e a autoria dessas ideias, e a celebração de cada avanço que seja alcançado, acarretam também um risco evidente de cooptação e dissolução política. Este é o impulso complementar com o qual a esquerda reagiu à guinada econômica de Biden: apontar as limitações e contradições de seu programa, explicar que seria necessário fazer mais e mais rápido, exigir que se inclua tudo o que no momento ficou de fora, por exemplo, o Medicare for All, o aumento do salário mínimo, o perdão da dívida estudantil e um enfoque muito mais ambicioso em matéria de transição ecológica.

Muitas vezes, esta tarefa resulta em uma denúncia mais ou menos velada do caráter conjuntural das propostas de Biden, de sua falta de coerência econômica ao carecer de um modelo social alternativo ou de estar profundamente enraizadas em uma defesa da posição imperial dos Estados Unidos, conforme reflete sua linguagem belicista e sua intenção de aumentar significativamente o gasto militar. Além disso, sobre o conjunto desse programa econômico paira ainda uma grave ameaça: grande parte dos anúncios de Biden são de momento apenas isso, anúncios.

Na ausência de uma forte campanha de pressão social e institucional, as medidas mais ambiciosas correm o risco de encalhar no Senado, de se diluir nas duras negociações que se aproximam com a ala moderada do partido ou de ser completamente marginalizadas se, como costuma acontecer na lógica de ciclos da política estadunidense, os democratas não conseguirem salvar a maioria parlamentar nas eleições de meio de mandato, que acontecerão em 2022. Todas estas dificuldades delimitam a tarefa política e a tática institucional da esquerda a curto prazo: impulsionar os limites do bidenismo, sem se deixar absorver por ele.

Há uma ordem de coisas, no entanto, que é urgente abordar com uma perspectiva mais profunda e de maior alcance. Para a esquerda que vem da longa luta contra o neoliberalismo, a reordenação do campo político que se prevê implica uma importante expansão do horizonte de possibilidades, mas também um certo risco de desorientação política.

Talvez o mais impactante da guinada política de Biden seja, neste sentido, a velocidade em que ocorreu, o fato de ter conseguido realizar (ou, para sermos mais corretos, anunciar) sem necessidade de dizer muito, sem travar uma dura batalha ideológica e cultural contra os totens do consenso neoliberal, simplesmente decretando a caducidade desse paradigma e, com isso, a ampliação imediata do campo do possível.

É claro que existem elementos conjunturais que explicam essa aparente ausência de obstáculos no caminho: o estado de exceção econômica que a pandemia trouxe, mas também a gravidade da crise democrática deixada pelo trumpismo e o desarmamento ideológico no qual os republicanos ficaram submersos.

Por fim, foi o próprio Trump que suspendeu, há um ano, os pilares econômicos do reaganismo, o que na prática os incapacita, diferente do que aconteceu nos anos de cruzada libertária do Tea Party, de estabelecer uma oposição vigorosa às políticas de gasto e intervenção pública na economia.

Para além das circunstâncias, no entanto, segue existindo algo atordoante para a esquerda na cena de um presidente que declara solenemente, diante das Câmaras, sem a necessidade de grandes argumentações teóricas, que a era do trickle-down economics chegou ao seu fim, que suas principais ferramentas teóricas nunca funcionaram, e que por isso devem ser descartadas imediatamente.

Durante décadas de árduo trabalho político, de paciente pedagogia, de mobilização e organização social contra os devastadores efeitos das políticas econômicas neoliberais, cada iniciativa que supusesse sequer um mínimo aumento do gasto público, um direito acrescentado ou uma responsabilidade socioeconômica do Estado, parecia colidir com um muro defendido em uníssono por quase todo o arco parlamentar, a maioria dos criadores de opinião e as vozes dominantes do meio acadêmico. Hoje, um dos principais baluartes desses consensos decreta sua suspensão sem grandes revoos, sem gestos épicos ou tragédia. É inevitável que essa cena gere uma forte desconfiança e uma intensa sensação de irrealidade.

Há algo essencial, no entanto, para resolver nesse deslocamento do centro político que Biden representa. Para além da autoria intelectual e material dessa guinada, ou da denúncia de suas contradições e limitações, é uma realidade que seus efeitos sobre o conjunto do campo político envolvem profundamente o projeto e a vocação futura da esquerda institucional.

Nas últimas décadas, as abordagens programáticas e eleitorais da esquerda consistiram em uma reivindicação mais ou menos explícita de um keynesianismo baseado na relegitimação do papel econômico e redistributivo do Estado, na restauração de uma tributação progressiva e na expansão sustentada das redes de proteção social.

Esse programa reformista e defensivo era, em relação ao equilíbrio de forças dominante no material e o ideológico, profundamente disruptivo em si, mas na prática expressava apenas um exercício de resistência. Sua radicalidade derivava exclusivamente da agressividade com a qual o projeto de sociedade neoliberal se impôs.

Independentemente de seu desenvolvimento, e da tática parlamentar e institucional que a esquerda norte-americana assuma a curto prazo, o deslocamento do centro político que o plano econômico de Biden implica, exige hoje uma superação desse horizonte, e especialmente um desenvolvimento programático que se antecipe à reorientação política da globalização e as novas formas de capitalismo híbrido que esse plano parece antecipar.

O Medicare for All, o Green New Deal e a repolitização geral do trabalho constituem hoje o programa mínimo e o ponto de partida da esquerda norte-americana para essa tarefa. No entanto, no futuro será necessário avançar em uma direção mais audaciosa e ambiciosa de transformação social, que aborde não apenas a desmercantilização de relações sociais essenciais, mas também a reorientação da função imperial dos Estados Unidos e a democratização de uma ordem transnacional que hoje agoniza com a crise de sua hegemonia.

Talvez na Europa, onde os estertores da Constituição de Maastricht seguem levando a política institucional para um labirinto de becos sem saída, este cenário pareça hoje improvável ou distante. Essa talvez seja a tarefa política do presente: conseguir fazer com que a defesa de posições mínimas, própria do longo ciclo do neoliberalismo, abra passagem a um campo de possibilidades expandidas.

 

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