O bombardeio de Biden dá as boas-vindas ao papa no Iraque

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01 Março 2021

Claro que o mundo é estranho. A "esperança democrática", o católico Joe Biden, assim como Donald Trump, coloca a mão na arma e bombardeia a Síria, justamente na véspera da visita do Papa ao Iraque em 5 de março. Uma viagem durante a qual o Papa Francisco deve se encontrar também com a mais alta autoridade religiosa iraquiana, o Grande Aiatolá Alì Sistani, que em 2014 deu sua bênção às milícias xiitas para liderar a luta contra os assassinos do Isis e que foram essenciais para a libertação de Mosul, uma cidade mártir muçulmana e cristã que o papa deve visitar daqui a alguns dias em sua missão no Iraque.

A reportagem é de Alberto Negri e Tommaso Di Francesco, publicada por Il Manifesto, 27-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.


Mapa do Iraque, em destaque as localidades que serão visitadas pelo Papa Francisco. Fonte: Universidade do Texas

Agora, os ataques dos Estados Unidos correm o risco de "aconselhar", se não advertir duramente, que o clima ali não deve ser exatamente de paz. O mundo é realmente estranho: a agenda não deveria ser a guerra, mas a emergência sanitária pelo covid 19. E, além disso, Biden ainda não acertou as contas com o desastre da democracia estadunidense atacada por "terroristas internos" - assim ele os definiu. - que fizeram uma arruaça no Congresso, que já recomeça a descarregar a crise interna "exportando" com as armas a democracia.

Desta vez, Biden ataca um pouco ao acaso, apesar de provocar mais de vinte mortes entre as milícias pró-xiitas, aqueles que ainda apoiavam Assad e o governo iraquiano para derrotar um califado que, aliás, ainda é perigosamente ativo nas fronteiras entre a Síria e o Iraque. No ano passado foi Trump quem atacou no Oriente Médio matando o general iraniano Qassem Soleimani em Bagdá, agora é Biden: mas o que poderíamos ter esperado de um presidente que em 2003 votou pelo ataque de Bush filho ao Iraque.

Biden é um tipo contraditório. Por um lado, ele gostaria de retomar as negociações com Teerã sobre o acordo nuclear de 2015 definido por Obama e cancelado por Trump em 2018, mas ao mesmo tempo bombardeia os aliados do Irã culpados, segundo os estadunidenses, de atingir a base dos EUA no Iraque e aeroporto de Erbil e no Curdistão iraquiano. Naturalmente, tudo acontece sem a menor prova. Mas isso também faz parte do "duplo padrão" do Oriente Médio: estadunidenses e israelenses não precisam provar nada, o que eles fazem é sempre correto.

Por sorte, Biden se apresentou aos europeus como o campeão do multilateralismo e dos direitos humanos, atacando a Rússia e a China: com essas premissas, pelo menos, ele deveria também matar o príncipe saudita Mohammed bin Salman com um drone, já que, segundo a CIA, é o mandante do assassinato do jornalista Khashoggi. E enquanto se espera - mas realmente virá? - o relatório da CIA que o prova, há notícias de um telefonema noturno "para suavizar" de Biden para o Rei Salman sobre os crimes do filho herdeiro.

Na realidade, sobre as instáveis boas intenções de Biden paira o Pacto de Abraão entre Israel e as monarquias do Golfo, que até mesmo o novo presidente, assim como Trump, preza bastante. E não se pode negar que Biden é o emblema de alguns dos fracassos internacionais dos democratas nos anos de Obama, Hillary Clinton e Kerry ("senhor clima"), anos em que foi vice-presidente, conhecido sobretudo pelas gafes.

A prova viva desses fracassos é precisamente seu braço armado, o general Lloyd J. Austin, o atual chefe do Pentágono que ontem disse estar confiante "de ter feito a coisa certa ao atacar as milícias xiitas" que negam qualquer envolvimento nas investidas no Iraque. Diante do Senado em 2015, o general Austin, então comandante do Centcom, o comando militar do Oriente Médio, admitiu ter gasto 500 milhões de dólares para treinar e armar apenas algumas dezenas de milicianos sírios dos 15 mil planejados para lutar contra o Isis - Isis que se apropriou de todo aquele precioso armamento dos EUA.

Austin também testemunhou que havia sido iniciado o plano Timber Sycamore na Jordânia para tirar do poder Assad, de $ 1 bilhão administrados pela CIA, que foi dizimado por bombardeios russos e cancelado em meados de 2017. O general Austin provocou a irritação e zombaria dos estadunidenses ao descobrirem uma série de fracassos assustadores dignos de uma republiqueta. Mas há pouco para rir ao pensar sobre todos os desastres realizados pelos EUA na região. Por exemplo, a decisão de retirar o contingente estadunidense do Iraque: depois de ter destruído um país com os bombardeios e a invasão de 2003 para derrubar Saddam Hussein - causando a fuga de milhões de seres humanos - com base em mentiras sobre as armas de destruição de massa iraquianas, abandonou-o ao seu destino sabendo muito bem que não tinha os meios para se sustentar sozinho. Austin seguiu as políticas de Obama e de Hillary Clinton.

Em 2014 o Iraque foi sacudido pela ascensão do Califado que, após ocupar Mosul, a segunda cidade do país, também estava prestes a tomar Bagdá: o exército iraquiano estava disperso e foi o general iraniano Qassem Soleimani, com as milícias xiitas, que salvaram a capital. E Soleimani foi morto por um drone dos EUA em Bagdá. Pior ainda foi o que aconteceu na Síria após a revolta de 2011 contra Assad. A guerra civil logo se transformou em uma guerra por procuração e os Estados Unidos, liderados por Hillary Clinton, deram luz verde a Erdogan e às monarquias do Golfo, entre as quais o Catar, para apoiar rebeldes e jihadistas que deveriam derrubar o regime. Como tudo terminou é bem conhecido: os jihadistas invadiram a Síria e depois inspiraram atentados por toda a Europa, enquanto Assad ainda está em seu lugar com o apoio do Irã e, acima de tudo, da Rússia de Putin, que entrou na guerra em 30 de setembro de 2015 bombardeando as regiões de Homs e Hama. Poucas horas antes, Obama deu aval ao papel de Putin na Síria, encontrando-se com ele à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova York. Nessa história de fracassos Biden teve um papel mesmo que não de protagonista principal: e hoje na Síria faz a vez de pistoleiro acolhendo o Papa com um ruidoso “bem-vindo ao Médio Oriente”.

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